Viajando por músicas e tempos

São 25 edições, o que quer dizer centenas de concertos, o que significa milhares de memórias que se acumulam na história pessoal de quem passou por Paredes de Coura (uma vez, cinco vezes, as vezes todas). Algumas memórias sobrepõem-se, outras complementam-se, outras pertencem apenas a quem as viveu.

Os Arcade Fire em 2005
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Os Arcade Fire em 2005 PAULO PIMENTA

Ana Markl (Radialista)

Em 2005, o concerto dos Arcade Fire – ainda em redor de Funeral, um dos discos da minha vida – foi uma experiência incrivelmente emocionante. O meu namorado da altura viu cinco minutos e odiou, por isso afastou-se do palco, o que lhe permitiu reencontrar um velho amigo com quem mais tarde veio a formar uma banda. Dois anos depois, entrevistei o Win Butler e contei-lhe esta história. Ele ficou contente por ter sido odiado. Mas não posso deixar de mencionar a primeira vez que fui ao festival, em 1998, em que perdi uma boa parte do concerto dos meus amados Red House Painters porque deixei a chave do carro trancada na bagageira. Mas consolei-me com Tindersticks e deixei um bocado das minhas entranhas em Atari Teenage Riot.”

Adolfo Luxúria Canibal (Músico - Mão Morta)

Lembro-me de um ano [2007] em que estava a chover copiosamente e, de repente, as pessoas à frente do palco, apesar de toda a lama, começam a levantar pó. Houve um problema com a bateria do Miguel Pedro e ele pediu-me para entreter. Falei desse milagre da transformação da lama em pó. [‘Se eu fosse uma espécie de Papa, que não sou, diria que estais com uma auréola muito estranha, milagrosa, porque apesar da chuva e da lama, conseguis levantar poeira. Poeira! Mesmo para um não crente como eu, é milagre’]. Esse discurso ficou marcado. Ainda hoje está no YouTube. Há algum tempo que não acontece, mas Paredes de Coura era o festival da chuva. E nesse ano choveu mesmo muito.

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Francisco Silva (Músico - Old Jerusalem)

De Paredes de Coura guardo impressões fortíssimas que são já parte do 'meu folclore'. A primeira incursão em comboio em 96 (ou seria 97?). A sensação mista de pertença e alienação. Os Red House Painters dolentes num palco maravilhosamente iluminado [em 1998]. Mogwai e a brava introdução do Christmas steps, contra tudo e todos [em 1999]. As míticas edições sobre as quais já só pude fantasiar (Cosmic City Blues, Primitive Reason, Astonishing Urbana Fall, Tédio Boys, Melancholic Youth of Jesus...). A minha guitarra em palco aguardando este fraco Quixote [em 2004]. E gratidão.

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Paulo Furtado (Músico - Legendary Tigerman)

Lembro-me perfeitamente do primeiro em que estive [segunda edição, 1994, integrado nos Tédio Boys]. Vi o que parecia ser uma baleia branca mas afinal era o rabo do Manuel João Vieira a mergulhar nas águas do Coura e não me esqueço do guitarrista dos Jarojupe, que tinha um pedal que ligava a uma ventoinha e lhe fazia vento no cabelo. Era um festival muito honesto e amador, mas muito divertido e com uma energia incrível. Anos depois, vi lá os Cramps. Estava cheio de febre, encostado a um canto na zona VIP, e quando ouço o primeiro berro da Tear it up, que nunca ouvira nos concertos deles que já tinha visto, ainda ele [Lux Interior] não o tinha acabado e já estava na primeira fila. Na última vez que lá fui com Tigerman estava com um problema super tramado nas costas e estive duas semanas em fisioterapia. Ponderou-se tocar sentado, cancelar, mas fomos andando até lá chegar e foi incrível. Já estive em muito palcos, mas nunca vou encontrar um tão bonito como o de Coura, com aquela montanha de gente. Não há músico que não sinta um tremor na barriga quando está lá.

