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Karl Marx, o espectro de uma ideia que mudou o mundo

A leitura que Karl Marx fez do capitalismo e o programa de acção que propôs para o demolir mudaram o curso da História. Para o bem? Para o mal? Dos regimes brutais que se serviram das suas ideias à apologia da sua mensagem libertadora, que sentido faz Marx hoje? A crise de 2007, a desigualdade crescente ou o gigantismo de empresas como a Google podem ressuscitar a sua crítica do capitalismo? Karl Marx nasceu há 200 anos.

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Exposição em Berlim reuters
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Marx por volta de 1865 reuters
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Edição original de "O Capital" reuters
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Com Jenny, a sua companheira reuters
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Cartaz de propaganda soviética; Marx por volta de 1865; no 1.º Maio de 2018 em Moscovo; edição original de O Capital; e com Jenny, a sua companheira reuters
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Cartaz de propaganda soviética Getty Images

Os últimos dias de Fevereiro de 1848 Paris entrou em estado de sítio. Soldados em parada ousaram vaiar o rei Luís Filipe, milhares de operários e estudantes tomaram as ruas de assalto, montaram barricadas, afrontaram as classes médias, determinaram a demissão do primeiro-ministro (Guizot), ousaram reclamar o poder e logo a seguir ditaram a abdicação do monarca e a criação da Segunda República. Não foi coincidência, mas por esses dias tumultuosos, a 24 de Fevereiro, Karl Marx publicava o Manifesto Comunista que parecia adivinhar e explicar a insurreição de Paris. “Um espectro assombra a Europa... o espectro do comunismo”, lia-se na primeira linha do Manifesto. A França habituada aos tumultos revolucionários acabaria por derrotar os sublevados e na verdade Marx já não era vivo quando, em Outubro de 1917, a sua deixou de ser sombra para se tornar realidade nas ruas de Petrogrado (São Petersburgo). Pela primeira vez, um projecto de comunismo estava em execução.  

Entre o espectro da revolução e a revolução que tomou de assalto os palácios do czar e aplicou pela primeira vez a ditadura do proletariado para chegar a uma sociedade comunista, sem Estado, sem classes, sem oprimidos e opressores, passaram 70 anos. O programa a que Marx dedicou toda a vida cumpria-se. E a promessa que o seu grande e fiel amigo (e colaborador) Friedrich Engels fez na oração fúnebre que lhe dedicou no momento do seu discreto funeral (assistiram 11 pessoas), a 17 de Março de 1883, também. Marx, disse Engels, fora “o mais odiado e caluniado homem do seu tempo”, mas “o seu nome resistirá ao longo dos tempos e o seu trabalho também”. No dia em que se assinalam 200 anos do seu nascimento é impossível não lhe dar razão. Peter Singer, autor de uma “pequena introdução” ao universo do filósofo defende que “a influência de Marx pode ser comparada à das grandes figuras religiosas como Jesus ou Maomé” — porque “durante uma grande parte do século XX cerca de quatro em cada dez pessoas na Terra viveram sob governos que se consideravam marxistas e reclamavam seguir as suas ideias”.

Poucos pensadores foram capazes de deixar uma marca tão indelével na história como a desse homem razoavelmente corpulento, barbudo e de cabeleira farta. A Primeira e a Segunda Internacional, a criação dos primeiros partidos sociais-democratas, socialistas e comunistas, o bolchevismo e a Rússia soviética, o radicalismo violento, Rosa Luxemburgo e Che Guevara, Álvaro Cunhal, a China de Mao ou a Cuba de Fidel, a luta contra o nazismo, contra o colonialismo, ou contra o salazarismo, tudo teve a inspiração nas páginas que Marx produziu ao longo da sua vida. Para muitos, o seu desprezo pelas tradições, pela religião ou pela moral convencional tornaram-no num monstro odioso; para outros, a sua luta pela libertação dos trabalhadores e dos oprimidos foi um raio de luz que iluminou, e ilumina, as perspectivas da humanidade.

