Opinião

Bastaram três semanas

Se as coisas correrem bem nas próximas semanas, a vitória do Syriza pode ainda ter alguma utilidade para a Europa.

1. Devo confessar que não tenho a mínima simpatia pelo Syriza. Não acredito que a sua conversão à Europa seja mais do que uma necessidade eleitoral.

Há menos de um ano era contra a União Europeia, contra o euro, contra a NATO e contra o capitalismo. Para nossa tranquilidade é bom evitar a leitura de alguns discursos recentes de Alexis Tsipras ou do seu mediático ministro das Finanças. Hoje, não põem em causa nem a União nem o euro (descobriram que mais de 70 por cento dos gregos quer manter-se na moeda única, mesmo que com um preço menor a pagar). Souberam interpretar o desespero dos gregos e o rol infindo de razões para votarem num partido novo, que prometia bater o pé a Bruxelas e impor o fim da troika e da austeridade. Tiraram partido de um sistema partidário corrupto e clientelar completamente desacreditado. Não foram, naturalmente, os radicais de esquerda que lhe deram os votos. Foi uma vasta camada de gente sem grandes ilusões que apenas sabia que mais do mesmo já não era suportável. Tsipras conduziu a campanha assente numa única ideia: rasgar os programas de ajustamento impostos pela Europa e pôr definitivamente a troika fora do país. Chegou ao poder em Atenas convencido de que conquistaria facilmente o apoio de outros governos europeus, também eles fartos da receita austeritária de Berlim. Tinha sido recebido com simpatia em Paris e em Roma. Via a Grécia como a intérprete da revolta dos europeus.

O primeiro sinal de anormalidade aconteceu logo depois da vitória, com a negociação relâmpago de uma coligação com o partido nacionalista “Gregos Independentes” (as mentes mais ingénuas achavam que Tsipras iria entender-se com um partido civilizado e europeu, o River), cuja proximidade política só pode ser encontrada numa visão soberanista (para dizer o mínimo) e pouco amiga da Europa. Esta mistura entre populismo de esquerda e nacionalismo de direita é nova e é perigosa. Marine Le Pen foi uma das primeiras a felicitar o Syriza e o embaixador da Rússia foi o primeiro a ser recebido pelo novo primeiro-ministro.

2. O primeiro erro do Syriza, que acabou por conduzi-lo direitinho ao acordo político de sexta-feira passada (em que Atenas cedeu em quase tudo) foi uma avaliação errada do equilíbrio de forças europeu. Tsipras acreditou que iria encontrar um clima suficientemente aberto às suas reivindicações. Descobriu rapidamente que as pancadinhas nas costas que recebeu em Roma ou em Paris não significavam qualquer apoio político ao seu programa. Com Hollande ou sem Hollande, a França guia a sua política europeia pela necessidade de manter uma parceria com Berlim, iludindo a sua própria fraqueza. Hollande não quer desperdiçar a nova e bela amizade que estabeleceu com a chanceler, graças à Ucrânia e ao terrorismo. Roma joga noutro tabuleiro e Renzi é tudo menos um radical. A oposição de Madrid e Lisboa a qualquer facilitação da vida dos gregos ia ser feroz porque nenhum dos Governos pode aceitar que o crime por vezes compensa. Para os alemães (que Varoufakis acreditou ingenuamente que poderia vergar), a saída da Grécia do euro deixou de ser uma questão tabu. A arrogância de Wolfgang Schäuble, absolutamente desnecessária, só é desculpável pela estranha insistência com que o jornal do Syriza continua a publicar caricaturas suas envergando a farda do exército nazi.

