Esquerda remete para Cavaco a culpa pela “crise política”

PS, Bloco, PCP e PEV reiteraram a legitimidade do Governo socialista apoiado pelo Parlamento. Para o PSD, a atitude do PS é “exactamente o oposto do que é a ideia de democracia”.

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Os partidos à esquerda do PS, que assinaram os acordos de incidência parlamentar, marcaram presença na cerimónia da tomada de posse no Palácio da Ajuda. Daniel Rocha

Foi uma presença inédita numa tomada de posse e que acabou por servir para dizer na rua o que António Costa não podia, a bem do relacionamento institucional, responder ao Presidente da República dentro da sala dos embaixadores. O Bloco de Esquerda remeteu para Cavaco Silva a responsabilidade pela “crise política” que o Chefe de Estado disse ter sido criada com a demissão do Governo PSD/CDS através da rejeição do seu programa no Parlamento, no que acabou por ser seguido por PCP, PEV e PS.

Catarina Martins afirmou que o Presidente “continua a ter um equívoco” sobre a formação deste Governo: disse que saiu de uma crise devido à demissão do Governo PSD/CDS, mas Cavaco Silva “já sabia que ele não teria apoio da maioria parlamentar e seria rejeitado”. “Este não é um Governo saído de uma crise política, mas das eleições”, reforçou. A porta-voz, que se fez acompanhar do líder da bancada, Pedro Filipe Soares, e pelo vice-presidente da AR José Manuel Pureza, vincou que o novo Governo, que tem como principal função “travar o empobrecimento em Portugal”, se baseia num acordo com as forças de esquerda do Parlamento e que a “sua legitimidade vem das eleições”.

“Depois da crise política que o Presidente criou com a nomeação de um Governo PSD/CDS que não tinha condições para entrar em funções, agora põe-se fim a essa crise com a nomeação de um Governo que pode entrar em plenitude de funções”, defendeu o líder parlamentar do PCP. João Oliveira mostrou-se “preocupado” com o facto de o Presidente admitir que ponderou outras soluções, o que é “grave” por desrespeitarem a Constituição, como a “convocação de novas eleições que dessem um resultado diferente ou mantendo em funções um Governo de gestão”.

Manuela Cunha, dirigente do Partido Ecologista Os Verdes, foi ríspida: “Não estamos aqui para ouvir recados do sr. Presidente da República; estamos aqui para ver o que se devia ter cumprido há algum tempo.” Defendeu que o país tem agora uma “normalidade institucional e vai poder virar uma página marcada pela degradação social, ambiental e económica” e que, se o problema se arrastou tanto tempo, ele ficou a dever-se a uma situação que o próprio Presidente da República criou. “Mais do que o discurso, é preciso trabalhar para dar a volta a isto”, afirmou.

Optando por um discurso conciliador, o presidente socialista Carlos César saiu do Palácio da Ajuda defendendo que agora “é altura de reabilitar a economia, de reagrupar forças” e não de agudizar conflitos. “Este Governo não é o resultado de uma divergência, mas de convergência; não é o resultado de uma crise, mas da tentativa de fazer um país melhor e fazer confluir [vários partidos] no esforço de o desenvolver.”

O também líder da bancada parlamentar do PS disse ainda ser intenção deste Governo manter uma “boa relação” com todas as instituições, com o Presidente da República e com todos os partidos no Parlamento, parceiros sociais, iniciativa privada, associativismo e portugueses em geral. Reiterou ser intenção do executivo manter o cumprimento dos compromissos com a NATO e União Europeia, por exemplo.

“Precisamos de tempo para resolver os problemas do país e não perder tempo em conflitos institucionais que são inúteis”, respondeu Carlos César. “Hoje não é o dia do sr. Presidente da República, é o dia do novo governo constitucional”, rematou.

O oposto da moderação
Do lado da nova oposição, só o PSD se pronunciou – os dirigentes do CDS preferiram sair em silêncio. O vice-presidente social-democrata José Matos Correia disse que este Governo toma posse num momento em que o país já inverteu o rumo das dificuldades, por isso “é exigível que o PS tenha a responsabilidade suficiente para dar continuidade ao caminho que tirou o país da crise, porque tem as condições para levar o país onde ele merece estar”.

Recusou fazer qualquer leitura do discurso do Presidente da República, preferiu vincar que o PS optou pelo caminho de derrubar um Governo que tinha sido eleito nas urnas e entender-se com “as forças mais radicais”. O dirigente do PSD criticou o apelo à moderação feito por António Costa, quando a atitude do PS é “exactamente o oposto do que é a ideia de democracia”. O PS “optou pelo caminho de derrubar o Governo que ganhou as eleições e por fazer um entendimento em termos pouco claros com as forças políticas mais radicais da esquerda do parlamento”, disse Matos Correia. Agora, avisou, “terá que viver com essa opção e com os entendimentos que conseguir. Quem fez uma opção dessas tem que viver com ela e é com base nesses apoios que o PS terá que encontrar soluções.”

O candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa considera que ontem “se virou uma página” e que “terminou um ciclo político no Governo e na Presidência da República”. O que importa agora é "ver se o Governo governa e se apresenta o orçamento rapidamente(…) Os portugueses estão um bocadinho fartos do clima de crise. Querem é ver resolvidos os seus problemas concretos", concluiu, citado pela Lusa.