Entrevista

“O que Trump está a fazer é terrível, mas aqui em Newark também prendem pessoas e separam famílias”

Um dos movimentos contra a política de imigração dos Estados Unidos nasceu onde vive grande parte da comunidade portuguesa. “Queremos uma vitória que inspire outras partes do país a abraçar esta causa”, defende o activista Jay Arena.

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Jay Arena numa das acções de protesto contra as políticas de imigração de Donald Trump
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Protesto a favor dos imigrantes na cidade de Phoenix, no estado do Arizona Reuters
Janela, construindo
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Escritórios do ICE (Immigration and Customs Enforcement) na cidade de Nova Iorque Reuters

Um dos centros de detenção para imigrantes dos Estados Unidos está localizado no bairro da comunidade portuguesa na cidade de Newark, Ironbound. No total, serão mais de cem centros sob diversas formas nos 50 estados norte-americanos. Nesta cidade, no estado de Nova Jérsia, onde o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, por diversas vezes, marcou presença e o primeiro-ministro António Costa se encontrou, este mês, com a comunidade portuguesa, o centro para imigrantes resulta de um acordo com o executivo de Essex County, funciona no interior da prisão (Essex Council Correctional Facility) e tem capacidade para 800 pessoas. No contrato está expresso que estas pessoas não podem ser detidas por processos criminais mas apenas por processos administrativos resultantes do seu estatuto de imigrantes. Jay Arena, activista norte-americano do movimento “Empregos e Direitos Iguais para Todos”, pede o fecho deste centro e dos restantes três que existem para prender imigrantes no condado de Essex e defende que o número de detidos está a aumentar porque Trump assim quer, mas também porque as autoridades locais colaboram. De outra forma, não haveria espaços vagos para deter tantas pessoas. Numa entrevista por telefone, Jay Arena, que é professor associado de Sociologia na City University do New York’s College de Staten Island, refere-se a estes centros como “campos de concentração” para onde são “atiradas” pessoas que não cometeram qualquer crime. 

Tem dito que os locais de detenção de imigrantes estão lotados. A situação é particularmente grave em Newark, onde tem desenvolvido a sua campanha?
A situação não é mais grave em Newark do que no resto do país, mas Newark sente especialmente os efeitos destas políticas por ter uma comunidade imigrante significativa, sendo conhecida como a capital da comunidade portuguesa. Na verdade, acolhe americanos de diversas origens — portuguesa, espanhola, brasileira ou de países da América Latina, como o Equador. 

Por que é que a situação é mais preocupante com Trump?
Durante o mandato de Barack Obama já se tinha atingido um número recorde de deportações, e também se assistiu à militarização da fronteira [com o México], mas Donald Trump está a levar a questão para outro patamar. Os ataques contra os imigrantes são mais declarados, bem como a sua diabolização, especialmente a retórica contra os imigrantes dos países do Sul. Tivemos em Janeiro a proibição decretada por Trump à entrada de imigrantes de países muçulmanos [agora aprovada pelo Supremo Tribunal]. Assistimos depois à separação de pais e filhos na fronteira [com o México]. As autoridades passaram a prender todos, também no interior do país, e não foi apenas na fronteira que houve famílias separadas.

Qualquer pessoa sem documentos pode ser presa?
As pessoas estão a ser presas por processos civis e não criminais. A passagem na fronteira sem permissão é criminalizada, mas se as pessoas forem apanhadas sem visto válido, atiram-nas para estes centros de detenção. Chamamos a estes centros “campos de concentração”, e não é um exagero. O seu número, pelo país, tem vindo a aumentar. Com Trump, está a haver um aumento exponencial. Ao mesmo tempo, sabemos que os lugares nestes centros estão praticamente lotados. Trump já anunciou a intenção de aumentar a capacidade para detidos. 

As pessoas são apanhadas ou também são perseguidas por esse motivo?
São também perseguidas. Nalguns casos, trata-se de pessoas a residir há vários anos nos EUA, a aguardar a regularização da sua situação. Isso também acontece em Newark e no resto do condado de Essex. Eu encontrei famílias de Ironbound que foram separadas e levadas para a prisão “nas traseiras” das suas casas, no seu bairro. 

Os lugares para imigrantes nesses centros de detenção resultam de contratos assinados entre a Administração de Trump e os governos locais, mesmo dirigidos por democratas, como é o caso do executivo do condado de Essex ?
O ICE [Immigration and Customs Enforcement] apoia-se nestes contratos assinados com as autoridades locais que têm prisões como o condado de Essex, onde está Newark, para garantir vagas para deter imigrantes. Em contrapartida, os cofres do executivo de Essex ganham imenso com isso. O que Trump está a fazer é terrível, mas aqui em Newark também estão a prender pessoas e a separar famílias. 

Qual é a estratégia para persuadir os governos locais e central de que os centros têm de fechar? 
Começámos por estar sozinhos a pedir isso, mas estes ataques de Trump criaram um movimento mais vasto que foi conquistando apoio a favor do argumento — que tem sido o nosso — de que é necessário abolir o ICE e fechar os centros de detenção. Já temos políticos a defender o mesmo. Um exemplo recente foi o da candidata do Partido Democrata, a governadora de Nova Iorque, a actriz da série O Sexo e a Cidade Cynthia Nixon, que na semana passada apelou a que o ICE, enquanto “organização terrorista”, devia ser abolido. 

Porém, não se vêem resultados. 
Vamos precisar de mobilização, acções directas, protestos, e temos vindo a intensificar a nossa acção. O nosso movimento quer legalização para todos, direitos iguais para todos. Volto a dizer: estas pessoas têm processos administrativos, civis, e não criminais. Confrontámos Joseph DiVincenzo, o líder do governo local do condado de Essex, e pressionámos os autarcas de Newark, como Augusto Amador [um histórico da política local de origem portuguesa], embora a prisão não seja da área de competência da cidade mas sim do condado. Achamos que é importante que a liderança política assuma uma posição sobre esta matéria. Queremos uma vitória que inspire outras partes do país a abraçar esta causa.