Numa palavra, o novíssimo governo de Atenas deixou-se isolar em meia dúzia de dias. Ainda recalcitrou. Ainda ameaçou com a China e a Rússia. Acabou por optar por um comportamento muito mais razoável que lhe garante o apoio financeiro da Europa (o que falta ainda receber do segundo resgate) e lhe dá margem de manobra para levar a Bruxelas o seu próprio programa de reformas, já na próxima segunda-feira. Ganhou a semântica (a palavra troika foi substituída pelas “instituições”). Em contrapartida, aceitou que as dívidas são para pagar, que o seu novo programa será negociado com Bruxelas, que as medidas de socorro social serão neutras financeiramente e que, embora de forma flexível, as metas são para cumprir. Na verdade, não tinha outro remédio. Não consegue financiar-se nos mercados. Sem o apoio do BCE ao seu sistema bancário e o dinheiro europeu para as despesas do Estado, o caminho para o default seria inevitável. Imagina-se a corrida aos depósitos na próxima segunda-feira se não tivesse havido acordo.

3. Se as coisas correrem bem nas próximas semanas, a vitória do Syriza pode ainda ter alguma utilidade para a Europa. Em primeiro lugar, lembrando que as democracias existem e têm de ser levadas em conta nas decisões europeias. Hoje, mesmo que tarde, há um reconhecimento público dos erros cometidos pelas instituições europeias e pelo FMI nos programas de resgate, com resultados que ficaram muito longe do previsto. Não é só a Grécia que tem uma dívida descomunal. Portugal também e ainda não começou a descer.

De algum modo, o desabafo de Jean-Claude Juncker sobre a forma humilhante com que foram tratados os gregos ou os portugueses representa esta mudança. O problema maior é que o seu desabafo também resulta do facto de, mais uma vez, a Comissão ter sido marginalizada pelo Eurogrupo. Convém recordar que, na segunda-feira, dia 16, a Comissão tinha um plano para pôr em cima da mesa do Eurogrupo que acreditava ser a saída possível. Esse plano desapareceu, deixando todo o espaço ao presidente do Eurogrupo e ao ministro das Finanças de Berlim para conduzirem as negociações. No caso, para acabar com elas.

4.E isso traz-nos directamente a Portugal é ao impacte político da crise grega. Por mais que digam que não, os dois governos de Espanha e de Portugal seriam os mais “prejudicados” (eleitoralmente falando, claro) com um acordo que concedesse a menor das facilidades a Atenas. Em Madrid o problema chama-se Podemos. Em Lisboa, porque põe em causa a estratégia do aluno diligente, que tinha engolido o cálice até ao fim, para ver o prémio ser dado a outro. A questão da dignidade é a mais dura de engolir e o governo sabe disso. Paulo Portas ainda pode fazer o seu número do protectorado. Pedro Passos Coelho veio agora dizer que também ele enfrentou a troika (só que no segredo dos gabinetes), acrescentando que nem o FMI nem o BCE deviam integrar a aplicação dos programas. É verdade que Portugal é muito diferente da Grécia. Para bastante melhor. Mas, tal como na Grécia, a dívida portuguesa continua a subir, o crescimento é ténue, o desemprego é alto. E quanto a humilhações, são tantas que a escolha se torna difícil. Quem não se lembra de um senhor do FMI que nos veio dizer que, afinal, se tinham enganado na avaliação do impacte das medidas de ajustamento sobre o emprego, como se fosse um erro sem importância nenhuma. Ontem, Rui Machete resolveu falar em “reparações” que nos são devidas. Não disse reparações de guerra, como os gregos, porque não fomos ocupados pelo exército nazi.

E isso leva-nos à última questão que os acontecimentos na Grécia colocam. Não é de agora, nasceu com a queda do Muro e a globalização. Mas hoje é muito mais evidente, quando nos confrontamos com os resultados desta crise tremenda que se abateu sobre a Europa. Os Syrizas existem porque a social-democracia ainda não conseguiu encontrar uma agenda que faça sentido num tempo em que deixou de poder recorrer aos impostos para garantir uma redistribuição da riqueza mais equitativa e em que a competitividade da economia mundial é muito maior, esmagando os rendimentos da classe média. Mas isso são outros contos a que voltarei.