Os avassaladores Arcade Fire e a eufórica Grimes triunfam no Nos Alive

Do Canadá vieram os Arcade Fire e Grimes para os concertos mais empolgantes da última noite do festival Nos Alive, que regressa para o ano de 6 a 8 de Julho.

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Houve transcendência com Arcade Fire, euforia com Grimes e uma distinta representação portuguesa (Isaura, Francis Dale, Paus ou Mirror People) no sábado, último dia do Nos Alive em Algés, naquela que terá sido uma das edições mais completas do festival, com nomes que arrastam multidões mas que mantêm a validade artística, lotações esgotadas, muita afluência de público estrangeiro e a novidade do relvado sintético. Os únicos problemas decorreram justamente dessa superlotação com a fluidez no recinto e fora dele, à saída, a fazer-se sentir nos momentos em que a multidão converge nas mesmas direcções.

Foi uma noite de emoções fortes. Aos primeiros acordes de Rebellion (lies) dos Arcade Fire, ia o concerto dos canadianos já na sua fase final, um casal de espanhóis à nossa frente até aí tranquilo começa aos saltos, ouve-se a bateria e a linha de baixo marcada, entram depois outros instrumentos entre percussões, metais, cordas, guitarras ou teclados, com uma dezena de músicos em palco em grande agitação. Às tantas Win Butler finge declaradamente que está a tocar guitarra, gritando “every time you close your eyes, nah, nah”, com a multidão entoando a letra com ele, e o ritmo sobe, ouvem-se os violinos lá em cima, e ele volta a cantar com fúria “lies, lies”, enquanto a música fica mais intensa desaguando numa onda catártica final, com o casal abraçado, numa mistura de risos e lágrimas.

Não custa acreditar que seria uma canção evocadora de um qualquer momento relevante na existência daquelas duas pessoas. Na última dezena de anos se existiu grupo rock que se impôs em grandes arenas, tocando para grandes massas, mas ainda assim conseguindo comunicar como se o estivesse a fazer para cada um de nós, foram eles. As canções que provocam essa sensação de elevação estão alojadas essencialmente nos dois primeiros álbuns (Funeral de 2004 e Neon Bible de 2007). Ou seja, na actualidade, um concerto dos Arcade Fire não é apenas uma experiência épica estrondosa como acontecia no passado. Há também momentos de dança, de ironia e até de solenidade, o que não surpreende quando se ouvem os restantes dois álbuns, The Suburbs (2010) e Reflektor (2014).  

O concerto passou por várias fases. Em palco, a paixão de sempre. Mas a energia mais primordial anda a par do refinamento mais subtil. Há nervo mas também fisicalidade, por vezes com sobreposição de camadas instrumentais, outras vezes com um som menos saturado, expondo uma maior riqueza de opções, o que não se vislumbra muito por aí quando se pensa em bandas desta dimensão. Começaram com a energia de Ready to start, passaram pelo romantismo de The suburbs, atribuíram um colorido caleidoscópio à noite com a voz de Régine Chassagne em Sprawl II, libertaram o lirismo grandioso de My body is a cage, puseram toda a gente dançar com Keep the car running ou com o requinte funk de Afterlife, fizeram as gargantas ouvir-se em No cars go e no final da celestial Intervention, citaram God save the queen dos Sex Pistols.

Na parte final, para que não ficassem dúvidas, foram empolgantes com aquela que deve ser uma das sequências ao vivo mais dominadoras que se pode experimentar por estes dias, com canções como Neighborhood #1 e a já citada Rebellion (lies) a fazerem soltar uma energia que poucos grupos conseguem expor daquela forma desvairada, ritualística, à beira da deflagração, com toda a gente a clamar a plenos pulmões. Segue-se a desconcertante Here comes the night time, com os gigantones de Nova Orleães a invadirem o palco, para tudo acabar com Wake up, músicos e público como um só, numa prática de superação colectiva que, ainda assim, ecoa nas memórias mais internas de cada um, cumprindo-se mais um magnífico concerto dos Arcade Fire em Portugal.

Música desvairada

Se eles têm um peso geracional evidente para quem cresceu para a música nos últimos 15 anos, a compatriota Grimes começa a tê-lo para um público mais recente. Em Portugal o fenómeno não é evidente, mas é nitidamente um caso de culto globalizado, não surpreendendo que fossem essencialmente estrangeiros quem se dispôs a ouvi-la num dos espaços alternativos.

Para propor tem canções electrónicas com qualquer coisa de plástico e visual, mistura de inteligibilidade pop e exaltação completa, como se personificasse uma geração pós-Internet que filtra os mais diversos elementos de forma não hierárquica. Acompanhada por três bailarinas-agitadoras, que também fazem por vezes o papel de músicas, com uma delas a empunhar a guitarra, pressente-se no seu espectáculo o passado ligado à performance e às artes plásticas. A música é quase sempre um potente composto vitamínico que assimila figuras estilhaçadas das mais diversas proveniências (house, R&B, electrónicas, ruídos industriais, vozes gritadas) para tudo desembocar numa música dançante desvairada.

O público que lotou por completo a tenda Heineken rendeu-se totalmente, numa prova de entusiasmo sem igual durante a noite de sábado. Ouvindo em disco canções como Oblivion, Genesis, Realiti, Venus fly, Scream, Go ou Kill v. maim não se percebe de forma imediata o impacto que podem adquirir em palco. Dir-se-ia que Claire Boucher, seu verdadeiro nome, sem propor grandes alterações ou arranjos diferenciados às canções, intensifica tudo até ao limite - volume, som, texturas, luz, fisicalidade - e a verdade é que o efeito funciona. Para muita gente terá sido a grande surpresa da noite.

Surpresas não existiram no concerto dos Calexico, mas houve a competência e o brilho habitual. O grupo do vocalista e guitarrista Joey Burns raramente falha e assim voltou a ser, com uma música perfumada de rock, cumbia, rumba e mariachi, tudo tocado com grande requinte. O sentido de festa que os americanos levaram para um dos palcos secundários acabou por não ser cumprido no principal com os espanhóis Vetusta Morla e os americanos Band Of Horses, que se limitaram a ser grupos de aquecimento para os Arcade Fire.

Depois destes tocaram ainda os M83, o projecto francês de Anthony Gonzalez, que se tornaram num caso de sucesso por causa de singles como Midnight city. Há sentido de espectáculo, esforço para envolver a assistência e uma montagem sonora que tanto remete para o psicadelismo pop como para a electrónica mais barroca, mas dos 20 minutos que vimos ficou a ideia de que nem sempre são capazes de engendrar as soluções mais claras e simples.

Foi também uma noite boa para tomar o pulso à música portuguesa mais recente, com a pop electrónica de Isaura e a austera soul digitalizada de Francis Dale a ganharem novos adeptos, com actuações convincentes num dos palcos secundários. O mesmo acontecendo com os Mirror People de Rui Maia, revelando-se cada vez mais uma máquina de ritmo imparável, com programações, bateria, robustas linhas de baixo e uma ocasional voz feminina, ou os Paus, exemplo de nervo, disponibilidade física e tribalismo urbano, expondo uma massa sonora em bruto de fazer estremecer qualquer festival. O Nos Alive regressa a 6, 7 e 8 de Julho do próximo ano.