Opinião

O Keynesiano da Lourinhã

Na cabecinha do Keynesiano da Lourinhã só há duas alternativas possíveis ao nível da política económica: ou cortar à bruta ou gastar à bruta.

Preparem-se: nos próximos tempos vamos assistir a muitas frases do tipo “até Mario Draghi é contra as políticas de austeridade!”, com boa parte da nossa esquerda a querer transformá-lo à força num daqueles keynesianos rupestres que florescem muito em Portugal. Talvez possamos mesmo baptizar a espécie como “Keynesiano da Lourinhã”, na medida em que se trata de uma abordagem jurássica da política económica, em geral reduzida a um único ponto: a solução para todos os problemas é o Estado despejar mais dinheiro sobre a economia, mesmo quando já não existe mais dinheiro para despejar.

Para isso, o Keynesiano da Lourinhã até tem para apresentar uma belíssima citação do discurso de sexta-feira do presidente do Banco Central Europeu em Jackson Hole. Disse Mario Draghi: “Os riscos de ‘fazer de menos’ – ou seja, que o desemprego cíclico se torne estrutural – suplantam os riscos de ‘fazer de mais’ – isto é, que haja um excessivo aumento de salários e pressão nos preços.” Donde, ao ouvir tão bonitas palavras, o Keynesiano da Lourinhã faz aquilo que está ao alcance da sua limitada cabeça, resumindo a coisa assim: “Draghi foi ao Wyoming dizer que é melhor fazermos mais do que menos.” E conclui: “Bute gastar à bruta?”

O principal problema das abordagens jurássicas da economia é serem pouco dadas às subtilezas. Em primeiro lugar, na cabecinha do Keynesiano da Lourinhã só há duas alternativas possíveis ao nível da política económica: ou cortar à bruta ou gastar à bruta. Cortar aqui para poder gastar ali, reformar aqui para poder investir acolá, afasta-nos da lógica “índio-cowboy” e confunde excessivamente os raciocínios. Em segundo lugar, o Keynesiano da Lourinhã acha que, sempre que alguém fala, está a falar com ele. No seu entender, Mario Draghi deu-se ao trabalho de ir aos Estados Unidos só para falar para o Terreiro do Paço.

Não querendo decepcionar excessivamente o Keynesiano da Lourinhã, aconselho-o a procurar ler todo o discurso do presidente do BCE, a começar pelo título: “Desemprego na Euro-Área.” Depois, aconselho-o a avançar para a comparação dos efeitos da crise no desemprego de dois países que nós conhecemos bem – Irlanda e Espanha –, em função da flexibilidade dos respectivos mercados de trabalho. Se não for muito incómodo e excessivo esforço, detenha-se em frases como “enquanto [a flexibilidade do] mercado de trabalho irlandês facilitou algum ajustamento através dos preços, o mercado de trabalho espanhol ajustou-se sobretudo através das quantidades: as empresas foram forçadas a reduzir os custos do trabalho através da redução do emprego”. Não sei se isto ressoa alguma coisa na cabecinha do Keynesiano da Lourinhã, nem, já agora, como é que ele compatibiliza as absolutamente erradas políticas de austeridade e as absolutamente erradas reformas do mercado de trabalho com o facto de o desemprego em Portugal, segundo os últimos números do INE, ter caído abaixo dos 14%. De caminho, aconselho-o a fechar aos olhos à defesa de Draghi das metas do Pacto Orçamental.

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Caro Keynesiano da Lourinhã: o primeiro destinatário das palavras de Mario Draghi é a Alemanha, que é quem conta. É o país que tem as contas equilibradas e o músculo para estimular a economia europeia através do investimento público e de um aumento dos salários. É a ela que se aconselha a diminuição da austeridade, e em momento algum Draghi defende a suspensão das reformas estruturais na Eurozona, sobretudo nos países mais frágeis. É que o mundo não se resume à Lourinhã. Pior: a Lourinhã conta muito pouco para o mundo.