Primeira noite do segundo acto

Super Bock Super Rock: os versículos sagrados dos Arcade Fire

Ninguém vai esquecer tão cedo a actuação dos Arcade Fire
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Ninguém vai esquecer tão cedo a actuação dos Arcade Fire DR

É oficial: a 13ª edição do Super Rock Super Rock tem o melhor "line-up" de que há memória. A noite de ontem, que inaugurou o segundo acto, deixou para atrás a enchente de 50 mil para ver Metallica. Perdeu em número de gente, mas ganhou no rock alternativo que, num discreto crescendo, foi subindo em direcção a uma momento intocável e instantaneamente sagrado: a actuação dos Arcade Fire.

Os Bunnyranch encontraram pouca gente – os concertos começam a meio da tarde, em dia de trabalho –, mas conseguiram mobilizar os poucos que já se encontravam lá a essa hora para o seu rock tingido de blues. Foi pena a curta duração, mas festival "oblige".

Seguiram-se os Gift, com mais uma actuação a contribuir para a fama que têm como excelente banda de palco, com as músicas a ganharem corpos diferentes mas reconhecíveis. Não sabemos onde Sónia Tavares vai parar. De cada vez que a vemos está mais segura, mais solta e mais inteligente no uso da voz. E bem humorada: colaram Depeche Mode a uma música e ainda se riram com a colagem.

A dança dos Gift antecedeu a prestação dos Klaxons. Era grande a expectativa sobre eles. Afinal, foram eles que obrigaram as casas de discos a inaugurar novo separador nos escaparates: essa tal de "new rave", para consumir sem moderação entre a dança e as guitarras. Na Londres dos Klaxons o que manda é o hedonismo. Dançar é tão obrigatório como esvaziar a mente (de preferência com a ajuda de alguma substância). A ebriedade de canções como "Atlantis to interzone" ou "Golden skans" – justamente o que seduz nos álbuns – não chegou, contudo, para fazer sair do chão. Faltou um "click", e essa falta não deixou que o efeito se consumasse. Talvez a luz do dia tenha refreado o andamento. Ao Lux com eles, já.

Os Magic Numbers foram uma boa surpresa. O recado lá dizia "Take a chance"... Os casais de irmãos, que também são casados entre si, foram ao Parque Tejo cantar o amor, de forma tão brilhante e honesta que não deu para lhes resistir, especialmente quando a tendência era para festejar com ritmos roubados à country por estes londrinos. Tudo no sítio, sem maneirismos desnecessários, e um sorriso constante a alimentar folias rock com o pulsar próprio e saudoso da beira-mar californiana.

Em direcção ao sagrado

Seguiram-se os Bloc Party, em simultânea confirmação e redenção. Confirmaram o potencial que já tinham deixado no ar de Paredes de Coura, no ano passado. Redimiram-se do concerto no Coliseu dos Recreios, em Maio, que ficou aquém das expectativas. Não deixa de ser louvável que tanta gente os tenha ido ver ao Super Bock Super Rock, pouco mais de um mês após a sua última passagem por cá. Se o público não soubesse que ainda vinham lá os Arcade Fire, a energia teria sido toda gasta aqui, ao som de temas como "Like eating glass" ou "Helicopter". Curisoso como foi com o rock mais sério dos Bloc Party, com mais sorriso que hedonismo, que a noite mais se aproximou da tal new rave.

Nos quinze minutos que se seguem, começa o nervoso miudinho. Nos ecrãs gigantes, aparece uma criança a pregar aos seus pecadores com convicção de gente grande. Chega a ser assustador. Olhamos para o lado, para o palco. Lá estão os Arcade Fire. Lá está uma alternativa bem melhor de salvação. "Black mirror" entra em cena e dá-se, imediatamente, uma fuga para outra dimensão. Isto é diferente de tudo o que ouvimos e igual a tudo o que já sentimos. Vem aí uma celebração da vida. Sem rodeios, a olhar a morte de frente. Agarrada ao chão, mas com os olhos no céu. Feita de virtudes manchadas de pecados, que gritam por uma salvação que nunca virá – nem precisa de vir. Melancolia festiva, com os coros das grandes canções, o toque puro da tradição e a urgência dos dias de hoje.

Os Arcade Fire nunca foram um "hype", foram sempre uns senhores. Há algo que os distingue de toda a leva de bandas que, nos últimos anos, foram enaltecidas pelo rock alternativo como salvadoras. Esse algo é, em primeiro lugar (só depois vem a genialidade), a paixão. Não estamos a falar amorosamente. Estamos a falar daquela paixão que se coloca sem condições nas pequenas e grandes coisas que mais prazer dão a uma pessoa. Olha-se para o palco e é isto que se vê: uma formação demasiado grande para definições estereotipadas, mas ideal para a entrega que estas canções merecem. Cortina de veludo vermelho, ecrãs redondos, muitos músicos em palco, instrumentos para todos os gostos, músicos a revezarem as posições, metais a tocar-se, os violinos a aconchegarem emoções. Não há coração nem instrumento em palco que não pareça estar a viver só para aquele momento, para dar vida a canções como "Rebellion (lies)", "Intervention", "The well and the lighthouse" ou "Keep the car running".

Se há concertos que valem pela memória que reclamam, um concerto destes vale pela memória que constrói naquele preciso momento. É por isso que, tão cedo, ninguém se vai esquecer desta noite. É por isso que ninguém ainda se esqueceu da grandiosa estreia em Paredes de Coura, tão marcante que nem parece ter sido há apenas dois anos. É por isso que ninguém arreda pé sem ter a certeza de que os Arcade Fire já saíram mesmo de palco. E é por isso que, apesar de querer mais, o público se dispersa a cantar e a desejar que o futuro ande depressa até ao próximo reencontro com a banda canadiana. Não é bem um adeus. É uma despedida com juras de amizade e promessa de regresso breve.