Opinião

Um erro e uma vergonha

Como um dos primeiros membros do GIS (Grupo de Investigações Sociais), fiquei estarrecido quando soube, por um artigo de uma autoridade, que existiam hoje em Portugal 30.000 sociólogos com licenciatura e, provavelmente, centenas com o mestrado e dezenas com o doutoramento. Fazem eles parte da “geração mais bem preparada de sempre”? O país precisa realmente deles? Aparentemente, 86,6% têm trabalho e 63,8% acham a “formação” que receberam “adequada às tarefas que desempenham”. Mas, como seria de esperar, o Estado é o grande empregador da maioria dos sociólogos, que trabalham na “investigação” (presumo que em “observatórios” disto ou daquilo), na administração pública e na Segurança Social. O sector privado não mostra o menor interesse por eles.

O que se compreende. O Estado criou profissionais que a economia não pedia e depois foi forçado a tapar o buraco, tratando ele de lhes dar um modo de vida. Só que o Estado, além de 30.000 sociólogos, também é com certeza obrigado a prover às necessidades de vários géneros de psicólogos, de politólogos (para quem não perceber: indivíduos licenciados em “Ciências Políticas”), da gente, em expansão, que se dedica à misteriosa disciplina de “Relações Internacionais”, a espécies indescritas de sábios com títulos que a lei reconhece e ao pequeno produto das Faculdades de Letras. O PS, o PSD e o CDS constantemente se gabam desta massa e a consideram a sua melhor obra e a maior riqueza do país. Educaram muitos milhares de inocentes para a inutilidade e, mais tarde ou mais cedo, para o desemprego e, agora, esfregam as mãos de orgulho e deleite.

Não passou pela cabeça de ninguém que, de caminho, também estavam a liquidar a universidade. A universidade educa alunos para uma dúzia de profissões de que uma sociedade moderna, como apesar de tudo a nossa, não pode prescindir. Mas fora isso, deve tomar o maior cuidado em admitir disciplinas que se proclamam novas (e que em geral não são coisa nenhuma) e apertar os critérios de admissão para as disciplinas tradicionais, que exigem uma qualidade superior a quem as pratica com alguma justificação. A mistura de curandeiros (as “ciências” que se dizem “humanas”) e de médicos (as ciências “duras”) só prejudica os médicos, baixa os critérios do ensino e desvaloriza os títulos. A trapalhada que aí anda é um erro e uma vergonha.