O que é uma onda de calor e porque estão as temperaturas tão elevadas em Portugal?

São as temperaturas normais do Verão ou um fenómeno meteorológico extremo? Explicamos aqui o conceito de onda de calor, a sua relação com as alterações climáticas, e deixamos algumas recomendações para lidar com as elevadas temperaturas.

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Não é recomendado sair à rua durante o período mais quente do dia: entre as 11h e as 17h Adriano Miranda

O que é uma onda de calor?

Não se trata de uma figura de estilo. Uma onda de calor é um fenómeno meteorológico que tem uma definição oficial: a Organização Meteorológica Mundial descreve-a como um período de pelo menos seis dias seguidos em que a temperatura máxima diária é superior em 5ºC ao valor médio das máximas diárias no período de referência, como refere o site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Por exemplo, se a média da temperatura máxima em Lisboa para o mês de Julho é de 27,9 ºC, considera-se que há uma onda de calor se forem registados seis ou mais dias com temperaturas máximas superiores a 32,9 ºC. Por estes dias, estamos a falar de valores superiores a 40ºC (que não são inéditos, mas são raros).

Em alguns países, devido às suas especificidades meteorológicas, a definição pode ser ligeiramente diferente em relação ao número de dias e à temperatura mínima a partir da qual se considera haver uma onda de calor.

Só acontecem no Verão? Quais são os seus efeitos?

Uma onda de calor pode acontecer em qualquer altura do ano, mas os seus efeitos são mais perceptíveis no Verão. E, quando falamos em efeitos, podemos estar a falar em algo mais do que um simples desconforto com alguns graus a mais no termómetro: as ondas de calor estão associadas a uma maior mortalidade (sobretudo entre idosos e pessoas mais fragilizadas), a maior risco de incêndios, à perda de colheitas agrícolas e a problemas nas infra-estruturas, sobretudo nos caminhos-de-ferro e na rede de electricidade.

Nem todas as ondas de calor são iguais: algumas duram pouco mais do que cinco dias, outras prolongam-se por semanas; umas são bastante localizadas, outras afectam vários países; umas são quase imperceptíveis e outras têm efeitos muito graves. Em 2003, por exemplo, a grande onda de calor que atingiu praticamente toda a Europa Ocidental durante Junho e Julho causou mais de 70 mil mortes, segundo estimativas das Nações Unidas.

Em Portugal, foram especialmente fortes a onda de calor desse ano e as de 2005, 2010 e 2017 (o ano do incêndio de Pedrógão Grande). A onda de calor que agora sentimos poderá entrar para este lote, para além de agravar o problema da seca num ano já muito quente e seco.

Mas não é normal fazer calor no Verão? Ou isto tem algo a ver com as alterações climáticas?

É normal fazer calor no Verão, no sentido em que as temperaturas médias são mais elevadas do que nas outras estações do ano, e que pode haver alguns dias de calor especialmente intenso.

Também é normal que, de vez em quando, haja períodos de seis ou mais dias com temperaturas máximas superiores em 5ºC ao valor médio das máximas para aquele período do ano. As ondas de calor são eventos que ficam estatisticamente fora dos padrões do clima, mas não são inéditos. São fenómenos extremos, como uma grande tempestade, uma vaga de frio, um nevão ou uma seca, mas que por vezes acontecem.

O que os meteorologistas de todo o mundo têm medido é um aumento do número anual de ondas de calor, bem como da sua intensidade. De resto, é o que está a acontecer com outros fenómenos extremos.

Em Portugal, por exemplo, o IPMA refere que a frequência de ondas de calor aumentou a partir da década de 90. Nos Estados Unidos, a EPA (Agência de Protecção do Ambiente, na sigla inglesa), indica que o número anual de ondas de calor (e estamos a incluir as do Verão e as do Inverno, menos perceptíveis) aumentou de duas nos anos 1960 para seis durante a década de 2010-19. No Reino Unido, o Met Office identifica a mesma tendência e relaciona-a, ao longo do tempo, com o aumento de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre.

Isto não quer dizer que não haja diferentes causas para a ocorrência de uma vaga de calor. Oscilações recorrentes na temperatura da água dos oceanos, como o fenómeno El Niño/La Niña no Oceano Pacífico, causam uma cadeia de eventos meteorológicos em todo o mundo, incluindo temperaturas acima da média em várias regiões. O mesmo acontece com oscilações cíclicas na pressão atmosférica (por cá, é o anticiclone dos Açores que, com as suas movimentações, costuma determinar se temos tempo mais seco ou mais húmido).