Registar os 200 anos de Marx é, por isso, motivo de celebração ou de lamento profundo. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, estará hoje em Trier, a cidade onde o filósofo nasceu num quarto andar, e essa deslocação gerou um azedo coro de críticas um pouco por toda a Europa. A China ofereceu à cidade uma estátua de Marx com cinco metros e logo chegaram protestos contra a falta de respeito pela memória das vítimas do comunismo. Mais do que a rejeição da sua teoria da História ou até do seu programa de acção para derrubar o Estado burguês e instituir uma sociedade comunista, o que os opositores de Marx denunciam foi o uso posterior das suas ideias. Ora, seja o estalinismo ou o maoísmo, são “uma subversão das ideias de Marx”, nota o historiador Manuel Loff. Da mesma forma que não se pode associar os crimes da Inquisição à palavra de Cristo, é conveniente ter cuidado quando se cola a brutalidade dos regimes comunistas às teses de Marx, comenta Loff.

Marx não apregoava a supremacia racial e a conquista imperial como Hitler, mas há leituras que encontram nos seus escritos o gérmen da violência maníaca, arbitrária e persecutória de Estaline ou de Pol Pot. “Quando se passa da sua teoria da História para o seu programa de acção, podemos dar conta que aí há ideias perigosas e negativas, como a luta de classes ou a ditadura do proletariado, mas não faz sentido acreditar que Marx aprovaria um regime como o de Pol Pot”, diz Paulo Rangel, eurodeputado do PSD. Olhando a China de Mao ou os regimes comunistas na URSS, Vietname ou na Jugoslávia, “podemos notar alguma influência marxista ao nível das relações económicas e sociais, mas não ao nível político. A natureza do Estado ou a estrutura do sistema político tinham muito pouco que ver com o marxismo”, nota Loff, professor de História Contemporânea na Universidade do Porto.    

Marx propunha a abolição do Estado, enquanto mecanismo pensado e desenvolvido para exercer o domínio de uma classe social. Quando o desígnio final de uma sociedade igualitária, sem classes, sem exploradores e explorados fosse atingido, o Estado deixava de fazer sentido. Entre os preceitos da “herança tricolor” da Revolução Francesa (liberdade, fraternidade e igualdade) Marx preferia a igualdade a todos os outros. “Ao pegar na igualdade, ele acabou por criar um equipamento mental que desprezava a liberdade”, observa Rangel. Por isso, a ideia comunista foi sempre mais acolhida em sociedades mais apegadas aos valores da livre iniciativa e do livre pensamento. Como o Reino Unido ou os EUA.

Durante a sua vida, não faltaram exemplos da sua propensão para trocar o pluralismo pelo autoritarismo. Bakunine, o fleumático filho de um conde russo que se tornou famoso na Europa a apregoar o anarquismo, dizia que Marx era “autoritário da cabeça aos pés”. Carl Schurz, um estudante, viu-o numa reunião de democratas em Colónia, em 1848, e escreveu: “Todos aqueles que o contradiziam eram tratados com desprezo abjecto e respondia a todos os argumentos de que não gostava com mordaz desdém.” As suas ideias, que apontavam para a abolição do regime capitalista, a supressão da burguesia, ou o fim da propriedade privada jamais nasceriam de geração espontânea. Só seriam aplicadas na sequência de uma revolução. Marx jamais apregoou o Terror jacobino da Revolução Francesa, mas a tomada do poder por métodos violentos não lhe desagradou. 

O jovem Marx

Marx, como todos os revolucionários do século XIX, é um produto desses tempos turbulentos em que a Europa se industrializava rapidamente. Depois da Revolução Francesa e da independência dos Estados Unidos, a liberdade de pensamento, o sufrágio universal, a igualdade perante a lei ou o limite dos poderes tornaram-se aspirações entre as classes médias, ou nas universidades. No país de Marx, porém, essa realidade é distante. Marx nasce numa região assente sobre “uma falha histórica”, escreve David Priestland, no seu monumental A Bandeira Vermelha, onde a aristocracia ditava as regras e a tradição ainda sustentava a servidão.

