Opinião

Um grande embuste

A política prosseguida pelo PSD e pelo CDS no anterior Governo, nas suas linhas fundamentais, não tinha nada de viragem à direita ou de conversão ao neoliberalismo.

1. É hoje o dia em que a extrema-esquerda que nunca se retratou das crenças totalitárias, que despreza os fundamentos das democracias liberais e que tem as maiores reservas à pertença à União Europeia vai dar o grande salto em frente rumo ao poder. E vai dá-lo de mãos dadas com o Partido Socialista, que é o autor consciente desse salto e que está ávido de salvar a pele da sua liderança. Não hesito um segundo proclamar bem alto que a chegada da extrema-esquerda ao poder há-de revelar-se profundamente nefasta para o país. E que farei, com toda a convicção e com todas as forças, uma oposição impenitente a um Governo que venha a resultar dessa aliança contra-natura e que dê a tais correntes políticas um papel relevante na direcção política do país. Esta conquista do poder pela esquerda radical, populista e fundamentalista, operada pela vontade do PS convém nunca o esquecer tem, na verdade, uma única vantagem: clarifica o panorama político, torna as coisas muito límpidas e claras, facilita a tomada de posição de princípio. Eis aqui essa tomada de posição: estou contra, sou contra!

2. Isto dito, importa denunciar o enorme embuste em que assenta a retórica justificativa do PS. Do PS de muitos dos comentadores e analistas que por aí rejubilam com a ascensão ao poder da extrema-esquerda. Com efeito, nas últimas semanas tem sido muito glosada a ideia de que o PS só se aliava à esquerda extremista porque o PSD e o CDS, nos últimos quatro anos, se tinham radicalizado. São, aliás, inúmeros os dirigentes do PS, mais jovens ou mais anciãos, que agora preconizam que o PS está politicamente mais perto do Bloco e do PCP do que dos partidos da coligação. Os quatro anos de governação teriam empurrado os partidos da coligação para a direita, situando-os numa direita radical, marcada por um fundamentalismo neoliberal. E com isso, PSD e CDS teriam fugido à sua matriz social, ao seu código genético solidário e humanista, convertendo-se a uma espécie de “solipsismo capitalista”. Essa guinada à direita teria como grande desígnio a destruição do Estado social, nomeadamente nas áreas da educação, da saúde e da Segurança Social. O PSD e o CDS teriam sido nestes quatro anos uma espécie de Daesh que olhava para o Estado social como os guerrilheiros do Estado Islâmico olham para Palmyra. O pretenso radicalismo de direita teria posto os respectivos partidos a anos-luz de distância do PS, atirando este para os lânguidos braços da extrema-esquerda. 

3. Esta narrativa não passa de um embuste de dimensões colossais, de uma auto-justificação pueril, que, em alguns casos, relevará de atitudes de boa-fé, mas que, na maioria dos casos, arranca de uma posição de má-fé e de mera reserva mental. É, de facto, espantoso que alguém possa, a respeito desses quatro anos de governo, falar numa disposição ideológica voluntária. Bastaria ter em conta que o PSD e o CDS governaram em estrita aplicação de um “memorando de entendimento” negociado com credores internacionais para logo cair por terra aquela narrativa infantil. O caso torna-se ainda mais flagrante, se se houver em conta que o memorando foi negociado por um Governo do PS, a saber o II Governo José Sócrates. Seria suficiente, de resto, lembrar que a execução do memorando esteve permanentemente sujeita ao controlo da troika, que justamente representava o conjunto dos credores internacionais. E que o memorando só foi subscrito e que a troika só foi chamada a intervir porque Portugal estava na iminência da bancarrota. E ainda, e não menos importante, que essa situação de falência das finanças públicas foi originada por sete anos de governação socialista, precisamente liderada por José Sócrates e em que esteve directamente envolvido António Costa da qual, registe-se aliás em letra de forma, este nunca se distanciou ou retractou. Como pode falar-se de uma “derrapagem radical para a direita” e para o “fundamentalismo neoliberal”, se o Governo PSD/CDS teve de aplicar uma política de saneamento das finanças nacionais negociada pelo PS em virtude do descalabro em que o mesmo PS deixou as contas públicas? Como é possível embarcar nessa justificação artificial, artificiosa e enganadora? Acaso passará pela cabeça de alguém agora que conhecemos o contorcionismo político de Tsypras e do Syriza que um Governo do PS teria feito diferente ou assaz diferente nesses quatro anos? Será que alguém se atreve a apodar de liberal ou neoliberal uma política que teve no aumento substancial de impostos uma das suas dimensões mais características? E poderá mesmo dizer-se que a educação e a saúde estão pior? Ou não deverá antes enxergar-se que foi justamente a reforma destes sectores que permitiu preservar a sustentabilidade do Estado social? E que precisamente falta fazer algo de equivalente no domínio da Segurança Social, para conservar o núcleo essencial da função social do Estado?

4. Não vale a pena ripostar com as tiradas bombásticas e demagógicas de que os argumentos da bancarrota, da responsabilidade do PS, do memorando e da troika são coisa do passado, já julgada em eleições pretéritas e, por conseguinte, anacrónica e intempestiva. A política prosseguida pelo PSD e pelo CDS no anterior Governo, nas suas linhas fundamentais, não tinha nada de viragem à direita ou de conversão ao neoliberalismo. E mesmo que tivesse, e quer os socialistas queiram quer não, ela resultava de um excepcional “estado de sítio financeiro”, de um “estado de necessidade”, na prática de uma “imposição externa” significativamente muito mais conformada pelo PS do que por qualquer outra força política. Estivesse quem estivesse no Governo não seria muito diferente, não se mostraria diversa em nada de relevante. A justificação do PS de que “radicalismo” (de direita) com radicalismo (de esquerda) se paga não passa por isso de um grande embuste. Um mero pretexto para chegar ao poder e conservar com a força revigoradora do formol uma liderança em sérios apuros. Estou contra, sou contra.

SIM e NÃO

SIM. Aung San Suu Kyi. A vitória rotunda do partido da Prémio Nobel da Paz nas eleições birmanesas dá uma nova esperança a um país castigado pela ditadura e pela pobreza. E já agora ao resto do mundo.

NÃO. Censura judicial. A proibição, aplicada aos “media” da Cofina, de publicarem notícias sobre a operação Marquês é um atentado à liberdade de imprensa. Ampliado pelo manto de silêncio que sobre isso se impôs.

Eurodeputado do PSD ([email protected])