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Domingos Coimbra (Músico - Capitão Fausto)

Em 2011 fui com o Tomás Wallenstein (vocalista e guitarrista dos Capitão Fausto). Fomos apenas com latas de atum e garrafas de vodka. Foi Paredes de Coura em rotação alta. No último dia, dada a falta de orçamento, tentámos entrar no recinto com a última garrafa e naturalmente fomos apanhados. Deram-nos um ultimato justo: “só entram daqui a três horas”. Numa fase de grandes decisões estratégicas, decidimos beber rapidamente toda a garrafa e tentar entrar disfarçados na ponta oposta do portão. Conseguimos e valeu a pena. Não me arrependo de termos visto Pulp totalmente às curvas e jamais me esquecerei daquele concerto. Foi ali que comentámos, meio a tropeçar, que um dia tínhamos de tocar naquele palco. Acho que foi ali que percebemos a onda daquele anfiteatro e a alegria de lá estar. Ironia do destino: exactamente um ano depois tocámos lá. Boas curvas.

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António Costa (Músico - Ermo)

Estreei-me no ano dos Pulp [2011], primeira vez que acampei num festival. Tinha acabado de entrar na nave-mãe e queria multiplicar tudo por tudo. Ainda penso no concerto dos Battles – desde então, cada vez mais reconheço a influência que eles tiveram na música alternativa dos anos seguintes. Adorei também o concerto dos No Age, intercalado pelos gritos de Dean Spunt, num discurso a apelar ao boicote à Pizza Hut, instalada ao lado do palco.

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João Vieira (Músico - White Haus, X-Wife, DJ Kitten)

Não me lembro de ter falhado uma edição desde 2003, por isso são muitos os momentos que recordo do festival. Escolher um é difícil, mas recordo um dos mais recentes. Na edição de 2015, no mesmo dia em que os X-Wife regressaram ao festival, assisti na zona VIP com a minha mulher e o meu filho ao memorável concerto, com grande carga emocional, do Charles Bradley. Terminado o concerto, o artista, por iniciativa própria dirigiu-se ao meu filho, que tinha quatro anos na altura, e beijou-lhe a mão. O meu filho nunca mais esqueceu aquele gesto e eu vou tê-lo para sempre na minha memória.

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Manel Cruz (Músico - Ornatos Violeta) 

Enquanto músico, tenho duas memórias muito fixes. Uma com Foge Foge Bandido [2009]. Tocámos as cinco da tarde, num dia de sol e com aquela boa brisa. Quando começámos estava ainda pouca gente, mas depois começa a chegar mais e mais, e essa imagem tão cinematográfica das pessoas a descer a colina ao sol da tarde ficou sempre comigo. Outro momento que fica é o do concerto dos Ornatos [Violeta, 2012]. Já imaginávamos que iria ser uma coisa forte, mas estar lá e viver aquilo superou todo que pudéssemos ter imaginado. Como espectador, não me esqueço do concerto dos Flaming Lips [em 2000]. Não os conhecia e tinha pessoal à minha volta a dizer que aquilo estava tudo desafinado, que o gajo não sabia cantar e eu a adorar aquela voz de cana rachada, a adorar tudo. Comprei os discos todos depois do festival.

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paulo pimenta

Valter Hugo Mãe (Escritor)

O Festival de Paredes de Coura é inevitavelmente o meu festival de Verão. O que mais se prende à minha vida, aquele que mais frequentei, onde já cantei numa banda [Governo, 2011], onde inventei leituras de poesia há tantos, tantos, anos, para onde convidei poetas e diseurs que incendiaram as mentes ávidas do público.

Coura tem o melhor local, o mais porreiro ambiente, o rock mais urgente. A receita é perfeita para uma semana sem compromisso. Louvados Linda Martini e Mão Morta, louvados Bauhaus, Prodigy, Peaches, Selfish Cunt, Sonic Youth e uma infinidade de bandas que ali vi a tocarem como se não houvesse amanhã. Defendo que devia ser um direito constitucional que as pessoas do país fossem todas ao festival de Coura. E o bilhete devia descontar nos impostos entre as despesas médicas. A mim, de verdade, o festival foi sempre generoso a cuidar-me do corpo e da cabeça. Cada ano que não vou, é um Inverno de gripes.