Marx nasceu numa família de judeus habituada a fornecer rabinos para a comunidade, mas o seu pai, um advogado que se tinha convertido ao luteranismo, estava a par das ideias contagiosas que vinham de Paris ou de Londres. Karl estava talhado a seguir os seus passos e vai para Bona estudar Direito, mas depois de vários episódios de mau comportamento a família decide enviá-lo para Berlim, onde passa a frequentar o curso de Filosofia. Aí, a sedução das ideias políticas começa a tornar-se irresistível. Gravita em torno dos Jovens Hegelianos, deslumbrados com uma filosofia da História que, com base na razão, destinava a humanidade a um estado terminal de liberdade — “O que é racional é real”, logo, as autocracias sendo irracionais não poderiam subsistir. O jovem Marx acaba por se doutorar em 1841 com uma tese sobre As filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro. Mas não era a filosofia da natureza que o cativava. O vírus da política tinha-o contaminado.

Marx começa a escrever no Rheinische Zeitung, um jornal progressista de Colónia, e pouco depois chega ao cargo de director. O seu brilhantismo, a sua acutilância e a profundidade das suas análises distinguem-no nos círculos contestatários ao poder do Kaiser. Moses Hess, um socialista que o conheceu na altura, descreveu-o, quando ele tinha 24 anos, numa carta a um amigo com um desafio: “Imagina Rousseau, Voltaire, Holbach, Lessing, Heine e Hegel fundidos numa só pessoa. Digo ‘fundidos’, não justapostos — e tens o dr. Marx.”

Entre o jornalismo e o activismo político, Marx dá um passo decisivo na sua vida pessoal: em Junho de 1843 casa-se com Jenny von Westphalen, oriunda da aristocracia prussiana — o irmão Ferdinand foi ministro do Interior. Seria a sua grande companheira toda a vida. E penalizar-se-ia sempre por não lhe ter dado uma vida mais tranquila e confortável. Numa carta de Novembro de 1882 ao socialista francês Paul Lafarge, que pretendia formalizar o namoro com a sua filha Laura, Marx escreveria: “Sabe que sacrifiquei toda a minha vida à causa revolucionária. Não estou arrependido. Muito pelo contrário. Se tivesse de viver de novo a minha vida, faria exactamente o mesmo. Mas não me casaria. Desejo quanto possível poupar a minha filha aos escolhos em que a mãe dela arruinou a vida.”

O “sacrifício” começa logo em Novembro de 1843, cinco meses após o casamento. As autoridades prussianas encerram Rheinische Zeitung e Marx parte para o exílio, em Paris, onde a mulher se lhe reunirá pouco depois. Paris era na época a cidade luz de todos os revolucionários da Europa. Nos dois anos que se seguem, o jovem filósofo desdobra-se em contactos e conhece radicais famosos como Mikhail Bakunine e Joseph-Pierre Proudhon. Não serão, todavia, eles quem ficaria ao seu lado de uma forma leal, dedicada e permanente ao longo da vida. Em 28 de Agosto encontra-se no café Régence com Friedrich Engels e a partir daí os dois homens estabelecem uma amizade à prova de bala. Sem a disciplina de Engels, sem os seus incentivos e sem a sua permanente ajuda financeira ao amigo sempre falido, dificilmente Marx poderia ter escrito e publicado uma obra com 50 volumes.

Na sua estadia em Paris, Marx começa a consolidar a sua teoria da História e a cimentar as bases da economia política. Lê os economistas ingleses (Adam Smith, David Ricardo, James Mill) e dedica-se a definir as bases da sua ideologia. O capitalismo, notaria, impõe ao trabalhador “o excesso de trabalho e morte prematura”, reduzindo-o “a uma máquina” sujeita ao “capital”. A burguesia, que se alimentava dos despojos do capitalismo, criara uma teia de mentiras (o comércio livre, o parlamento, a lei..) para alienar os trabalhadores. Nada mudara do modo de produção feudal para o capitalista. A burguesia “substituiu a exploração brutal, directa, desavergonhada e nua pela exploração velada por ilusões políticas e religiosas”.

