Galiza aumenta pressão sobre indústria nortenha

A Galiza é comunidade espanhola que mais importa de Portugal. A fatia das exportações portuguesas para a região é de 18%, superando Madrid e Barcelona. Uma fotografia em que figura também o sector da metalurgia e metalomecânica

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sergio azenha (colaborador)

Falar de exportações é falar de Espanha – é o principal cliente das vendas externas portuguesas e há muito tempo. Se em 1974 o peso das exportações para Espanha era de 2,1%, em 1986, ano em que os dois países iniciaram a adesão à Comunidade Económica Europeia, essa percentagem já havia subido para os 6,6%.

Este crescimento sofreu tal incremento que, actualmente, um em cada quatro milhões de euros exportados de Portugal se destina à vizinha Espanha. O que não era tão vincado é a Galiza ser a região autonómica que tem mais peso nessas importações. Mais do que Madrid, mais do que Barcelona, regiões cujo crescimento económico é mais reconhecido publicamente.

Esta conclusão consta do trabalho de análise feito pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) aos dados oficiais do ICEX - Instituto do Comércio Externo de Espanha, relativos a 2016. As três regiões já mencionadas, Galiza, Catalunha e Madrid asseguram quase metade das importações espanholas de Portugal, garantindo uma fatia de 18,1%, 15,9% e 15%, respectivamente.

O presidente da CCDRN, Fernando Freire de Sousa, admite ele próprio ter ficado surpreendido com a dimensão que encontrou, mas rapidamente conseguiu desfiar o conjunto de factores que ajudam a explicar estes resultados. A começar pela dinâmica económica crescente que existe na Galiza e de uma verdadeira economia de proximidade entre as duas regiões.

“Desde 1991 que existe uma Comunidade de Trabalho entre o Norte de Portugal e a Galiza, e o esforço desenvolvido [pelos responsáveis políticos] Braga da Cruz e Fraga Iribarne foi sério e deu frutos. Uma das preocupações quando cheguei à CCDRN foi reactivar estas reuniões, porque elas dão resultados”.

Esta declaração surge numa altura em que um estudo sobre a relação transfronteiriça entre Portugal e Espanha, apresentado no final de 2016 e relativa aos anos de 2000 e 2014, concluiu que os modelos de cooperação transfronteiriça estavam ultrapassados. Esse estudo demonstrava que entre 2000 e 2013 foram investidos cerca de 1,5 mil milhões de euros em projectos de cooperação transfronteiriça, tendo a maior fatia sido destinada a iniciativas da área definida de Galiza e Norte de Portugal.

A maior parte do investimento feito no âmbito da cooperação transfronteiriça, cerca de 529 milhões de euros, destinou-se ao objectivo temático de "proteger o ambiente e promover a eficiência dos recursos", seguindo-se, com 268 milhões, o objectivo de "promover transportes sustentáveis e eliminar os estrangulamentos nas principais redes de infra-estruturas".

Freire de Sousa também defende que o modelo de colaboração seja repensado e reforçado, alavancando-se nos anúncios de que tanto para a Comissão Europeia como para o Governo português esta cooperação é uma prioridade. “Como assim é, defendemos que possa vir a ter um eixo próprio no Portugal 2030”, finaliza Freire de Sousa.

A integração das duas regiões é particularmente visível na área do sector automóvel e dos seus componentes, com algumas empresas a deslocarem-se da Galiza para o Norte de Portugal, atraídas pela estabilidade laboral, produtividade e salários mais baixos.

“Há muitas empresas a instalarem-se no Norte de Portugal e que têm dificuldade em recrutar trabalhadores. Algumas continuam, mesmo, a trazê-los de Espanha, sobretudo em concelhos como Valença, Paredes de Coura ou Vila Nova de Cerveira”, confirma Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e afins de Portugal (AIMMAP).

“Só nos últimos seis meses, a AIMMAP acompanhou quatro empresas da área da sub-contratação industrial (umas para o sector automóvel, outras para o sector aeronáutico) que estão em fase de aprovação de projectos em várias autarquias do Minho”, afirma o vice-presidente da AIMMAP.

Estas empresas, multinacionais japonesas, francesas e espanholas, “estão não só a projectar o seu investimento em Portugal devido à competitividade do país (pela qualidade dos recursos humanos e atractividade fiscal), mas também por razões de ordem operacional que se prendem com deslocalização do norte de Espanha e a ameaça do Brexit”, concluiu.