Pyeongchang: Os Jogos certos na altura certa?

Ainda antes de começarem, os Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang depressa acentuaram o seu carácter político. A competição tem servido de pretexto para que as Coreias se reaproximem, mas é muito fácil que tudo volte à estaca zero.

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Kim Yo-jong, a irmã do líder norte-coreano, chegou esta sexta-feira à Coreia do Sul
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A irmã de Kim Jong-un à chegada à Coreia do Sul EPA/YONHAP
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A Coreia do Norte enviou cerca de duas centenas de cheerleaders para apoiar os seus atletas YONHAP/REUTERS

Nunca o mundo desejou tanto que o ideal olímpico da paz e da cooperação entre os povos se concretizasse como durante o próximo mês. Os Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang que começam esta sexta-feira têm tudo para ficar na História – ou cair na irrelevância.

Nos últimos dias, centenas de atletas, dirigentes e artistas norte-coreanos fizeram o curto, mas invulgar, trajecto entre as duas Coreias, num raro momento de intercâmbio entre dois países que tecnicamente permanecem em guerra – foi apenas assinado um armistício no final dos confrontos da Guerra da Coreia em 1953. As relações entre as duas nações que partilham a mesma península são excessivas e, por vezes, esquizofrénicas. Ao mesmo tempo que há protestos contra a participação de atletas norte-coreanos, os jornalistas sul-coreanos passaram os últimos dias num frenesim mediático em torno de Hyon Song-wol, a principal cantora de uma banda pop norte-coreana que vai actuar no Sul.

Depois de um ano em que o perigo pairou constantemente sobre a região, o grande objectivo de Seul é que a “diplomacia desportiva” não termine com os Jogos, mas que lance as bases para uma melhoria das relações entre as Coreias. Só assim poderá evitar-se o ciclo de violência que tem marcado os últimos anos. O objectivo final é que a Coreia do Norte se disponibilize a sentar-se à mesa com os EUA para discutir o programa nuclear.

“Se for possível manter essa janela de diálogo aberta e as relações entre as duas Coreias melhorarem, então pode ser aberto um caminho para chegar a esse nível de diálogo”, diz ao PÚBLICO, por telefone, a analista do Instituto EUA-Coreia da Escola Avançada de Estudos Internacionais Johns Hopkins, Jenny Town. “Mas esse é um grande ‘se’”, avisa.

Tudo começou com um inesperado ramo de oliveira estendido pelo líder norte-coreano Kim Jong-un no discurso de Ano Novo, em que afirmou a disponibilidade para que uma delegação do país participasse nos Jogos organizados pela Coreia do Sul – uma proposta recusada meses antes. Desde então, responsáveis dos dois lados do Paralelo 38 encontraram-se numa sucessão de reuniões preparatórias na “aldeia da paz” de Panjumon, no lado sul-coreano da zona desmilitarizada.

Garantia de segurança

E é em nome da diplomacia que os Jogos de Inverno que agora começam vão ser diferentes. Apesar de ter apenas dois atletas oficialmente qualificados para a competição – e que nem sequer tinham sido inscritos até ao final do prazo –, a Coreia do Norte irá enviar uma delegação de 22 atletas, incluindo 12 que foram integradas numa equipa feminina de hóquei conjunta com a Coreia do Sul e que irá competir sob a bandeira da Coreia unificada. De Pyongyang vem ainda uma equipa de demonstração de taekwondo, uma orquestra e as famosas cheerleaders – um grupo de duas centenas de jovens mulheres provenientes das famílias mais leais ao regime.

“A participação da Coreia do Norte nos Jogos de Pyeongchang dotou a Administração Moon de um seguro contra a agitação durante a competição”, escreve o analista do Council on Foreign Relations, Scott Snyder. Nas vésperas dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, dois agentes secretos norte-coreanos colocaram uma bomba num avião comercial, matando as 115 pessoas a bordo, com o objectivo de sabotar a competição. Mas ninguém quer correr riscos. Para os Jogos que começam esta sexta-feira, vão ser mobilizados 60 mil agentes das forças de segurança, o dobro do contingente destacado para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro há dois anos. Ironicamente, o principal receio das autoridades é agora o de potenciais ataques por parte de grupos extremistas anti-Pyongyang, diz o Guardian.