A questão é que as alterações climáticas tendem a intensificar estes grandes fenómenos, a alterar estes grandes padrões meteorológicos, e a agravar as suas consequências. Há uma relação muito forte entre o processo histórico de industrialização, o aumento de gases de efeito estufa nas últimas décadas, o aumento da temperatura média da Terra e o aumento de fenómenos meteorológicos extremos como as ondas de calor. Existe um consenso científico praticamente absoluto sobre este assunto: sobre esta tendência de aquecimento geral da atmosfera terrestre, sobre o seu impacto na intensificação dos fenómenos meteorológicos extremos, e sobre a responsabilidade da actividade humana.

O que está na origem desta vaga de calor em Portugal?

As alterações climáticas explicam tendências gerais, não cada fenómeno de forma isolada. Podem é tornar o que se está a passar agora em Portugal (e no resto da Europa) em algo cada vez mais frequente e intenso no futuro.

Mas o que se passa agora, afinal? Há dois fenómenos a agir em simultâneo e que potenciam a passagem de muito quente do Norte de África, do deserto do Sara, directamente para a Europa Ocidental, através da Península Ibérica, como explicou o meteorologista do IPMA Ricardo Deus. O primeiro é a posição do anticiclone dos Açores, actualmente sobre o arquipélago, que se estende em crista para o Golfo da Biscaia, a norte da Península Ibérica. Esta zona de alta pressão atmosférica protege, por assim dizer, a Península Ibérica do ar mais húmido que atravessa o Atlântico, e que deste modo circula muito mais a norte.

Ao mesmo tempo, e este é o segundo factor, há uma série de depressões atmosféricas na zona do Norte de África, habituais nesta altura do ano, que potenciam a circulação de ar muito quente dali para a Península Ibérica. Neste momento, uma dessas zonas de instabilidade atmosférica, particularmente activa, encontra-se a Oeste da Península Ibérica, e está a dar fôlego a esta onda de calor e à transferência de ar quente para norte.

Esta animação partilhada pelo meteorologista Scott Duncan no Twitter ilustra este mecanismo:

Resultado? Temperaturas muito acima da média em Portugal, desde o início de Julho, e que vão manter-se muito elevadas durante mais alguns dias. Podem mesmo cair alguns recordes em zonas como o Vale do Tejo onde, na manhã desta quarta-feira, o IPMA previa uma máxima de 46ºC para Santarém (o recorde nacional absoluto é de 47,3ºC na Amareleja, distrito de Beja, em 2003).

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Esta situação de calor extremo repete-se para já em Espanha e em França. O Reino Unido, a Bélgica, os Países Baixos, o Luxemburgo e partes da Alemanha e de Itália registam também temperaturas acima da média.

O que devemos fazer durante estes dias de calor extremo?

Estas temperaturas muito elevadas, e sobretudo o facto de permanecerem muito elevadas durante vários dias, têm efeitos negativos para a saúde das populações e também para a segurança pública, sobretudo quando falamos do risco agravado de incêndio florestal. Perante isto, vale a pena recuperar este conjunto de recomendações que o Azul compilou:

  • Beber água é fundamental, mesmo quando não se tem sede. Um indicador útil para percebermos se estamos suficientemente hidratados é a cor da urina: quanto mais escura estiver, mais é um sinal de que não estamos a beber água suficiente
  • Atenção especial aos familiares mais idosos, que têm tendência a beber pouca água. É preciso insistir na hidratação. Ao mesmo tempo, convém consultar o médico antes de aumentar o consumo de água em casos de doença renal, cardíaca, do fígado ou epilepsia
  • Evitar bebidas açucaradas e bebidas alcoólicas. Não substituem a água, e aceleram a desidratação
  • Proteger a pele: com protector solar (factor igual ou superior a 30), com roupa e chapéus
  • Evitar a praia (por muito apetecível que seja) e a rua nas horas de maior calor, das 11h às 17h. Deixar os passeios e o exercício para a manhã ou o final do dia
  • Manter a casa fresca: fechar janelas e persianas logo de manhã e voltar a abri-las à noite. Investir em ventoinhas, que são aparelhos mais baratos no momento da compra e no consumo da energia (logo, mais amigos do ambiente) quando comparados com o ar condicionado (mas se tiver ar condicionado, é mesmo tempo de lhe dar uso)
  • Por fim, evitar riscos desnecessários de incêndio: fogueiras, grelhadores, queimadas, máquinas florestais e, claro, fumar em zonas florestais. Está na memória de todos os graves incêndios de 2017 em Portugal, e está também nas nossas mãos prevenir a sua repetição
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