Os Arcade Fire querem ser melhores (e não maiores)

Ao quarto álbum, os Arcade Fire podiam subir ainda mais alto ou reinventar-se. Reflektor é o disco de um grupo que não se quer acomodar. A apresentação foi em Nova Iorque e o Ípsilon esteve lá.

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A banda de Win Butler e Régine Chassagne foi ao Haiti e à Jamaica reinventar-se para este álbum em que sai mais do que nunca da sua zona de conforto

Olha-se à volta e há qualquer coisa que não bate certo. Ouvem-se gritos esfusiantes entre o público, como em qualquer concerto dos Arcade Fire dos últimos dez anos. Mas em vez de punhos fechados erguidos, os corpos balançam-se voluptuosamente. Em vez de palavras gritadas em uníssono, vislumbra-se intensidade, mas focada no ritmo. Em vez de um templo de fé, uma festa física e emocional.

Foi há precisamente há uma semana, em Nova Iorque, mais exactamente num barracão industrial de ar semi-abandonado, em Williamsburg, Brooklyn, que os canadianos apresentaram ao mundo o seu novo duplo álbumm, Reflektor. O disco chega às lojas na próxima segunda-feira, conseguindo a proeza, invulgar nos dias que correm, de ainda não ter sido partilhado na Internet, sintoma de que tem estado fechado a sete chaves e de que é sem dúvida o disco mais esperado dos últimos meses.

Tem sido aliás um ano discográfico fascinante para quem gosta de analisar o fenómeno musical como um todo. Goste-se ou não deles, é difícil não vislumbrar nos regressos de David Bowie, Daft Punk ou Kanye West gestos ousados, não só do ponto de vista musical, mas também do ponto de vista comunicacional. Apesar do sucesso para trás, continuam a colocar-se em causa. Mas ninguém se questionou tanto como os Arcade Fire. Talvez tivesse de ser assim. Depois de três álbuns (Funeral, de 2004, Neon Bible, de 2007, e The Suburbs, de 2010), passaram de banda rock alternativa mais querida dos melómanos exclusivistas a banda de grande público, posicionando-se como o colectivo que na última década mais foi capaz de gerar sentimentos de comunhão ao vivo.

No último álbum, já se pressentia que era necessário encetar uma transformação. O grito, por si só, já não bastava. Havia que dar um novo sentido ao grito. Reflektor é isso: os Arcade Fire a dizerem que querem voltar a surpreender-se e, nesse caminho, se possível, conquistar novos públicos e também quem com eles cresceu nos primeiros anos.

Algumas das mais importantes bandas da história fizeram-no. Os The Clash com Sandinista. Os Talking Heads com Remain in Light. Os New Order com Movement. Os Radiohead com OK Computer. Os U2 com Acthung Baby. David Bowie com Ziggy Stardust. Os REM com Monster. São momentos liminares, que tentam provocar um antes e um depois. Não é apenas a música. Nunca é. É também quem esses músicos são, depois de anos em que a confusão entre quem são e o que se espera que sejam se vai intensificando. É como se quisessem dizer-nos: às vezes é preciso envergar uma máscara, mudar de cenário, não para nos camuflarmos, mas para comunicar ainda com mais verdade quem somos.

É isso que os Arcade Fire estão a fazer. Perceberam que o desígnio não era serem os maiores, mas tentarem ser melhores. Entenderam que, mais do que ir ao encontro das expectativas, tinham de voltar a pensar neles próprios. E para isso acontecer tinham de projectar-se noutro cenário, e, paradoxalmente, voltar ao início. Por exemplo, a Brooklyn.

Rendição, confusão

É verdade que os Arcade Fire são de Montreal, Canadá, mas é difícil imaginar um cenário que encaixe tão bem neles como os restaurantes, os bares, as livrarias, as galerias, os estúdios, as ruas onde se nota a reutilização de espaços abandonados, ou seja, o enquadramento urbano e humano de Brooklyn. Foi ali que nos últimos dez anos a Nova Iorque boémia e culta, mundo de artistas, músicos e diletantes, mistura de pessoas sem emprego fixo vinda de outras cidades dos EUA e comunidades imigrantes, cresceu ao mesmo tempo que eles.

