Domingues culpa Governo pela derrapagem no calendário de capitalização da Caixa

As declarações do presidente demissionário da Caixa constam de carta de despedida aos funcionários do banco.

António Domingues apresentou a demissão do cargo no final de Novembro e sai a 31 de Dezembro
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António Domingues apresentou a demissão do cargo no final de Novembro e sai a 31 de Dezembro Miguel Manso

António Domingues, que renunciou à liderança da Caixa Geral de Depósitos (CGD), acusa o Governo da derrapagem na calendarização do processo de capitalização do banco, cujo arranque está agora previsto para 4 de Janeiro. O presidente demissionário afirma ainda que cumpriu os prazos na entrega do plano de capitalização elaborado pela sua administração, mas que o calendário final da injecção de capital “resulta de decisão accionista”.

“O plano de capitalização da CGD e o Plano Estratégico, construído pelas equipas da CGD, apresentado e negociado com o accionista e com as autoridades europeias, são os produtos visíveis de um programa de trabalho muito intenso que nos ocupou nos últimos meses, com vista a criar as condições para o crescimento sustentado da Caixa Geral de Depósitos”, pode ler-se no documento a que o PÚBLICO teve acesso.

O Governo guardou para 2017 toda a recapitalização necessária da Caixa Geral de Depósitos com o propósito de salvaguardar o défice orçamental previsto, tendo já o executivo português tido a aprovação para tal do Banco Central Europeu (BCE). "Cumprimos com os objectivos, a capitalização da empresa fora das ajudas de Estado, e com os prazos definidos. O calendário final da capitalização resulta de decisão accionista", refere o presidente demissionário na carta.

A recapitalização da Caixa vai arrancar a 4 de Janeiro, ainda antes de a equipa liderada por Paulo Macedo tomar posse – que não acontecerá antes do dia 10 de Janeiro. Este impasse, que pode abrir um problema na liderança do banco, acontece devido às férias de Natal e Ano Novo que atrasaram o processo de avaliação da nova administração, noticia o Negócios.

A constituição da nova equipa da CGD foi enviada para o BCE a 19 de Dezembro, mas pelos motivos referidos anteriormente o Governo terá que avançar com uma solução transitória entre o período de saída de António Domingues, a 31 de Dezembro, e o de entrada na nova administração, depois do dia 10 do próximo mês.

Se por um lado tece acusações ao Governo – com quem disse não ter saído “zangado” –, por outro António Domingues reconhece o esforço dos funcionários do banco, destacando o “empenho” e “profissionalismo” dos mesmos naquela que diz ter sido uma “extraordinária experiência”.

“Quero felicitá-los pelo trabalho realizado e pelos resultados alcançados. Manter a confiança dos clientes e realizar a maior parte dos objectivos definidos num período particularmente difícil”, escreveu Domingues na carta de despedida.

A administração de António Domingues tomou posse na Caixa Geral de Depósitos em Agosto, mas a partir desse momento levantou-se uma polémica em torno dos salários, da entrega das declarações de rendimentos e sobre a eventualidade de ter tido informação privilegiada sobre a CGD quando participou, como convidado, em três reuniões com a Comissão Europeia para debater a recapitalização do banco. António Domingues apresentou a demissão do cargo no final de Novembro.