Economia portuguesa a caminho do melhor desempenho da década

Mesmo que o segundo semestre seja de estagnação, crescimento em 2017 será de 2,2%

asm ADRIANO MIRANDA
Foto
asm ADRIANO MIRANDA

A economia portuguesa poderá registar, no conjunto de 2017, o melhor desempenho da última década e só um segundo semestre particularmente negativo face à tendência actual poderá impedir o Produto Interno Bruto (PIB) de ultrapassar a barreira dos 2% e de se aproximar mesmo de uma taxa em redor dos 2,5%.

A probabilidade de Portugal registar um crescimento acima das expectativas resulta dos dados já conhecidos referentes ao primeiro trimestre de 2017 e dos que foram divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos ao segundo trimestre do ano. Segundo o Instituto, a economia portuguesa cresceu 2,8% face a igual período do ano passado, igualando o valor já registado no primeiro trimestre. O resultado dos dois trimestres deixa Portugal a convergir com os seus parceiros do euro pelo terceiro trimestre consecutivo, é o melhor resultado dos últimos dez anos e para encontrar um valor superior é preciso recuar até ao ano 2000. Na evolução em cadeia - face ao trimestre anterior - houve uma desaceleração: a economia cresceu 0,2% depois de entre o final de 2016 e o primeiro trimestre de 2017 ter crescido 1%.

Apesar deste abrandamento, o conjunto do primeiro semestre fecha com um crescimento de 2,8% face a igual período de 2016 e mesmo que nos próximos dois trimestres a economia não registasse qualquer crescimento, no final de Dezembro o crescimento anual seria de 2,2%. E para que em 2017 se chegue ao crescimento de 2,5% tal como o registado em 2007 é preciso que a evolução em cadeia em cada um dos próximos dois trimestres chegue a 0,4%. O crescimento de 2,5% para o conjunto do ano é, aliás, a previsão do Banco de Portugal, sendo também a versão mais recente das várias existentes. Todas as restantes previsões parecem já ultrapassadas face aos dados do primeiro semestre. Mas num cenário ainda mais optimista, se o segundo semestre fosse igual ao primeiro em termos de crescimento em cadeia, então, a barreira dos 2,5% seria mesmo ultrapassada.

Definitivamente afastada parece a previsão do Governo. Na proposta de Orçamento do Estado para 2017, o ministro das Finanças, Mário Centeno, apresentava uma estimativa de crescimento de 1,5% que viria posteriormente, no Programa de Estabilidade e Crescimento, a rever em alta para 1,8%. Mas esta meta está largamente ultrapassada e só se concretizaria se nos dois últimos trimestres do ano se registassem taxas de variação negativas, -0,5% em cada um dos trimestres, o que não é provável.

Perante os resultados positivos, tanto o ministro das Finanças, como o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, apressaram-se a vir a público salientar os dados positivos divulgados pelo INE, colocando a tónica no perfil de crescimento e no facto de a subida do PIB estar a ser acompanhada de uma redução do desemprego.

Os dados, segundo Mário Centeno, constituem um sinal “claro” do “forte dinamismo actual da economia”, sublinhou o ministro em declarações aos jornalistas. Já o ministro da Economia, em comunicado, salientou o “aumento sustentável das taxas de crescimento do PIB”.

Os dados do INE divulgados ontem, sob a forma de estimativa rápida, não dão ainda muita informação sobre o perfil de crescimento da economia. Ainda assim, o Instituto salienta que ao contrário do que ocorreu no primeiro trimestre, o contributo da procura externa líquida foi desta vez “ligeiramente” negativo resultante de uma maior desaceleração das exportações do que das importações. Mas este facto acabou por ser compensado por um maior contributo da procura interna “em resultado da aceleração do investimento”. As duas tendências foram verificadas tanto em termos de variação homóloga, como na variação em cadeia.

Para o economista João Borges de Assunção, do Núcleo de Estudos de Conjuntura da Economia Portuguesa (NECEP), da Universidade Católica, o maior crescimento “do investimento é um sinal positivo e o contributo ligeiramente negativo da procura externa líquida não preocupa tendo em conta o contributo positivo do trimestre anterior”. Ou seja, “os dados são consistentes com a continuação da recuperação da economia portuguesa”. Ainda assim, o economista lembra que “nos próximos trimestres será importante continuar a observar a recuperação do investimento a taxas robustas e a manutenção do saudável crescimento das exportações”, sublinhando que “o crescimento da zona euro continua a condicionar a economia portuguesa, e os riscos oriundos da economia internacional continuam elevados”.

O INE publicará os dados mais desenvolvidos sobre o desempenho da economia no dia 31 de Agosto.