O BCE passa à acção, mas todos concordam que não consegue salvar o euro sozinho

Há dois anos e meio, Mario Draghi garantiu que iria fazer tudo para salvar o euro. Esta quinta-feira pode ser o dia em que tem de mostrar que está disposto a cumprir essa promessa.

Draghi, hoje, no Parlamento Europeu
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Mario Draghi explorou novos terrenos nas medidas anunciadas Foto: Vincent Kessler/Reuters

Depois de dois anos a discutir se o Banco Central Europeu (BCE) devia avançar ou não para uma compra de dívida pública, a Europa parece ter já iniciado, na véspera da muito provável concretização da medida, outro debate: será este passo suficiente para salvar a zona euro de uma nova recessão?

O anúncio, de acordo com a aposta da grande maioria dos analistas, deverá ser feito esta quinta-feira por Mario Draghi, na conferência de imprensa que se seguirá à primeira reunião do ano do conselho de governadores do BCE. Vários meios de comunicação social têm vindo a avançar que o banco central se prepara para realizar nos próximos meses uma compra de títulos de dívida pública situada entre 500 mil e 750 mil milhões de euros, com o risco a ser assumido, pelo menos de forma parcial, pelos bancos centrais nacionais dos respectivos países, em vez de ser assumido pela totalidade do eurosistema.

A lutar contra uma inflação que em Dezembro ficou em -0,2% (muito longe portanto do objectivo de próximo de 2%), o BCE pretende, com esta compra de títulos de dívida pública, que os bancos que os vendem usem o dinheiro para ou comprar outros activos nos mercados financeiros ou conceder mais crédito às empresas e famílias. Se o fizerem, o resultado é um aumento do rendimento disponível entre os agentes económicos, o que poderá resultar num maior dinamismo do consumo e do investimento e numa subida da inflação. Além disso, com a injecção de tantos euros na economia, é possível também que o euro perca ainda mais valor face ao dólar, o que pode facilitar a vida às empresas exportadoras europeias e ajudar a subir a inflação por via do agravamento dos preços dos produtos importados. A esta estratégia dá-se o nome de Quantitative Easing (QE), uma política monetária que também foi usada recentemente nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Japão.

Agora que tanto a Reserva Federal como o Banco de Inglaterra já pararam de fazer as suas compras de dívida pública, após terem conseguido atingir os objectivos traçados para o desemprego e a inflação, o BCE entra em cena. São muitos os que temem que Frankfurt não consiga imitar o sucesso de Washington e Londres, caindo antes num cenário idêntico ao do Japão, ainda a lutar contra duas décadas de deflação.

Cedo ou tarde demais?
Os mais pessimistas em relação ao impacto da provável decisão do BCE de comprar dívida pública dividem-se em dois grupos com visões completamente diferentes. Os primeiros acham que a expansão monetária muito pouco faz pela economia, pode criar um problema de inflação no futuro e acaba por desincentivar os governos a adoptarem as políticas mais adequadas para as suas economias e finanças públicas.

É isto que pensam os principais líderes políticos alemães (tanto dentro do BCE como no Governo germânico). Angela Merkel não perdeu a oportunidade, esta segunda-feira, num evento onde também estava presente Mario Draghi, de deixar clara a sua opinião. “Muito rapidamente pode acontecer que as pessoas comecem a pensar que uma política [a do BCE] possa substituir outras [as dos governos]. Isso certamente que não será possível. A pressão para aumentar a competitividade na Europa deve manter-se, caso contrário, nada, e eu quero mesmo dizer nada, nos pode ajudar”, afirmou a chefe do Governo alemão.

No outro grupo, onde por exemplo se encontram os responsáveis do Fundo Monetário Internacional, a convicção é a de que uma política mais expansionista por parte do BCE é, num cenário de risco de deflação, não só útil como também indispensável, havendo antes o receio de que, nesta fase, a medida a ser tomada possa ser tímida e chegar tarde demais.

Há quem levante dúvidas quanto aos montantes que irão ser usados pelo BCE, questione se será definida alguma meta específica até ao final do programa e critique o facto de o banco central poder ceder à Alemanha, deixando o risco ficar nos bancos centrais nacionais, algo que pode retirar eficácia à medida.

Mas mais do que isto, aquilo que mais temem é que, com a inflação já em terreno negativo e com a procura há já vários anos muito abaixo do ponto de equilíbrio, a tarefa que agora é exigida ao BCE possa ser demasiado exigente para os instrumentos de que dispõe.

Uma das grandes dúvidas, por exemplo, é se colocar mais dinheiro nas mãos dos bancos irá mesmo significar mais crédito concedido às empresas e às famílias, algo que não tem vindo a acontecer, apesar das taxas de juro estarem na maior parte dos países a níveis mínimos históricos.

“Com uma economia europeia estagnada, não me parece que haja grandes oportunidades de investimento e, portanto, o resultado desta operação no consumo e investimento, sem estímulos públicos orçamentais, será muito limitado. A experiência do Japão, país onde o QE foi primeiro tentado, é eloquente em relação aos efeitos limitados do programa que serviu sobretudo para manter um sistema bancário semi-falido”, explica o economista Nuno Teles.

Luís Campos e Cunha, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova, também defende estímulos orçamentais para apoiar o BCE, mas de forma prudente. “A acção do BCE pode não ser suficiente, mas é, certamente, necessária. Depende também dos mandantes, naturalmente. Uma política orçamental expansionista por parte de países com níveis baixo de endividamento seria certamente uma boa notícia. Politicas orçamentais expansionistas por parte de países com elevados níveis de dívida pública seria contraproducente. O caso do Japão é ilustrativo”, avisa.

Seja qual for o ponto de vista, depois de tanto tempo a ser pressionado para agir, o BCE prepara-se para tomar a decisão histórica de lançar um plano de compra de dívida pública numa altura em que é consensual que precisa de ser ajudado pelos governos a salvar a economia da zona euro da recessão e deflação.

Uns, como Angela Merkel, defendem que aquilo que os executivos da zona euro precisam de fazer é colocar em marcha reformas estruturais e equilibrar os seus orçamentos. Outros, como o colunista do Financial Times, Martin Wolf, alertam que “a zona euro pode falhar, não por causa de um esbanjamento irresponsável, mas por causa de uma frugalidade patológica”.

Agora, tal como no início da crise, o debate económico na zona euro é o mesmo. A diferença é que o BCE está cada vez mais em modo de emergência.