Secas e ciclones na Índia expõem migrantes ao risco de tráfico humano

Crise financeira e climática está a levar indianos a migrar, mas isto expõe centenas de milhares de pessoas a condições de trabalho abusivas ou até mesmo tráfico humano, alerta novo estudo. Investigadores dizem que os desastres climáticos são como “um veneno silencioso” na Índia.

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Jovens descansam à beira-mar numa tarde de muito calor em Bombaim, cidade muito populosa na costa Oeste da Índia EPA/DIVYAKANT SOLANKI

Muitas comunidades na Índia estão a migrar, devido tanto à fragilidade económica do país como a fenómenos meteorológicos extremos. A situação expõe centenas de milhares de pessoas a condições de trabalho abusivas ou, até mesmo, tráfico humano. É o alerta que se faz num novo estudo, cujos autores descrevem desastres climáticos como secas, por exemplo, como um “veneno silencioso” na Índia.

Os investigadores assinalam que, apesar de as alterações climáticas estarem a agravar os níveis de pobreza e desigualdade no país, os decisores políticos raramente olham para a crise ambiental como um factor a ter em conta quando se fala de tráfico humano.

Ritu Bharadwaj, investigadora no Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (IIED, na sigla inglesa) e autora principal do relatório, afirma que desastres cujos efeitos se fazem sentir de forma gradual, como secas, estão a ter um efeito particularmente adverso. Como um “veneno silencioso que se espalha entre as comunidades”, esses desastres estão a passar despercebidos e, como tal, os traficantes estão a ter a possibilidade de explorar pessoas desesperadas, afirma.

O relatório indica que o ano de 2020 foi particularmente extremo para a Índia, que então sofreu a sua pior praga de gafanhotos em décadas, três ciclones, uma onda de calor a nível nacional e, ainda, inundações que mataram centenas de pessoas e obrigaram ao realojamento de milhares. Fenómenos como ciclones e inundações afectaram quase 20 milhões de pessoas na Índia, estimam os autores.

Os investigadores, que estudaram dados do Centro de Monitoramento do Deslocamento Interno, dizem que, só em 2020, 3,9 milhões de pessoas residentes na Índia tiveram de se realojar devido a tais desastres. Prevê-se que, anualmente, cerca de 2,3 milhões de pessoas no país venham a ter de procurar outro sítio onde viver devido a “desastres climáticos repentinos”.

Este ano, a Índia tem-se debatido com fortes ondas de calor em muitas partes do país. E cientistas climáticos prevêem que a situação só piorará no futuro.

Homem indiano tenta refrescar-se num dia quente em Nova Deli, capital da Índia REUTERS/Anushree Fadnavis
Condutor de motociclo atravessa rua inundada após chuvas fortes na cidade indiana de Bangalore em Maio EPA/JAGADEESH NV
Mulher indiana e o seu filho flutuam numa jangada improvisada, feita de madeira de bananeira, no distrito de Nagaon, afectado pelas cheias de Maio deste ano EPA
Homem indiano cobre a cabeça para se proteger de onda de calor HARISH TYAGI
Pessoas dormem debaixo de uma ponte num dia quente em Nova Deli REUTERS/Adnan Abidi
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REUTERS/Anushree Fadnavis

Mais de metade dos inquiridos migrou por causa da crise climática

O estudo abrangeu 420 habitações em 14 aldeias ao largo de Kendrapara, cidade situada no estado de Odisha (onde ciclones e inundações são frequentes), e em Palamu, no estado de Jarcanda (de onde muitas pessoas têm saído devido a secas recorrentes). Os investigadores referen que 76% das pessoas que responderam ao inquérito tinham migrado e mais de metade disse que se realojou porque as alterações climáticas haviam tornado as suas condições de vida especialmente precárias.

Segundo a pesquisa, 42% das pessoas que haviam deixado as suas casas em Palamu devido à seca acabaram por ser vítimas de trabalho forçado ou escravidão por dívida — ou, então, trabalharam num contexto de exploração, com salários em atraso. Em Kendrapara, 16% das pessoas relatam os mesmos problemas.

Ritu Bharadwaj afirma que as autoridades locais tinham em funcionamento boletins de avisos de inundações e ciclones mas não estavam suficientemente preparadas para alertar a população para os efeitos de secas.

A investigadora argumenta que, por norma, os estados indianos esperam até que as secas se tornem severas até declararem a situação um desastre e começarem a providenciar medidas de apoio, o que força mais pessoas a migrar para sobreviver.

O estudo identificou que muitos dos migradores eram homens que trabalhavam no sector agrícola e cuja subsistência foi comprometida por desastres climáticos. Isso deixou-os com pouca margem de manobra para negociar salários ou escolher o tipo de trabalho.

Linha telefónica de apoio

O Governo do estado de Jarcanda criou, a propósito da pandemia de covid-19, uma linha de ajuda para prestar assistência a migrantes que haviam deixado Jarcanda para trabalhar noutros estados. A linha de ajuda respondeu a quase um milhão de chamadas entre Março de 2020 e Abril de 2022, lê-se no estudo.

Num dos casos, as chamadas levaram ao resgate de 21 trabalhadores em regime de servidão no estado de Chatisgar e, noutro, libertou 60 migrantes que estavam a ser mantidos em cativeiro por um agente recrutador no estado de Tamil Nadu. “Os agentes recrutadores são muito activos na zona costeira de Odisha, onde as pessoas estão a ter dificuldade em reconstruir as suas casas e vidas, destruídas por ciclones sucessivos”, diz Umi Daniel, co-autor do estudo.

Tanto Odisha como Jarcanda têm números elevados de casos de tráfico humano. Em ambos os estados há agentes recrutadores activos, que prendem famílias em regimes de servidão por dívida (dão-lhes grandes empréstimos que são pagos na forma de trabalho).

Traficadas para serem empregadas domésticas

Enquanto dezenas de milhares de pessoas em Odisha estão a realizar trabalho forçado em olarias, meninas em Jarcanda estão a ser traficadas para serem empregadas domésticas noutras regiões do país indiano, alegam activistas anti-escravidão.

Johnson Topno, que administra a já referida linha de ajuda do Governo de Jarcanda, disse que as mulheres são mais vulneráveis à ameaça de tráfico humano do que os homens. “A sua segurança é uma grande preocupação e muitas vezes ou seus salários não são pagos”, afirmou num painel em que o relatório foi discutido.

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