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nelson garrido

Marta Ren (Música)

Paredes de Coura é o meu festival preferido, pelo cartaz, pelo ambiente, por ser um anfiteatro natural. Fui três anos com tudo a que um festivaleiro tem direito, frio à noite e formigas na tenda, banhos gelados no rio, bebedeiras que nos faziam andar horas à procura da tenda. Até que em 2000 fui convidada a tocar no palco principal com a minha primeira banda, Sloppy Joe, um grande sonho concretizado. Abrimos o palco, de seguida tocaram os Mão Morta e os Coldplay. Vi o concerto mais desconcertante da minha vida, no bom sentido, o dos Flaming Lips, e o que eu queria mesmo ver, Mr. Bungle (na altura tinha um crush gigante pelo Mike Patton). Jogámos matrecos nos camarins com os Coldplay, que na altura não eram mundialmente famosos como hoje. Estivemos à conversa com os Mão Morta e lembro-me de que o Adolfo depois dos nossos concertos nos comeu o queijo todo do camarim. Fui pela última vez em 2010, para ver os míticos The Specials. Depois disso, tenho tido sempre concertos na altura do festival. Não vejo a hora de pisar aquele palco principal novamente com o meu disco a solo.

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paulo pimenta

Dario Oliveira (Director do Festival Porto/Post/Doc)

Vou a Paredes de Coura desde 1998 e, poucos anos depois, vivi um momento especial, pelo que aconteceu nesse final de tarde e por ter partilhado esse concerto com uma das maiores fãs da banda, a minha mulher. Descobri uma banda que não conhecia, os Stone Temple Pilots, e senti nesse concerto [em 2001], pela emoção e partilha, a plenitude do que é estar em Coura a ver música ao vivo. É um concerto que recordo sempre, além de outros pequenos prazeres pessoais, como o dos Cramps [2006], que vi com o Tigerman, o dos Horrors ou o dos Franz Ferdinand [ambos em 2009]. Quando descobri o festival em 1998, estando eu na altura no Curtas de Vila Conde, propus fazer um programa de filmes documentais. [Em 2000] Passámos inéditos como o Meeting People is Easy, dos Radiohead, que eram vistos no Centro Cultural por um público disponível, antes da euforia da Net, durante as tardes quentes de Coura. É o festival a que fui mais vezes, em várias fases da minha vida. O meu filho mais velho já acampa lá, o mais novo foi ver James Blake [2014] em sítio privilegiado, nas traseiras do palco.

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Manuel Roberto

Cláudia Marques (Designer, autora do blogue Menina Limão)

De muitos factores se faz a minha preferência por Paredes de Coura. Com os anos, aliás, desisti de todos os outros festivais — e ficar-me-ia pelas margens do Coura, não fosse o Primavera Sound ter surgido entretanto a replicar algumas das condições que o tornam especial. Nenhum outro festival do género conseguiu reunir tanta gente movida, em primeiríssimo lugar, pela música, oferecendo condições para que dos concertos tirássemos o melhor proveito.

Muitas memórias guardo eu de um festival que se tornou uma espécie de retiro espiritual, o único que eu diria capaz de converter os cépticos destas andanças. A beleza da paisagem, o Jazz na Relvaand the living is easy; a ligação que estabeleci nas primeiras edições com aquele acampamento de marmanjos que até aí não conhecia; as primeiras chuvadas e nem uma peça de roupa enxuta num estendal improvisado e inútil; ou ainda a vez em que fui sendo atraída por um som alienígena, à medida que me aproximava do palco, até não haver dúvidas de que estava de visita a um planeta distante chamado CocoRosie, pelo qual nunca mais pararia de me apaixonar. E, então, a música. Nomeadamente, a música dessa mítica edição de 2005, inesquecível ramalhete que nos deu Pixies, Nick Cave, The National, Woven Hand, !!!, Vincent Gallo, QOTSA, e um longo etc. Mas quem o presenciou não estranhará: a minha memória mais marcante de PdC é, naturalmente, aquele concerto dos Arcade Fire. No dia seguinte, pude comprovar com emoção, num texto publicado nas páginas deste jornal, que o que quer que fosse que eu senti ali e que nunca mais voltaria a sentir em concerto algum não entrava apenas na minha história pessoal, mas na memória colectiva. 

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Paulo Pimenta