No coração do capital

Tornara-se demasiado perigoso para uma Paris que fervilhava de ideias “subversivas”. Em 1845 o Governo francês expulsa-o. Viaja para Bruxelas com a família e continua a sua vida entre a escrita e a agitação dos movimentos de trabalhadores, com destaque para a Liga Comunista. Havia necessidade de um programa e Marx foi encarregado de o redigir. Em 24 de Fevereiro de 1848, o Manifesto Comunista é publicado em alemão. A insurreição popular que toma conta de Paris em Junho parecia tornar real o “espectro” que brandia. A Primavera dos Povos alastra rapidamente da França à Áustria, à Hungria, à Alemanha e promete varrer o continente. Mas as forças da ordem, as dinastias europeias, eram ainda demasiado fortes. A revolução sucumbiu, mas causou mudanças. “A revolução assinalava o fim, pelo menos na Europa ocidental, da política da tradição, das monarquias que acreditavam que os seus povos (...) aceitavam e amavam o governo de dinastias de designação divina”, escreveu Eric Hobsbawm, historiador marxista.

Após a revolução, a França volta a acolher Marx, entretanto expulso da Bélgica. Quando a insurreição de 1848 fica dominada, Marx tem de novo de partir. Restava-lhe como destino a capital do capitalismo burguês, Londres, que após o colapso da Primavera dos Povos se torna o destino dos revolucionários derrotados. Em Londres, Marx fica à espera de uma nova crise para abrir portas a uma nova revolução. Com o tempo percebe que a burguesia não ruiria tão depressa como chegou a prever.

Os primeiros anos do novo exílio são talvez os mais vazios, duros e deprimentes da sua vida. Um espião alemão descreveu-o por essa altura, cerca de 1850, dizendo que “leva a vida de um intelectual boémio”. “Lavar-se, pentear-se e mudar de roupa são coisas que mal faz. E gosta de embebedar-se. Embora passe dias seguidos sem fazer nada, trabalha infatigavelmente dia e noite quando tem trabalho. Não tem horas de dormir e de acordar.” Nesses anos, Marx conheceu sucessivas privações e infortúnios. A 27 Fevereiro de 1852, numa carta para Engels, escreveu: “Há uma semana cheguei ao agradável ponto de não poder sair à rua por os meus casacos se encontrarem no prego e já não posso comer carne por falta de crédito (...) Nos últimos oito a dez dias toda a família se alimenta unicamente de pão e batatas.” Em tom de brincadeira, dizia não crer “que ninguém tão teso tenha alguma vez escrito sobre dinheiro”.

As heranças de Jenny ou suas e, principalmente, a ajuda permanente de Engels, que trabalhava numa importadora de algodão em Manchester que era do pai, apenas mitigaram os problemas financeiros crónicos da família. Por vezes Marx tinha de fugir para se furtar à pressão dos credores. Pior ainda do que as dívidas e a penúria financeira foram os dramas familiares. O episódio que mais o marcou terá sido a morte do filho Edgar, com oito anos, em Abril de 1855, vítima de tuberculose. Uma carta a Ferdinand Lassalle (um dos precursores do SPD alemão) exprimia essa dor: “A morte do meu filho feriu-me mortalmente e sinto a sua perda como no primeiro dia.” De resto, quatro dos seus seis filhos morreram antes dele e as duas filhas que lhe sobreviveram suicidaram-se. Neste particular, os Marx não tiveram uma vida fácil. O único filho que teve uma vida “normal” resultou de uma relação extraconjugal com a fiel empregada doméstica, Lenchen — a paternidade, revelada apenas nos anos de 1960, não é consensual entre os seus biógrafos.

Nos intervalos da falta de dinheiro ou dos dramas familiares, Marx portava-se como um cavalheiro da sua classe. Na sua essência, o seu comportamento era tipicamente burguês — consumia vinho do Porto, dava bailes para as filhas, inscreveu-as em colégios para meninas finas, mandou imprimir cartões para a mulher onde se lia “Madame Jenny Marx, née baronesa de Westphalen”. Numa carta para Engels, em 1865, expôs numa tese a sua maneira de viver: “Acho que tu mesmo hás-de concordar que, de um ponto de vista puramente comercial, levar uma vida proletária não seria recomendável nas presentes circunstâncias, muito embora, se eu e a minha mulher estivéssemos sós, ou se as raparigas fossem rapazes, não teria mal nenhum.” Quando bebia ou se correspondia com amigos, mudava de agulha e recuperava o feitio dos tempos de estudante, boémio e aventureiro. Gostava de piadas porcas, ou de escândalos sexuais e divertia-se a descrever a suposta flatulência da imperatriz Eugénia, mulher de Napoleão III.

