Produtos de Trás-os-Montes entram em força em Angola e Brasil

No mercado angolano, a aposta é uma rede de supermercados, o primeiro dos quais vai abrir em breve em Luanda; no Brasil são 250 padarias portuguesas.

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A Dieta Mediterrânica, caracterizada por sopas, cozidos, guisados e outros é reconhecida pela UNESCO Daniel Rocha

Vinhos, azeites, enchidos, queijos – os produtos de Trás-os-Montes e Alto Douro preparam-se para entrar em força nos mercados de Angola e do Brasil, num projecto de internacionalização impulsionado pela Rota do Azeite. O primeiro passo será a abertura, prevista para Agosto, de um supermercado com a marca PITER (produtos de identidade territorial) em Luanda.

O espaço, explicou ao PÚBLICO Jorge Morais, presidente executivo da Rota do Azeite, incluirá, para além do supermercado onde 90% dos produtos são da região, uma cafetaria, uma agência de viagens e um centro empresarial com gabinete de consultoria nas áreas de contabilidade e serviços jurídicos, que apoiará os empresários que queiram investir em Angola. Tudo possível graças à parceria com um sócio angolano, ligado ao sector do turismo e à área alimentar, que arcou com todo o investimento – 2,5 milhões de euros nesta fase inicial.

A ideia é que a partir daqui surja uma rede destes supermercados em todas as províncias de Angola, e que depois esta se alargue a outros países de África Austral, sempre com o mesmo sócio, com o qual existe um contrato de exclusividade para este alargamento.

Mas se o projecto angolano é o que está mais avançado, muito em breve também o estado de São Paulo, no Brasil, receberá os produtos de Trás-os-Montes e Alto Douro. No caso brasileiro a abordagem foi diferente, afirma Jorge Morais. “O Brasil era para ser o projecto-piloto da nossa estratégia de internacionalização. Mas fomos confrontados com a burocracia brasileira a nível do licenciamento de alguns dos produtos”.

Se o vinho ou o azeite não representam problema, o mesmo não acontece com produtos como os queijos ou os enchidos – e é preciso não esquecer que um dos grandes trunfos da região é, precisamente, a alheira de Mirandela e todos os produtos de fumeiro. Para além do custo de licenciamento de cada rótulo, incomportável para produtores de menor dimensão, há ainda o problema dos prazos longuíssimos necessários para obter esses licenciamentos.

Apesar disso, através de parcerias com empresas importadoras já estabelecidas no Brasil, o projecto vai avançar, e prevê a colocação dos produtos de Trás-os-Montes e Alto Douro em 250 lojas da região de São Paulo. A grande aposta do PITER é a diáspora, e sobretudo a diáspora transmontana. Acontece que o presidente da Associação de Padarias do Estado de São Paulo é um transmontano. “Foi esse o canal que nos permitiu chegar às padarias portuguesas, que são 24 mil. Vamos agora abrir um concurso para, entre estas, escolher 250 que possam funcionar como postos de venda e showrooms”, explica o responsável da Rota do Azeite, sublinhando que existe também uma parceria com um banco português que financiará as padarias interessadas.

O grande objectivo é a promoção dos produtos de Trás-os-Montes e Alto Douro não só nestes dois países, mas noutros que estão a ser estudados. Mas “à boleia” dos produtos transmontanos poderão ir outros, de diferentes regiões. Segundo Jorge Morais, existe já uma parceria com A Poveira, empresa de conservas da Póvoa do Varzim, sendo que a única condição para que as conservas possam fazer parte deste pacote é utilizarem azeite transmontano.

O mesmo acontece com a parceria estabelecida com os fabricantes de chocolate da Casa Grande, que estão neste momento a desenvolver um bombom com o azeite de Trás-os-Montes. Outro produto em estudo é um chocolate com mel do Moxico, Angola, cuja cooperativa é presidida pelo sócio angolano da Rota do Azeite.

Para além dos produtos de maior visibilidade, a Rota do Azeite – que une 15 concelhos da região e integra as Rotas do Douro, juntamente com a do Vinho do Porto e das Vinhas de Cister – vai ainda comercializar em Angola, Brasil e outros futuros mercados, azeitonas, amêndoa e outros frutos secos, cogumelos e ervas aromáticas. Parceira fundamental de todo este processo é a Confraria de Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro, entidade que certifica a qualidade dos produtos, através da atribuição de um selo da Confraria, depois de uma avaliação feita por prova cega.

Para além dos projectos em curso, a PITER está já a preparar a presença em feiras internacionais em 2015, apostando em quatro ou cinco países europeus, e tem entre os seus planos a organização de um festival anual da Alheira de Mirandela em Luanda.

Retalho português em Angola
Há muito que Portugal marca presença no mercado de retalho angolano. O Grupo Teixeira Duarte está no negócio da distribuição alimentar naquele país desde 1996, aproveitando a liberalização do comércio, antes controlado e detido pelo Governo. Através da sua empresa, a CND, detém a grossista Maxi e as lojas Bom Preço.

A Sonae tem em curso um projecto de expansão dos hipermercados Continente, numa parceria com a Condis, de Isabel dos Santos, mas não se compromete com datas de abertura da primeira unidade. Fonte oficial do grupo (dono do PÚBLICO) sublinha que o “projecto Angola está como sempre tem estado até aqui”. “A Sonae e a Condis estão a estudar o mercado e a analisar as oportunidades que têm para desenvolver um projecto de retalho alimentar”, diz a empresa, acrescentando que os parceiros de negócios “estão a envidar esforços para proceder à abertura da primeira unidade o mais breve possível”.

Já a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, não tem presença directa, mas mantém uma parceira com o grupo Score Distribuição, focada no aconselhamento técnico e formação. A Score é dona das lojas Deskontão e, este ano, abriu o primeiro supermercado com a insígnia MEL.