A organização de um empreendimento da envergadura dos Jogos Olímpicos é sempre um desafio para qualquer Governo, mas para a Coreia do Sul, e para o Presidente Moon Jae-in, o sucesso de Pyeongchang é quase uma questão de sobrevivência. Ninguém mais do que os sul-coreanos sabe o que é viver diariamente com a iminência de um ataque mal calculado no grande jogo das potências nucleares. E é por isso que a simples acalmia sentida desde que as relações entre as duas Coreias foram reatadas é já uma vitória.

Há quase um ano, a 12 de Fevereiro, a Coreia do Norte dava o pontapé de saída para um ano minado de provocações, com o lançamento de um míssil balístico, enquanto o recém-empossado Donald Trump visitava o Japão. Nos meses seguintes, o regime testou dezenas de outros mísseis, incluindo alguns de longo alcance, capazes de atingir o território norte-americano, e a sua bomba nuclear mais potente. Do outro lado, Trump respondia com ameaças que o mundo se tinha habituado a ouvir pela boca dos dirigentes norte-coreanos, ao mesmo tempo que sugeria que a opção militar não pode ser afastada.

Garantir a participação da Coreia do Norte em Pyeongchang foi a “parte fácil”, diz Jenny Town. O grande desafio é manter aberta a janela do diálogo para além de 18 de Março, quando terminam os Jogos Paralímpicos e expira a “trégua olímpica”. “Não será um processo fácil: pode morrer rapidamente logo após os Jogos, ou pode enfrentar vários obstáculos difíceis depois”, afirma a especialista.

Kim tem enviado vários sinais de que está a encarar com seriedade os actuais esforços diplomáticos, considera a analista. O principal é o envio da irmã, Kim Yo-jong, à Coreia do Sul, que terá pelo menos um encontro com Moon. A presença de Kim tem um forte peso simbólico – será o primeiro elemento da dinastia norte-coreana a pisar o Sul – mas também político. Kim é uma das personalidades mais próximas do líder e é das poucas que poderá falar em seu nome.

Jogada arriscada

Moon arriscou em várias frentes ao ligar os Jogos Olímpicos ao processo diplomático inter-coreano. Se falhar, irá dar razão aos que defendem uma postura agressiva face à Coreia do Norte, para além de ter de explicar ao próprio eleitorado porque deixou que a narrativa dos Jogos fosse “roubada” por Pyongyang.

Porém, o regresso à via do diálogo era a única opção viável, apesar dos tremendos riscos. Os críticos de Moon dizem que está a cair numa armadilha montada por Kim. Uma das teses mais partilhadas, especialmente em Washington, é a de que a Coreia do Norte está a tentar explorar divergências entre a Coreia do Sul e os EUA com o objectivo de enfraquecer a aliança.

O vice-Presidente norte-americano Mike Pence está em Pyeongchang para assegurar que “o regime norte-coreano não sequestre a mensagem dos Jogos Olímpicos com a sua propaganda”. Na comitiva norte-americana está também o pai de Otto Warmbier, o estudante que morreu depois de ter passado mais de um ano numa prisão na Coreia do Norte, para onde foi enviado por ter tentado retirar um cartaz. Para reforçar a mensagem, Pence prometeu que os EUA vão aplicar novas sanções, descritas como “as mais duras e agressivas”.

Jenny Town descreve a abordagem de Washington como “totalmente contraproducente” e semelhante a uma “sabotagem” do processo de reaproximação. “Percebo que a Administração Trump não queira que a Coreia do Norte controle a narrativa nem que amplifique a sua propaganda. Mas eles precisam de perceber que a Coreia do Sul é um aliado e isto representa uma grande bofetada na sua cara”, sublinha.

Qualquer progresso nas negociações depende do apoio da comunidade internacional e dos EUA em particular. O grande teste deverá ocorrer em Abril, quando se realizarem os exercícios militares conjuntos entre a Coreia do Sul e os EUA, que foram adiados por causa dos Jogos. A hipótese de serem simplesmente cancelados – como deseja Pyongyang – teria custos políticos muito elevados para Seul, cuja segurança está dependente dos EUA. Mas, diz Town, é possível que sejam redesenhados de forma a terem uma postura menos “antagonística”.

“Se os exercícios decorrerem como é hábito, da mesma forma robusta como no passado, acho que irá haver uma resposta provocatória por parte da Coreia do Norte”, afirma.

Para as próximas semanas, o desafio lançado por Moon aos sul-coreanos é simultaneamente simples e pesado: “Peço às pessoas que mostrem o vosso apoio em manter e expandir o diálogo da mesma forma que protegeriam uma vela ao vento, pois poderemos não conseguir criar uma oportunidade como esta outra vez.”