Governo reduz de 35 para 28 os comboios a comprar e deixa suburbanos de Cascais de fora

Presidente da CP informou sindicatos que a empresa só ia comprar seis comboios para o longo curso e 22 para o serviço regional. Proposta de Manuel Queiró à tutela era de 35 unidades, mas actual administração foi confrontada com uma redução.

Carlos Gomes Nogueira substituiu Manuel Queiró à frente da administração da CP
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Carlos Gomes Nogueira substituiu Manuel Queiró à frente da administração da CP Adriano Miranda

O caderno de encargos para a compra de material circulante para a CP só deverá contemplar 28 comboios (seis para o longo curso e 22 para o serviço regional) e não os 35 que a empresa tinha proposto à tutela durante a administração de Manuel Queiró.

A informação foi dada pelo actual presidente da empresa, Carlos Gomes Nogueira, no passado dia 12 de Janeiro numa reunião com representantes dos sindicatos ferroviários. Mas, contactados pelo PÚBLICO, nem a CP nem o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas quiseram confirmar ou desmentir essas declarações.

O concurso público que está a ser preparado pela tutela e pela transportadora pública deixa assim de fora a compra de comboios suburbanos para Cascais, a qual, do ponto de vista da infraestrutura, também já tinha ficado à margem do Ferrovia 2020, o plano de investimentos para o sector apresentado há dois anos pelo ministro Pedro Marques, e que não contempla a modernização daquela linha.

Fonte oficial do gabinete do ministro disse ao PÚBLICO que “apesar da modernização da linha de Cascais estar contemplada no PETI 3+, o anterior Governo não fez corresponder a essa prioridade qualquer fonte de financiamento”. Por isso, esta modernização “é um projecto que o Governo tem actualmente em estudo, nomeadamente no que respeita à sua componente financeira”.

Foram, pois, razões orçamentais que levaram o executivo a deixar cair os novos comboios para a linha de Cascais, não sendo de excluir, segundo o PÚBLICO apurou, que o actual número de 28 comboios venha ainda a ser reduzido.

Na reunião com os sindicatos, Carlos Gomes Nogueira informou que a prioridade aos comboios regionais se destinava a substituir o aluguer de automotoras à Renfe por material próprio. A empresa paga mais de cinco milhões de euros por ano a Espanha por material a diesel que circula nas linhas do Minho, Douro e Oeste.

A primeira proposta de compra de material circulante apresentada por Manuel Queiró contemplava 35 comboios, dos quais 10 de longo curso e 25 suburbanos e regionais.

Com a redução para 28 comboios, não é só a linha de Cascais que fica sacrificada. É também a própria estratégia da anterior administração, que pretendia preparar-se já para a liberalização do mercado ferroviário de passageiros prevista para 2019. O objectivo era avançar sobre Espanha com ligações directas de Lisboa e Porto para Madrid e substituir o actual Celta (Porto – Vigo) por um serviço directo Porto – Santiago de Compostela – La Corunha.

A redução do número de comboios enfraquece essa estratégia e abre caminho a que seja a Renfe que entre no território português com os seus comboios, até porque nuestros hermanos têm uma frota de material circulante de longo curso excedentária.

Já no sector das mercadorias, cuja liberalização está em curso, a Medway (antiga CP Carga, agora privatizada) comprou locomotivas interoperáveis para poderem circular em toda a Península Ibérica e está a formar maquinistas para conduzirem comboios em Espanha.

O caderno de encargos para a CP mantém, contudo, que os comboios regionais a comprar serão bimodais, isto é, serão automotoras a diesel e eléctricas para poderem circular em toda a rede, quer esta esteja ou não electrificada. Uma solução que poderia ser dispensável se se cumprissem os planos de electrificação da rede ferroviária nacional, a cargo da Infraestruturas de Portugal, mas na qual a CP e o governo, pelos vistos, não acreditam, optando por, prudentemente, comprar material que circule nas linhas não electrificadas.

Os 35 comboios inicialmente previstos estavam estimados em cerca de 350 milhões de euros. Fonte do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas diz que “o concurso para aquisição de material circulante deverá ser lançado em 2018”.

Até agora apenas a espanhola Talgo mostrou intenção de concorrer a este concurso.