Editorial

Saímos do lixo. Juntos. Que seja irrevogável

Celebremos todos, porque custou, mas chegámos lá. E depois lembremo-nos disto: é fundamental não voltar para trás.

Andámos seis anos atrás deste dia: a Standard & Poor’s voltou a colocar a dívida pública portuguesa num nível de investimento, o que nos traz todo um mundo novo: acesso mais seguro ao BCE, também a investidores privados, juros mais baixos, maior folga orçamental. É um alívio. E é para celebrar.

A saída do lixo é uma vitória de António Costa e Mário Centeno, porque os dois conseguiram em menos de dois anos o que poucos acreditavam ser possível no contexto de uma "geringonça". Mas também é uma vitória de Marcelo. E até de Passos Coelho e Paulo Portas, ou de Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque. Exactamente: um país não entra num resgate de um dia para o outro, mas também não sai dele sem um trabalho contínuo, que exige esforço, muito sacrifício e impopularidade. A direita teve, nestes seis anos, a quota parte mais amarga. Mas este Governo também sofreu para lá chegar, como podemos ver pelos protestos de médicos, enfermeiros, juízes, magistrados e polícias. Ou pelas exigências do BE e PCP que, verdade seja dita, também merecem a medalha, tendo aceite um caminho vagaroso. Celebremos todos, portanto, porque custou, mas chegámos lá.

Mas só chegámos a meio caminho — e também é fundamental lembrar isso. 

Hoje, 15 de Setembro de 2017, depois de tudo o que se passou e ainda com dinheiro emprestado a Portugal, o FMI elogiou o "progresso notável” do país e reviu em forte alta o seu crescimento. Mas deixou — como é sua função — alguns conselhos ao Governo. O mais duro será este: que trave a subida dos gastos com salários no Estado, compensando o descongelamento prometido das carreiras com outras medidas.   

O alerta tem, na sua base, um receio: que os níveis de crescimento da economia portuguesa não sejam sustentáveis. Por causa da baixa poupança, também pelo aumento dos custos de trabalho - a subir, tornando mais difícil o investimento, sobretudo com a banca frágil como ainda está. Se isto acontecer, diz o FMI, se a despesa crescer agora demais, voltaremos a ter um problema enorme. Também hoje, no Negócios, a presidente do IGCP alertava para um problema idêntico: quando o salário mínimo se aproxima do salário médio, os mais novos ficam de fora do mercado de trabalho e acabam por emigrar: “O último apaga a luz”.

Respiremos fundo: hoje, para nossa felicidade, a S&P deu-nos uma luz. Mas deixou claro, como o FMI, que há mais caminho a percorrer, até que nos livremos desta dívida monstruosa. Depois de celebrar, lembremo-nos do que custou chegar aqui. Para não voltar para trás.