Seis anos depois, ayatollah Khamenei voltou a escrever a Obama

Presidente norte-americano propôs restabelecimento de relações e cooperação no combate ao Estado Islâmico depois de fechado o acordo sobre o nuclear.

Iranianas com posters de Khamenei no aniversário da Revolução Islâmica
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Iranianas com posters de Khamenei no aniversário da Revolução Islâmica Atta Kenare/AFP

A figura com mais poder no Irão, o Líder Supremo ayatollah Ali Khamenei, escreveu nas últimas semanas a Barack Obama, em resposta a uma proposta do Presidente dos Estados Unidos onde este insistia numa aproximação entre os dois países, sem relações diplomáticas oficiais há mais de 30 anos, sugerindo uma cooperação na luta contra os jihadistas na Síria e no Iraque se for alcançado um acordo sobre o programa nuclear iraniano.

A Casa Branca recusa comentar a existência da missiva, divulgada por The Wall Street Journal, mas um diplomata iraniano ouvido pelo jornal confirma o envio e descreve um texto “respeitoso” mas onde Khamenei não se compromete com as ofertas de Obama, feitas em Outubro.

A notícia sobre esta última carta surge depois da confirmação de uma primeira, e até agora, resposta de Khamenei ao chefe de Estado norte-americano. Semanas depois de tomar posse, Obama escreveu ao Líder Supremo e este respondeu-lhe, enumerando os abusos que considera terem sido cometidos pelos EUA contra os iranianos nos últimos 60 anos, nomeadamente o apoio ao xá Reza Pahlavi e ao regime de Saddam Hussein, durante a guerra Irão-Iraque (1980-88). 

Apesar disso, Khamenei não recusava uma aproximação – isso, e a resposta em si mesma, o primeiro contacto directo desde o congelamento das relações, criou grandes expectativas na Casa Branca. “Ele deixou a porta aberta”, diz um ex-responsável da Administração Obama. “É difícil perceber a importância do Supremo Líder do Irão escrever uma carta aos EUA”, afirma outro. “É um sinal de reconhecimento do país.”

Seguiu-se uma nova carta de Obama, mas no Verão desse ano, 2009, aconteceram as eleições presidenciais que deram o segundo mandato a Mahmoud Ahmadinejad, com Washington e centenas de milhares de iranianos a acusarem o regime de fraude.

Entretanto, a Casa Branca avançou para uma tentativa de acordo sobre o programa nuclear iraniano, que Teerão diz ser civil, mas os EUA acusam de ter como objectivo a construção de bombas nucleares. Ao mesmo tempo, a ameaça dos jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico cresceu, com a conquista de vastos territórios no Iraque, depois da Síria, e os interesses americanos e iranianos coincidem na região. Teerão já estava ao lado do ditador sírio no combate aos radicais (e à oposição) e hoje colabora com os iraquianos, como fazem os norte-americanos, às vezes partilhando as mesmas bases.

Ao longo dos últimos anos, Obama enviou várias cartas a Khamenei. Mas só agora este voltou a responder. E isso acontece depois de as negociações sobre o nuclear terem estado em risco de fracasso, com as partes a acabarem por prolongar as discussões até 2015. Ninguém quis deitar a toalha ao chão e desistir de um acordo que permitirá ultrapassar as suspeitas sobre o programa iraniano e mudar completamente o cenário político no Médio Oriente.

O novo prazo para a assinatura de um documento termina a 30 de Junho, mas Obama quer ver progressos reais e um esboço de um acordo global a 31 de Março. Até lá, no dia 3 de Março, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, vai falar sobre o Irão ao Congresso norte-americano (contra a vontade da Casa Branca), e atacar as conversações de qualquer acordo, o que não vai ajudar os negociadores (EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha).

No início da semana, o Presidente iraniano, Hossan Rohani, e Obama falam em separado sobre o tema. “Nós demos os passos necessários agora cabe à outra parte aproveitar a necessidade”, afirmou Rohani, no aniversário da Revolução Islâmica de 1979. “Não vejo utilidade num novo prolongamento se não houver acordo sobre uma formulação fundamental”, disse Obama. 

A última palavra caberá sempre a Khamenei que, ao estilo iraniano, tem feito declarações contraditórias. “Vou dizer ‘sim’ a um acordo, mas não aprovarei um mau acordo”, disse, há uma semana, depois de ter defendido a construção de 200 mil centrifugadoras para produzir combustível nuclear. E sempre que levanta o tópico, o ayatollah insiste que qualquer acordo tem de implicar o levantamento imediato das sanções ocidentais impostos ao Irão, enquanto os negociadores norte-americanos discutem um desmantelamento faseado que pode levar anos.