Não deixou nunca, no entanto, de cumprir o grande desígnio da filosofia que havia traçado nas Teses sobre Feuerbach, de 1845: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; mas a finalidade é mudá-lo.” Continuou a desenvolver os conceitos do materialismo histórico, pelo qual as transformações operadas pela luta de classes faziam mudar o modo de produção e, por consequência, as relações humanas. Era a evolução dos modos de produção que determinava as diferentes expressões de consciência: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” “A ideia de que são os factos económicos que explicam os comportamentos humanos em geral e o próprio sistema político foi o seu principal legado”, diz Paulo Rangel.

A obra decisiva

Faltava ainda a sua grande obra de crítica do capitalismo para consolidar a sua já vasta produção ideológica. Antes, em 1864, Marx empenha-se na criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, nascida a 28 Setembro 1864 — a Primeira Internacional. Marx será membro do conselho geral e, na prática, o seu principal mentor e dirigente. Em 1867, o primeiro tomo da sua grande obra de fôlego, O Capital, é finalmente publicado. Ao lado da crítica ao capitalismo burguês, nasce um programa de acção capaz de o superar até à criação de uma sociedade comunista. Depois da revolução, haveria uma ditadura do proletariado, transitória, que não seria exercida por um partido, mas através de um governo proletário baseado em assembleias populares. O uso da violência para extinguir o Estado burguês era admitido. Nas etapas de evolução da ditadura haveria um estágio “baixo” do comunismo, em que os trabalhadores seriam pagos de acordo com a sua produtividade. Só depois chegaria o estágio “elevado”, em que se trabalharia colectivamente, sem disciplina coerciva nem “subornos monetários”, escreveu David Priestland.

No comunismo, a alienação da humanidade condenada a vender a sua força de trabalho para gerar as mais-valias que são a base da acumulação capitalista, da exploração e da desigualdade, desapareceria. Em O Capital, Marx admitia com realismo que seria necessária uma “autoridade directora” na economia para ajustar a potencialidade da produção às necessidades da sociedade — o esboço da planificação tinha nascido. Mas, com o tempo, a sua visão deixava transparecer uma sociedade igualitária e harmoniosa. “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”, escreveria mais tarde. Seria então que o Estado se dissiparia. Marx nunca explicou quem desempenharia nessa sociedade os trabalhos mais duros ou menos criativos. Um crítico perguntou-lhe um dia quem engraxaria os sapatos e a resposta foi lapidar: “Você.”

Nos anos finais da sua vida, Marx ainda teve a esperança de assistir ao triunfo do proletariado, quando uma nova sublevação em Paris cria a Comuna, em 1871, “que causou o pânico nas elites, obrigou a pactos entre imperadores e escandalizou a classe média”, na descrição de Eric Hobsbawm. Os dedos acusadores voltam-se para Marx, o profeta vermelho que andava havia 40 anos a profetizar a revolução. “Tenho a honra de, neste momento, ser o homem mais caluniado e ameaçado de Londres”, escrevia ao amigo alemão Ludwig Kugelmann, por essa altura.

Daí para a frente, a esperança estava no Partido Social-Democrata na Alemanha, um partido marxista, “que lutava pelos interesses dos trabalhadores no seio do sistema vigente sem colaborar com a burguesia”, de acordo com David Priestland, que em breve se tornaria uma força essencial da política germânica. Marx exultou com os seus resultados, mas nessa fase da sua vida, no final da década de 1870, o essencial da sua luta estava travado. Depois da morte de Jenny, que carinhosamente lhe chamava “selvagem javali preto” e “tratante manhoso”, em 1881, a vida parece ter perdido parte do sentido para ele. Dois anos depois, morreria vitimado por uma pleurisia.

O poder de uma ideia

Após a sua morte, Marx continuou a ser um símbolo da esquerda radical e mentor de um projecto de transformação social que continuou a mobilizar a esperança de milhões de trabalhadores. Até 1895, Engels encarregou-se de organizar e publicar uma vastidão de papéis escritos com gatafunhos e borrados com tinta e cinza de charuto. Depois, essa tarefa foi continuada pela sua filha Eleanor e pelo seu amante Edward Aveling. Os seus ensinamentos proliferaram por esses anos em dezenas de partidos e movimentos que nasceram pela Europa. A Segunda Internacional reuniu em Paris, em Julho de 1889, 391 delegados de partidos ou movimentos marxistas provenientes de 20 países. A bandeira vermelha e a esfinge de Marx e de Engels tornaram-se os símbolos políticos dessa força emergente.