Entra-se num restaurante e ouve-se Vampire Weekend, anda-se na ruas de Williamsburg e toda a gente parece saída de uma banda como os Animal Collective; nas esplanadas, os computadores estão abertos na publicação digital Pitchfork, que se tornou numa das mais influentes na última década - influente sobretudo quando se pensa no lançamento de grupos como os Arcade Fire.

Há três anos, o lançamento de The Suburbs havia sido em grande, em Manhatthan, no gigante Madison Square Garden. Podiam ter regressado àquele espaço, que ele esgotaria num ápice. Mas agora a ideia era outra. Era precisamente voltar a tocar num espaço pequeno, no seu habitat natural, próximos do seu público, sem publicidade, numa festa secreta - quer dizer, até onde isso é possível, porque bastaram alguns cartazes colados em Brooklyn a anunciar um concerto de uns tais The Reflektor para que a notícia se propagasse.

Os poucos bilhetes - cerca de dois mil - colocados à venda esgotaram num instante, tendo chegado no mercado negro a valores na ordem dos 400 euros. Mais do que um concerto, tratava-se de um acontecimento festivo, com a obrigatoriedade de o público ir mascarado ou apresentar-se, digamos assim, em versão sofisticada de si próprio, numa colagem à operação de comunicação do álbum, que interroga as noções de falso e verdadeiro, encenação ou real.

Quando nos aproximámos do local - um dos muitos barracões reutilizados para operações culturais numa zona de fábricas desactivadas de Brooklyn -, já uma fila enorme de pessoas se aglomerava à porta. Marilyn Monroe, Batman, Obama, Zorro, marinheiros ou gente apenas com os olhos pintados de negro, como Win Butler tem surgido nas últimas semanas, eram algumas das fantasias que se vislumbravam. Às tantas, uma limusine estacionou à porta e de lá saíram seis cabeçudos representando cada um dos seis Arcade Fire - Win Butler, Régine Chassagne, Richard Reed Parry, William Butler, Tim Kingsbury e Jeremy Gara. Se as máscaras e as roupas escondiam os músicos não sabemos, mas o público tratou-os como se fossem eles, rodeando-os em delírio e disparando máquinas e telemóveis a cada esgar e acenar.

Ao nosso lado, Amanda Barnes, uma programadora de rádio local, não escondia a expectativa de os ver outra vez: "Já os vi em concerto umas cinco vezes, mas é sempre um impacto enorme, ainda mais agora, pelos três temas que conheço do novo álbum, onde se nota que estão mais dançantes. Quero ver o que mudou." À nossa frente, Ron Ferry, vindo de Baltimore, era mais taxativo: "São só a melhor banda que alguma vez vi ao vivo, como é que poderia não estar aqui?". A companheira, Rita Bryan, envergando um vestido cor-de-rosa com uma longa cauda de felino, estava excitada por outras razões: "Quantas vezes é que se poderá ver um grupo como eles num espaço tão pequeno como este e senti-los de perto? Eu diria que é impossível."

No interior, como se esperava, nenhum aparato, apenas um palco onde se lia The Reflektors, algumas bolas de espelho, os gigantones que representavam os membros do grupo a dançar e uma pequena multidão de 2.500 pessoas, entre artistas, aspirantes a artistas, gente mundana, mas também executivos de porte respeitável. Todos fantasiados, acotovelando-se, fazendo subir a temperatura a níveis desmesurados, como se não fosse suficiente por si só a adrenalina de um concerto do grupo.

A selecção musical que antecedeu o concerto, da autoria de Win Butler, foi significativa do que se seguiria: Clash, Fela Kuti, música do caribe, hip-hop, Run DMC, funk e disco dos 1970. Ou seja, sonoridades sensuais, rítmicas, cruzadas.

