Grandes investidores voltam a apostar na dívida do Estado vendida pelos bancos

Emissão de OTRV voltou a contar com aplicações superiores a meio milhão de euros, quase duplicando o número registado na estreia deste produto vendido pelos bancos.

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Cristina Casalinho, presidente do IGCP, não se diz se vai ou não lançar mais uma emissão de OTRV este ano Nuno Ferreira Santos

Foram apenas 93 investidores no meio de quase 69.000, mas representaram a grande novidade da emissão de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) agora realizada, ao aplicar, cada um, mais de meio milhão de euros neste produto de dívida do Estado (somando pelo menos 46,5 milhões). Isto depois de, nas últimas três emissões, este patamar de investimento ter ficado a zero. Aliás, até agora, só mesmo na estreia das OTRV, em Maio do ano passado, é que se registaram montantes superiores a meio milhão (o valor máximo é de um milhão de euros), através de 46 investidores.

Agora, e de acordo com os dados divulgados esta segunda-feira pela Euronext Lisboa (as OTRV, com maturidades de cinco anos, são transaccionadas no mercado secundário), houve não só um regresso dos montantes de maior dimensão, via investidores particulares e institucionais (sociedades gestoras de activos, por exemplo) como foi superado o movimento da primeira emissão.

Colocadas pelos bancos junto dos seus clientes, as OTRV têm vindo a descer a remuneração, por efeito da actual conjuntura de baixas taxas de juro. A que foi agora colocada no mercado paga 1,6% em termos anuais (no mínimo), acrescidos à Euribor, quando já pagou mais de 2% (2,2% na primeira emissão).

Em entrevista ao site de informação económica Eco, publicada esta segunda-feira, a presidente do IGCP, instituto que gere a dívida pública, afirmou que nesta última emissão de OTRV o “prémio” face ao mercado foi maior do que nos casos anteriores, tendo como referência o comportamento actual das obrigações do tesouro a cinco anos. Isto é, o Estado vai pagar mais por esta linha de OTRV do que se fosse ao mercado

De resto, verificou-se também um crescimento dos investidores entre os cem mil euros e o meio milhão e entre os cinquenta mil e os cem mil euros para níveis que só foram superados na estreia das OTRV. Em sentido contrário estiveram os da fasquia entre os 20 mil e os 50 mil, que desceram 9,9% face à última emissão, em Abril, e caíram 53% face à emissão de Novembro do ano passado.

O maior peso está no universo de investidores mais pequenos, que aplicam entre mil euros (o mínimo admissível) e 20.000 euros. Na primeira emissão constituíam 72% do total, valor que tem vindo a subir e que está agora nos 90%. Isto apesar das comissões cobradas pelos bancos, que retiram rentabilidade às OTRV, algo evidente nos montantes mais pequenos.

Ao todo, houve 68.874 investidores nesta última emissão, o representa uma subida de 9,3% face à de Abril (foi a segunda mais concorrida).  

Objectivos superados

Em pouco mais de um ano, o IGCP já colocou 5650 milhões de euros de OTRV no mercado, dos quais 2200 milhões desde Janeiro, por via de duas emissões. Em entrevista ao PÚBLICO em Fevereiro, a presidente do IGCP, Cristina Casalinho, afirmou que a ideia era recorrer menos às OTRV este ano, em número de emissões e em valor, apontando para uma por semestre.

Além das OTRV, o Estado financia-se através dos certificados do tesouro e do aforro, bem como por via da emissão de bilhetes e obrigações do tesouro (junto de investidores institucionais).

Actualmente, de acordo com os dados de Junho do IGCP, há 25.642 milhões de euros em certificados de aforro e certificados do tesouro poupança mais (vendidos através dos CTT), que somam aos 5650 milhões das OTRV, acessíveis a investidores particulares. Desde o início do ano, em termos líquidos, foram arrecadados 1400 milhões de euros em certificados (por via dos do tesouro, já que os de aforro estão a diminuir devido à mudanças na remuneração).

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Aumentar

Por parte dos CTT, estes destacam que a procura pelos certificados do tesouro poupança mais (CTPM) se devem à sua “elevada rendibilidade (rendimento bruto médio de 2,25% a cinco anos)”, que contrasta com “a realidade dos depósitos bancários cujo rendimento médio voltou a reduzir-se para 0,31%, segundo dados do Banco de Portugal”.

Além disso, de acordo com o relatório e contas do primeiro semestre dos CTT, divulgado esta segunda-feira, a procura por CTPM “beneficiou igualmente do facto de ser totalmente isento de custos, num contexto de agravamento de comissões pelos bancos, designadamente na manutenção de contas à ordem”.

Entre o valor das novas subscrições de CTPM e o das OTRV, conforme afirmou a responsável do IGCP na entrevista ao Eco, já foram superados os objectivos orçamentados para este ano. Não obstante, o IGCP prevê arrecadar ainda outros 1100 milhões de euros, via certificados do tesouro, até ao final de Dezembro.

Questionada sobre se vai ou não haver mais uma emissão de OTRV ainda este ano, Cristina Casalinho foi evasiva na resposta. “Estamos disponíveis para continuar a usar este instrumento. Se é este ano, se é para o ano, é difícil comprometermo-nos com prazos”, afirmou. Adesão, essa, não deve faltar, a atestar pelos números já conhecidos: o valor final das emissões foi sempre aumentado pelo IGCP face ao valor estipulado inicialmente e, mesmo assim, a procura ficou sempre acima da oferta. Esta segunda-feira não foi diferente, com a procura a exceder 1,3 vezes a oferta.