Em breve, porém, essa frente unida contra a burguesia e o capitalismo se cindiria. Os comunistas puros e duros encontrariam em Lenine o exemplo e a prática revolucionária capaz de fazer triunfar o marxismo. Na Alemanha e na França, entretanto, Jean Jaurés ou Eduard Bernstein, líder do SPD, defendem um ajustamento à democracia burguesa e trocam a revolução pelo reformismo. Nem tudo o que Marx predissera, alegavam, estava correcto: “Os camponeses não se afundam; a classe média não desaparece; as crises não são cada vez maiores, a miséria e a servidão não se agravam.” Alarmadas pela vaga revolucionária, as democracias liberais dedicaram-se a aplicar políticas sociais para esvaziar o descontentamento dos trabalhadores. Os primeiros passos do Estado-providência foram dados por Bismark na Alemanha no final do século XIX e, depois dos anos de 1920 até ao final da II Guerra Mundial, a República de Weimar na Alemanha, a Frente Popular em França ou o Relatório Beveridge na Inglaterra trataram de trazer os direitos e a protecção dos trabalhadores para o centro das políticas públicas. “Não há dúvida alguma que a criação do Welfare State foi uma resposta às pressões dos comunistas”, reconhece Paulo Rangel.

Duzentos anos depois, o que sobra de Karl Marx? “É inaceitável desprezarmos o marxismo”, diz Paulo Rangel, até porque a sua mensagem “está hoje muito mais actual do que há 20 anos.” Porquê? Por causa da desigualdade galopante nas sociedades avançadas, diz o eurodeputado (e Manuel Loff subscreve). No ano passado, a organização não governamental britânica Oxfam calculava que 87% da riqueza mundial estava concentrada nas mãos de 1% dos mais ricos, um indicador que parece garantir as teses de Marx sobre a acumulação capitalista. Se durante décadas as democracias foram capazes de instituir mecanismos de redistribuição eficazes, a desigualdade de hoje torna mais presciente a crítica de Marx ao capitalismo, diz Rangel. Não admira por isso que “o marxismo tenha recuperado uma parte da actualidade perdida depois do Maio de 1968 com a crise financeira de 2007/2008”, diz Manuel Loff. A dinâmica de movimentos sociais recrudesceu, o debate científico sobre as suas teses redobrou e, nota o historiador, “há uma transformação na esquerda após a crise que recupera a influência marxista”. Fenómenos como Jeremy Corbyn ou Bernie Sanders, que se reclamam como socialistas, é uma manifestação real dessa mudança.

Mas há outros sinais que tornam a teoria de Marx pertinente. Para Manuel Loff, os casos suspeitos de corrupção alegadamente protagonizados por Ricardo Salgado, José Sócrates e Manuel Pinho são uma manifestação clara de que o Estado, neste caso o Estado português, esteve ao serviço de uma oligarquia (uma classe dominante, na designação marxista). O gigantismo de empresas como a Google foi previsto por ele como consequência da natureza voraz do capitalismo. As crises cíclicas que adivinhou concretizaram-se em 2007 com o colapso do subprime.

E até ao nível da política há legados de Marx que perduram fora do seu campo. “O neoliberalismo serve-se do mesmo primado da economia que Marx utilizou como base da sua ideologia”, nota Paulo Rangel. Não admira por isso que haja revistas americanas como a The Atlantic ou a The New Yorker a falar na “vingança de Marx” ou no seu “regresso”. Ou uma nova geração de intelectuais que se revê no programa de renovação marxista proposto pelo filósofo Slavoj Zizek. Será que da recuperação da sua filosofia da História ou da sua crítica à economia política capitalista voltará à cena o seu programa de acção? A resposta para muitos pode ser dada pelo passado: depende da resposta que as democracias liberais derem às contradições do capitalismo que Marx retratou na sua extensa obra.