A ansiedade crescia e os técnicos de palco afinavam os instrumentos. Era previsível que o nova iorquino e ex-LCD Soundystem James Murphy, um dos produtores do álbum, surgisse na festa. Assim foi. Coube-lhe apresentar os Reflektors, dizendo que tinha havido um contratempo e que iriam tocar inicialmente apenas três músicos. Tudo isto perante a reacção entusiasta da assistência, que viu entrar em palco os cabeçudos que já se haviam vislumbrado antes. Quando começaram, percebeu-se que algo se passava. Minutos depois percebeu-se porquê. Numa das laterais, enormes panos pretos abateram-se e, envoltos num festival de som e luz, surgiram os verdadeiros Arcade Fire, com o público a lançar-se desvairado na sua direcção, balançando-se e cantando já de cor a letra de Reflektor, o single que antecedeu o duplo álbum, com Win a lançar "If this is heaven/ I need something more". Mais tarde, o vocalista diria entre sorrisos: "Desculpem termos-vos enganado, mas pareceu-nos que seria divertido."

Em palco, um total de dez músicos, entre os quais dois percussionistas do Haiti e o teclista Owen Palett (Final Fantasy), que normalmente colabora com o grupo nas orquestrações. Não existe uma hierarquia visível entre os músicos, apesar de Win, pela voz, concentrar mais atenções. Mas sente-se que todos fazem parte do todo visual e musical. São uma comunidade em que as identidades se submergem.

O segundo tema, Flashbulb eyes, introduziu uma das grandes surpresas do novo álbum, com o movimento sensual e os efeitos do dub a fazerem-se sentir. Há mais subtilezas, diferentes inspirações e uma presença vincada do ritmo. A atitude em palco é a de sempre: apaixonada e vibrante. Mas também aí há novidades, com Win mais liberto da guitarra, entregando-se à voz. Antes havia corpos tensos, uma intensidade tão grande na interpretação que parecia que tudo à volta ia estoirar. Agora existe a mesma veemência, mas contrastada por momentos de um ritual mais festivo. O som é menos saturado, mais espaçoso, como em It"s never over (Oh Orpheus), talvez a canção em que se aproximam mais dos LCD Soundsystem. Mas essa maior profundidade de campo nota-se também no tema seguinte, We exist, em que adoptam uma sonoridade com laivos de funk que evoca o Bowie da passagem de 1970 para 1980. O público está rendido, mas também confundido.

Também as letras estão diferentes. Continuam as habituais alusões à transcendência, mas com uma dose grande de autoconsciência. Não espanta. Ao longo dos anos, os Arcade Fire provaram as diferentes facetas do êxito: entre o sentimento de pertença dos primeiros anos até à possível sensação de infidelidade provocada em quem os seguiu inicialmente, porque o seu movimento triunfal se tornou transversal. Isso pressente-se em Normal person, a canção seguinte, motivada por diferentes temperaturas, da calma quase acústica até ao desvario eléctrico rock"n"roll, com Win a olhar o público nos olhos, interrogando-o a ele e a si próprio: "Am I a normal person? You know/ I can"t tell if i"m a normal person, it"s true/ I think I"m cool enough/ But am I cruel enough, am I cruel enough for you?"

Ao longo do concerto, há até momentos de duplicidade e de (auto)ironia, com Win a lançar "todos nós temos alguma coisa para esconder", enquanto na canção seguinte grita: "sabem, não tenho nada a esconder", ao mesmo tempo que agradece aos espectadores terem cumprido a exigência de virem mascarados, "para serem outras pessoas" - ou paradoxalmente para finalmente serem eles próprios.

A entrada de Joan of Arc é feita num registo quase punk, com velocidade, distorção, entrega, para de seguida entrar numa toada mais pausada. Essa é outra das novidades: cada canção parece conter várias canções. Há mais complexidade estrutural, embora o centro nervoso seja reconhecível.

