Ao fim de 36 anos, PSD perde câmara das Caldas da Rainha para independente

Vítor Marques, que durante dois mandatos foi eleito para a Junta de Freguesia nas listas do PSD, apresentou-se como independente e ganhou em todas as frentes.

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Ao fim de 36 anos, PSD perde câmara das Caldas da Rainha para independente Rui Gaudêncio

Um dos maiores bastiões do PSD (Caldas da Rainha) num dos distritos mais laranjas do país (Leiria) foi derrubado por um independente que concorreu contra com o partido pelo qual foi eleito para a junta de freguesia nos últimos dois mandatos.

Vítor Marques, um empresário caldense que durante oito anos presidiu aos destinos da União de Freguesias de Nª Sra. do Pópulo, Coto e S. Gregório, decidiu formar um movimento independente – Vamos Mudar – e concorrer contra o PSD depois deste partido lhe recusar o segundo lugar nas listas para a câmara.

Rodeando-se de independentes, mas também de destacados militantes e simpatizantes de praticamente todos os partidos políticos, Vítor Marques acabaria por roubar votos à esquerda e à direita e sagrar-se vencedor de umas autárquicas que acabam com 36 anos de domínio do PSD nas Caldas da Rainha.

Curiosamente, o ex-presidente social-democrata Fernando Costa, que durante 27 desses 36 anos esteve à frente dos destinos das Caldas, é um fervoroso apoiante de Vítor Marques, renegando assim o apoio ao seu próprio partido nas autárquicas.

Habitualmente a distribuição dos sete membros do executivo tem sido de cinco para o PSD e dois para o PS (com uma excepção de um mandato em que o CDS conseguiu também um vereador). Desta vez o Vamos Mudar fez jus ao seu nome e o município das Caldas da Rainha deverá passar a ser governado por três elementos do Vamos Mudar, três do PSD e um do PS.

PSD e PS são, assim, os dois grandes derrotados da noite eleitoral. O PS por, pela primeira vez, ficar reduzido a um vereador (Luís Patacho, que concorreu pela segunda vez como cabeça de lista dos socialistas) e Tinta Ferreira, o presidente da câmara há oito anos no poder que não conseguiu o terceiro mandato.

Vítor Marques concorreu com uma equipa heterogénea salientando que tinha apoios à esquerda e à direita, mas evitou cuidadosamente nomes de peso considerados “tóxicos” demasiado ligados a outros partidos. O seu sucesso, porém, deveu-se mais ao seu próprio carisma e simpatia, fruto de dois mandatos caracterizados por uma grande proximidade à população. Isto, apesar de, durante um debate organizado com os sete candidatos à autarquia caldense organizado pela Gazeta das Caldas no passado dia 16 de Setembro, Vítor Marques ter-se revelado o mais apagado de todos.

No PSD, por outro lado, não era líquido que Tinta Ferreira ficasse os quatro anos na câmara caso tivesse ganho as eleições. O candidato socialista, Luís Patacho, acabaria por tornar pública, durante esse debate, uma história que circulava à boca pequena pela cidade: Tinta Ferreira só deveria cumprir dois anos de mandato, devendo ser substituído pelo seu vice, Hugo Oliveira, que se prepararia assim para se apresentar como número um às eleições de 2025. Uma receita que terá sido cozinhada aquando do consulado de Passos Coelho quando Tinta Ferreira e Hugo Oliveira quiseram ambos ser os sucessores de Fernando Costa em 2013.

Apesar de Tinta Ferreira ter negado e avisado que “teria de levar com ele durante quatro anos”, a história já fora contada alto e bom som.

Notícia corrigida às 12h39, do dia 1.10.2021: mudou-se 35 para 36 anos.