Grandes empresas portuguesas com exposição de 5000 milhões ao GES

Para além da Portugal Telecom também bancos, como o BCP e a CGD, têm créditos junto de empresas da família Espírito Santo.

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Ricardo Salgado apresentou resultados Rui Gaudêncio

Uma eventual insolvência de sociedades ligadas à família Espírito Santo pode contaminar, em graus diferentes, grandes empresas portuguesas, algumas listadas no principal índice da bolsa de Lisboa (PSI 20). Três bancos, a operadora de telecomunicações e duas empresas da economia real concederam empréstimos de cerca de 5000 milhões de euros a negócios de risco do Grupo Espírito Santo (GES).

À medida que o tempo passa, vão-se conhecendo os credores directos e indirectos do GES. Para além do BES (1200 milhões de euros) e da Caixa Geral de Depósitos (CGD), sabe-se que o Banco Comercial Português (este cotado e com um aumento de capital a decorrer) está igualmente exposto ao universo empresarial da família Espírito Santo. Tal como o banco público, o financiamento do BCP é de 300 milhões de euros.

O BCP apoia  os sectores da saúde, do turismo e da construção. Já a CGD deu crédito, por exemplo, à Herdade da Comporta, mas também às holdings (onde se concentram as insuficiências) Espírito Santo International (ESI), que controla a ESFG, esta com 20% do BES. A CGD recebeu em garantia, por exemplo, acções da ESFG/BES e imobiliário. Há cerca de uma semana, a ESFG pediu a suspensão da negociação na bolsa de Lisboa, à espera do plano de reestruturação do GES, isto pelo facto de a ESI (que é accionista da ESFG e controladora do GES) estar a preparar o pedido de insolvência.

De acordo com os dados reportados ao Banco de Portugal, no quadro das inspecções periódicas às suas carteiras de crédito (exercício transversal de revisão da imparidade da carteira de crédito), os empréstimos directos do BCP e da CGD às empresas e holdings do GES têm cobertura de 100%. O BPI garantiu que não tem relação comercial com nenhuma das três holdings do grupo com insuficiências: ESI, ESFG e Rioforte.  

No que respeita ao BES, a divida das holdings e das sociedades do GES vendida aos balcões do banco, só no segmento de clientes particulares, aproxima-se dos 1000 milhões de euros. Nos investidores institucionais, este montante chega aos 2000 milhões de euros, isto se se incluir tanto grandes companhias como pequenas e médias empresas. O BdP já veio garantir que o BES tem “almofadas” para enfrentar eventuais situações de incumprimento.

Mais problemáticas são as emissões de dívida da Rioforte que já pediu a protecção de credores. O caso mais polémico, pela sua expressão (897 milhões) e impacto internacional, é o da Portugal Telecom, em fusão com a brasileira Oi. Não só o valor é relevante como a decisão de financiar a Rioforte foi tomada em Abril quando já se sabia que o grupo tinha problemas. O Expresso Diário deu conta de que o Grupo Amorim comprou também divida da Rioforte. E o mesmo pode ter feito, ainda que “marginalmente”, a Teixeira Duarte, que tem uma forte relação comercial com o BES, nomeadamente, na Venezuela. Todavia fonte oficial da construtora considerou esta informação "não verdadeira" dado que a empresa não tem aplicações nas holdings do GES. 

Sublinhe-se que há cerca de seis meses, o ainda presidente do BES Ricardo Salgado tinha comunicado aos restantes membros da família com assento no Conselho Superior que a divida do GES já era de 7 mil milhões de euros. Uma informação que apanhou alguns de surpresa, nomeadamente, José Maria Ricciardi, que preside ao BESI e que inquiriu o líder do GES. Isto porque as contas oficiais do grupo não reflectiam os números apresentados pelo chefe do clã, o que indiciava que as contas tinham sido manipuladas.

Salgado – que integrava (e integra ainda) as administrações das holdings familiares  justificou-se alegando desconhecer a verdadeira situação empresarial do grupo dado que as contas estavam dispersas e não consolidadas. O responsável remeteu as culpas das falhas para o contabilista Machado da Cruz, mas este veio depois afirmar, por escrito, aos advogados do GES, que Salgado sabia que as contas eram manipuladas desde 2008. Depois disso, o contabilista recebeu uma indemnização que a imprensa tem classificado de “choruda” e instalou-se no Brasil, sem acordo de extradição com Portugal, e onde se tem mantido silencioso.

Para a agência Fitch, numa nota divulgada esta semana, “o impacto imediato dos problemas no GES nos outros bancos portugueses parece contido, por agora". Mas “a incerteza sobre o grupo” deixa ”o sistema bancário vulnerável a uma quebra de confiança”. A Fitch acredita “que o risco directo para os maiores bancos portugueses  – BPI, Santander Totta, Millennium bcp e Caixa Geral de Depósitos – é limitado, já que a exposição total de cada banco ao Grupo Espírito Santo deve ser relativamente gerível."