Europa faz pressão máxima para Grécia ceder até segunda-feira

BCE garantiu aos bancos gregos dinheiro para resistirem apenas até ao dia em que se realiza a cimeira de líderes de emergência em Bruxelas.

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Tsipras foi a São Petersburgo encontrar-se com Putin Grigory Dukor/Reuters

No dia seguinte a mais um Eurogrupo falhado, os responsáveis políticos europeus deram vários sinais de que não estão dispostos a ir além da próxima segunda-feira na espera por uma cedência do Governo grego. Ou Atenas aceita a grande maioria do acordo proposto pela troika até ao final da cimeira extraordinária de líderes agendada para esse dia, ou o cenário de um incumprimento por parte da Grécia passa a ser visto como inevitável e o última torneira de financiamento que ainda está aberta para o país começa a ficar fechada.

O presidente da UE, que convocou a cimeira extraordinária de líderes da zona euro para segunda-feira, resumiu a actual posição europeia face ao executivo liderado por Alexis Tsipras. “Estamos próximos do ponto onde o Governo grego terá de escolher entre aceitar aquilo que acredito ser uma boa oferta de apoio continuado ou avançar para o incumprimento”, afirmou.

Este tom de ultimato para a cimeira de segunda feira foi também confirmado pela informação avançada pela Reuters de que, nas preparações do Eurogrupo extraordinário que ocorrerá horas antes da cimeira, o tema pode já não ser a obtenção de um acordo entre a Grécia e os seus credores, mas sim a preparação da zona euro para um cenário de incumprimento da Grécia no pagamento das suas dívidas (nomeadamente aquela que é prevista pagar ao FMI no dia 30 de Junho).

Uma reunião em que a agenda seja a preparação para o default ocorrerá, disseram responsáveis da zona euro à Reuters, se durante o actual fim-de-semana não se assistir a uma aproximação da Grécia das propostas feitas pela troika. Nesse caso, tal como aconteceu na quinta-feira, é considerado inútil discutir propostas gregas que não são consideradas credíveis, consideram os membros do Eurogrupo.

Mas mais do que as palavras de Tusk ou a possibilidade de mudança de agenda no Eurogrupo, a principal fonte de pressão sobre a Grécia voltou a vir, esta sexta-feira, do Banco Central Europeu.

É verdade que a instituição liderada por Mario Draghi até aceitou voltar a reforçar o empréstimo de emergência que está a ser concedido aos bancos gregos. Perante o que parece ser uma cada vez mais rápida fuga de depósitos das instituições, o conselho de governadores da autoridade monetária europeia decidiu aumentar a dimensão da Assistência de Liquidez de Emergência (ELA na sigla inglesa) que está à disposição dos bancos gregos.

No entanto, conforme noticiado por diversos órgãos de comunicação social internacionais, o BCE optou por não aumentar o seu financiamento na totalidade do montante que tinha sido pedido pelo banco central grego. A opção foi antes a de garantir o dinheiro que é necessário para que as instituições financeiras gregas possam funcionar sem problemas até à próxima segunda-feira.

O BCE marcou, aliás, uma nova reunião para esse dia, com o objectivo de voltar a avaliar a situação dos empréstimos de emergência concedidos à banca grega. Não se sabe a que horas decorrerá essa reunião, mas a sua ligação com o Eurogrupo e com a cimeira extraordinária de líderes que ocorrerá no mesmo dia parece ser evidente.

Existe a expectativa de que, em caso de persistência no desacordo entre a Grécia e os seus credores, o BCE comece a fechar a torneira aos bancos gregos. Pode fazê-lo de forma gradual, por exemplo, reduzindo mais o valor que atribui aos títulos de dívida pública grega que são apresentados como garantia pelos bancos.

Os bancos gregos têm vindo a assistir nos últimos dias a uma intensificação das saídas de depósitos, o que os força a obter liquidez junto do banco central para evitar a ruptura. Neste momento, o montante global da ELA concedida à Grécia, supera já os 85 mil milhões de euros.

Se o BCE deixar de dar todo o financiamento de emergência que os bancos gregos necessitam, abre-se a possibilidade de a Grécia ter de impor controlos de capital na economia, que evitem a continuação da fuga de depósitos a que se tem vindo a assistir.

Colocado perante toda pressão, o primeiro-ministro grego, em visita à Rússia, não deu sinais de mudança de discurso. “A União Europeia, de que fazemos parte, deve retomar o caminho dos seus princípios estatutários: a solidariedade, a democracia, a justiça social. Isto torna-se impossível quando nos colamos a políticas de austeridade e a políticas que prejudicam a coesão social, que agravam a recessão", declarou Tsipras em São Petersburgo.

E, num dia em que se encontrou com Vladimir Putin e assinou um protocolo detalhado com a Rússia relativo a uma futura construção de um gasoduto, garantiu que “a Grécia é um país de marinheiros, que sabem lidar com as tempestades e não têm medo de navegar para oceanos distantes, águas não conhecidas, à procura de um porto seguro”.

Este discurso confiante, contudo, não dá grandes pistas sobre as difíceis escolhas políticas que Tsipras e o seu Governo enfrentam nos próximos dias. É que além das pressões europeias, existem também as pressões internas, resumidas esta sexta-feira por Anna Asimakopoulou, a ministra das Finanças sombra do maior partido da oposição, a Nova Democracia: “Há um mau cenário e o pior cenário possível. Ou Tsipras concorda com medidas de austeridade no valor de 5000 milhões de euros – porque é isso que os europeus estão a pedir – ou tira a Grécia para fora da zona euro. E o problema é que Tsipras não tem mandato para qualquer das duas opções”.