PS agita-se com acordos com o PSD, esquerda também

Com o congresso à porta, a ala mais à esquerda do PS quer que António Costa se mantenha, sem desvios, do caminho que traçou com PCP, BE e PEV e vai deixando avisos.

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No congresso do PS, Costa será confrontado com a ala esquerda do partido mr manuel roberto

Em poucas semanas, António Costa fez duas provas de esforço ao coração da "geringonça" e sentiu as palpitações dos partidos que o acompanham. Nem o PCP, nem o BE, nem o PEV gostaram da política orçamental de Mário Centeno, que o levou a rever em baixa o valor do défice deste ano, nem da cerimónia pública de assinatura de acordos com Rui Rio. Esse sentimento dos parceiros é compreendido e tem eco no PS e a um mês do congresso, a ala mais à esquerda - que gosta de dizer que neste momento não é uma ala porque é maioritária -, dá prova de vida e diz a António Costa que não quer que se desvie do caminho com os parceiros.

"Espero que o PS tenha bem presente as escolhas concretas que fez e que lhe permitiram distinguir-se dos outros partidos sociais-democratas europeus e portanto evitar o declínio na sua base de apoio eleitoral", diz ao PÚBLICO o porta-voz do partido, João Galamba. A frase tem um contexto: o socialista considera normais e salutares os acordos pontuais com o PSD, diz que não significam uma mudança de rumo, mas quer vincar que o caminho é pela esquerda, sobretudo numa altura em que as críticas dos parceiros à assinatura dos acordos sobre os fundos estruturais e descentralização com o PSD se fizeram ouvir.

Além do conteúdo, foi a forma que desgostou ao PCP. E fê-lo saber num comunicado logo na quarta-feira à noite, no qual vincou que o “inegável significado político” do acordo advém do facto de ter sido “subscrito ao mais alto nível” entre os dois partidos com uma “ostensiva” e propositada “visibilidade e notoriedade”, mas também pela “relevância política das matérias em causa”. Em especial pelas “opções em áreas cruciais para o país que estão por detrás desses acordos”, diz ao PÚBLICO João Oliveira. 

Nos corredores do PS, há também quem não tenha gostado da pompa e circunstância com que foram assinadas as "declarações conjuntas", o nome dado aos documentos assinados com o PSD. E até o nome é de notar: é similar às famosas "posições conjuntas", o título dado aos acordos com a esquerda. "Não gostei da cerimónia, deveria ter sido mais contida, mas não vejo problema nenhum nos acordos. É natural", diz um socialista.

Quanto ao conteúdo, os socialistas defendem os acordos. "Faz sentido ter um entendimento político mais alargado", defende Duarte Cordeiro, presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS. "De nenhuma destas reformas se pode tirar um sinal de mudança do posicionamento político do Governo. Sempre defendi a opção política de António Costa de um programa político à esquerda, não obstante a possibilidade de existirem entendimentos pontuais" com outros partidos, acrescenta.

A um mês do congresso do PS, vários socialistas querem entrar no debate sobre o caminho que o partido deve seguir para afastar qualquer nuvem de dúvida sobre se há a possibilidade de encostos ao PSD. Alguns socialistas irão apresentar moções sectoriais a defender uma visão mais de esquerda. 

Mas para já, há movimentações no espaço público. Manuel Alegre avisa que o "centrão" poderia ter efeito de organizar o populismo "inorgânico". Num artigo no PÚBLICO, o histórico socialista defende que "o único caminho, não só para o PS mas para o futuro de uma democracia socialmente estável, é manter e reforçar a convergência das esquerdas e a aliança parlamentar que sustenta um governo que é visto, lá fora, como uma excepção política na Europa e como o último governo da esquerda democrática".

Mas há sempre outro lado. A lição dos sociais-democratas europeus, a braços com uma crise a que o PS tem escapado serve de mote para que Augusto Santos Silva, também no PÚBLICO defenda que "o caminho não é, portanto, oscilarmos para os extremos". Diz o ministro dos Negócios Estrangeiros que "o PS é a prova provada de que é possível ao centro-esquerda ser o que é" ao mesmo tempo que mantém "pontes de comunicação abertas" à "sua direita" e "à sua esquerda".

Esquerda preocupada

O líder parlamentar do PCP garante que, mesmo depois de os socialistas terem acordos com o PSD, o partido “não de demitirá de continuar a debater” estes temas com o PS no Parlamento mas admite que “o quadro criado não é o mesmo de antes” e deixa os comunistas “preocupados”. Porque demonstra “estratégias contraditórias com as opções feitas em matérias como a reposição de direitos e rendimentos”, que sustentam o acordo entre o PCP e o Governo. “O direito à saúde, educação e segurança social são universais” e devem ser assegurados pelo Estado central. “Se passarem para a alçada das autarquias serão postos em causa: os habitantes de Lisboa terão condições de acesso a esses direitos muito diferentes dos de Bragança”, afirma João Oliveira.

Heloísa Apolónia, que no debate quinzenal questionou António Costa sobre este Bloco Central, garante que a aproximação do Governo à direita “não muda nada nem condiciona” a relação entre o PEV e o PS. “Mas não pode deixar de ter um significado político. O PS não pode estar bem com Deus e com o diabo e tem que se definir sobre o que quer para o país.” Por exemplo, ao juntar-se ao PSD o PS está a “comprometer a regionalização” se a descentralização que acertarem for a passagem de competências para as autarquias em áreas da função social do Estado; nos fundos comunitários, o PS está a juntar-se a um partido que os usou para aumentar as assimetrias regionais. “Se é para continuar na mesma lógica não é um bom sinal”, vinca Heloísa Apolónia.

Os bloquistas temem que o namoro com o PSD possa seguir por outras áreas. Costa escolheu Maria de Belém, ex-ministra da Saúde e consultora do grupo Luz Saúde (antigo grupo BES Saúde) enquanto os bloquistas escolheram António Arnaut, pai do SNS. Esta escolha intrigou o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, que deixou a pergunta no DN: "Estará na calha mais um acordo de regime entre o PS e o PSD, agora no sector da saúde? Irá o PS virar as costas a António Arnaut e firmar um pacto com quem quer manter o SNS nas garras dos privados?"