Editorial

A riqueza das nações

"O verdadeiro valor das coisas é o esforço e o problema de as adquirir.” A frase, com mais de 200 anos, do economista Adam Smith, autor de a A Riqueza das Nações, serve na perfeição para explicar o porquê de tão abrupta queda do preço do petróleo. Com a forte aposta dos EUA e do Canadá na última década em desenvolver a exploração das rochas de xisto betuminoso, o mercado foi inundado de petróleo e os tradicionais produtores, como a Arábia Saudita, Nigéria ou Argélia, tiveram de se virar para outros mercados, como o asiático, e o preço da matéria-prima veio por aí abaixo. O arrefecimento de algumas economias mais desenvolvidas e emergentes, a maior eficiência energética do parque automóvel, a abertura do mercado internacional a novos players, como o Irão, e a utilização do preço por parte da Arábia Saudita como arma de arremesso económico contra os EUA, ou de arremesso político contra Teerão e Moscovo, explicam o resto. E tudo isto se enquadra na teoria cara a Adam Smith, a da oferta e procura.

Mas o petróleo barato começa a sair caro mesmo a países como os EUA, onde o fecho de várias indústrias ligadas ao petróleo de xisto (mais caro de extrair) já atiraram milhares para o desemprego. Já os petro-Estados caem uns atrás dos outros que nem peças de dominós. A Rússia já teve de elevar a taxa de juro para os 17% para tentar segurar o rublo; na Venezuela a inflação ronda os 60%, enquanto a economia definha; o Azerbaijão acabou de entrar em colapso esta semana e pedir ajuda de emergência ao FMI; e até os países nórdicos como Noruega, com economias mais diversificas, estão a pagar um preço alto pelo baixo preço do petróleo. No Brasil a Petrobras começa a ter um negócio pouco rentável e em Angola o Governo já reconheceu ter perdido mais de 5 mil milhões de euros no último ano por causa da queda a pique do barril.

No entanto, há quem olhe para a crise do petróleo e veja uma grande oportunidade. Como os preços dos combustíveis estão a registar quedas históricas, já dois responsáveis europeus – Wolfgang Schäuble e Valdis Dombrovskis – vieram lançar a ideia de uma nova taxa sobre os combustíveis a nível europeu para ajudar no financiamento da actual crise dos refugiados. Uma boa ideia, se servir para receber de forma condigna os que fogem da guerra e se ajudar a resolver o problema dos refugiados na origem. Uma ideia que mostra que a riqueza das nações não se mede apenas pela quantidade de reservas de petróleo.