Já se percebeu, foi um concerto de quase hora e meia, focado quase na íntegra no novo álbum, o que é totalmente inusitado. Houve duas excepções que serviram para levar o público ainda mais ao rubro, pelo efeito de reconhecimento: Sprawl II (mountains beyond mountains), que acaba por conter pontos de contacto com os motivos mais electrónicos do novo álbum, com Régine a brilhar na voz, e o hino catártico Neighborhood #3 (power out). Ambas foram apresentadas por Win como sendo versões de uns tais Arcade Fire - porque quem estava a tocar eram os The Reflektors, claro. Mais para o final ficaram duas das canções que prometem fazer furor: Afterlife e Here comes the night time. A primeira com os traços reconhecíveis do grupo - coros épicos, avolumar de camadas sonoras e emoção à flor da pele -, mas também com um pulso dançante e uma melancolia contagiante que não lhes reconhecíamos. A segunda começa numa toada dub de grande leveza, para desembocar num dinamismo rítmico apoteótico. Foi no calor desse momento que Win se atirou para cima do público, desaparecendo no meio dele. Surgiu pouco tempo depois, para surpresa geral, no extremo oposto do espaço, pondo música a tocar no computador, qual DJ, enquanto os companheiros abandonavam o palco, encerrando o concerto tal como havia começado: de forma inesperada.

Do Haiti à Jamaica

Mas a festa não terminara, vincando ainda mais que os Arcade Fire querem aproximar-se do público, não criando uma distância artificial como se fossem superestrelas rock. Fizeram-se ouvir os percussionistas do Haiti e houve também festa dançante, com selecção musical do grupo, enquanto os Arcade Fire se misturavam na multidão e toda a gente se balançava ao som de clássicos, de Michael Jackson ao reggae.

A Jamaica é aliás uma das chaves para se entrar em Reflektor. Desde que lançaram o último álbum, há três anos, dois destinos revelaram-se determinantes: o Haiti e a Jamaica. No Haiti, não foi apenas a música afro-caribenha que parece ter marcado o casal Win e Régine (que entretanto foram pais em Abril), mas também os rituais e a atitude comunitária perante a vida e a música. Os performers utilizam máscaras, ou maquilham-se, mas o ritual, a teatralidade, não se dissociam do quotidiano como no Ocidente, onde o pseudo-naturalismo é ainda muitas vezes confundido com autenticidade. No Haiti a dimensão religiosa está integrada na cultura, manifestando-se naturalmente nas rotinas diárias. Os rituais não são algo que acontece apenas ao domingo de manhã.

A inspiração para a forma como têm tentado comunicar o novo disco foram-na buscar aí. Da mesma maneira, do ponto de vista sonoro, a Jamaica parece ter sido outra influência marcante. Ali viriam a encontrar-se com Chris Blackwell, figura histórica da editora Island, impulsionador da carreira de Bob Marley ou dos U2, que segundo Win lhes deu conselhos preciosos, ao mesmo tempo que permitiu que o grupo ali permanecesse para gravar. Ali começaram a explorar o tempo e o espaço, a respiração dos temas, sem se preocuparem em compor pensando na lógica de três minutos da canção pop clássica.

Reflektor é, portanto, uma obra com muitas chaves de leitura: necessita de ser aprofundada para ser compreendida. É natural que venha a provocar decepções, ao mesmo tempo que gerará novas adesões. É o que acontece quando um colectivo de músicos não se acomoda.

Quando as luzes do espaço se acenderam para assinalar o fim da festa, ouvia-se David Bowie a interrogar o que é isso de ser famoso, e o cenário envolvente tinha qualquer coisa de surreal: os gigantones ensaiavam passos de dança ao lado de convivas mascarados, enquanto alguns membros do grupo canadiano, agora já sem as roupas e as máscaras, falavam tranquilamente entre si. Naquele momento, as únicas pessoas normais - seja lá o que isso for - eram os Arcade Fire.

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