Arcade Fire

The Suburbs

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Não poderia existir outro título para o álbum porque "os subúrbios" são nele a única paisagem visível. Neste que é o terceiro, mais longo e mais ambicioso álbum dos Arcade Fire, eles são tanto lugar quanto obsessão: um refúgio de adolescência onde a banda se projecta.

Não é tarefa sem perigos. Porque o reflexo que lhes é devolvido não tem a inocência e o romantismo das velhas fotos a preto a branco: "pray to God I won't live to see the death of everything that's wild", ouvimos Win Butler cantar em "Half light II (No Celebration)". "The Suburbs" são 16 canções centradas na inevitabilidade da passagem do tempo e na consciência, cada vez mais aguda, de tudo o que nunca poderemos recuperar. Nesse sentido, é um mosaico construído com mestria. Musicalmente, contudo, a banda cede ao peso da sua própria ambição. Os crescendos emotivos que são imagem de marca dos Arcade Fire, com piano McCartney e as opulentas orquestrações de Owen Pallett (o óptimo tema-título, primeira canção do álbum, é disso exemplo magistral) colam-se a acessos punk inesperados (uma versão Ramones da banda em "Month of May"), a discretas pinceladas synth-pop ("Half light II"), a baladas de charme com tempero mexicano (conseguimos imaginar Chris Isaak a cantar "Suburban war" e isto é um elogio) ou, mesmo no final, a uma desavergonhada investida por terrenos electro-pop, como se os New Order se fundissem com os Blondie ("Sprawl II", cantado por Régine Chassagne). Note-se que nenhuma delas é individualmente uma má canção, mas várias parecem deslocadas neste contexto. Os Arcade Fire não perderam o "toque", mas falta a este disco o momentum de "Funeral", a emotividade de "Neon Bible" e a concisão que ambos mostravam. Musicalmente, "The Suburbs" é mais conjunto de canções do que álbum. Fragmentado e de inspiração variável.