Enviado dos EUA para o Haiti demite-se em protesto contra deportações “desumanas”

Dos perto de 15 mil haitianos que chegaram à fronteira nas últimas duas semanas, 1400 foram deportados e 3200 estão sob custódia. Casa Branca estará a ponderar reabrir campo para imigrantes em Guantánamo.

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Campo improvisado pelos imigrantes num parque de estacionamento em Ciudad Acuña, depois da ameaça de deportações ALLISON DINNER/EPA

O enviado especial dos Estados Unidos para o Haiti renunciou ao cargo numa carta divulgada esta quinta-feira onde critica Washington por deportar centenas de imigrantes de um campo de fronteira para o país caribenho mergulhado numa crise profunda.

Desde domingo, os EUA devolveram ao Haiti mais de 1400 pessoas que estavam no campo no Texas, junto à fronteira com o México; na quarta-feira, gerou-se o caos no principal aeroporto do país, depois da chegada de voos que transportavam os deportados.

“Não serei associado à decisão desumana e contraproducente dos Estados Unidos de deportar milhares de refugiados haitianos e imigrantes ilegais”, diz Daniel Foote na missiva dirigida ao secretário de Estado Antony Blinken.

Foote, um diplomata de carreira nomeado em Julho como enviado especial ao Haiti, descreve o país como um “estado em colapso”, incapaz de fazer frente a chegada destas pessoas. O diplomata sublinha que a vida no Haiti está hoje nas mãos de gangues armados, com os responsáveis norte-americanos que ali trabalhavam a viver confinados em complexos.

Estas deportações acontecem dois meses e meio depois do assassínio do Presidente haitiano, Jovenel Moïse, numa altura em que o país já enfrentava uma vaga de violência. Desde então, a instabilidade exacerbada pela violência dos gangues e por um grande terramoto tornaram o quotidiano dos haitianos ainda mais duro, enquanto milhares de pessoas deixaram o país a tentar chegar aos EUA.

Filippo Grandi, chefe da Agência das Nações Unidas para os Refugiados, avisou os EUA que as expulsões para o Haiti podem violar o direito internacional.

Ao mesmo tempo, a ONU tem pressionado Washington por causa do tratamento que está a ser dado aos haitianos que têm atravessado a fronteira para chegar aos EUA.

Há uma semana que milhares de pessoas se amontoam num campo improvisado entre Cidade Acuña, no México, e Del Rio, cidade do Texas junto fronteira mexicana - a maioria são haitianos, mas também ali estão cubanos, peruanos, venezuelanos e nicaraguenses. Chegaram a ser 15 mil, mas o número já baixou quase para metade, entre deportados e detidos.

Segundo o Departamento de Segurança Interna dos EUA, para além dos 1401 haitianos deportados até quarta-feira, as autoridades norte-americanas mantêm outros 3200 sob custódia. Wade Mullen, advogado da organização de direitos humanos Robert F. Kennedy, disse à Reuters que várias centenas de pessoas, a maioria mulheres grávidas e pais com filhos, foram libertadas em Del Rio nos últimos dias.

Durante o fim-de-semana, imagens de guardas fronteiriços a cavalo e a usar rédeas para chicotear os imigrantes em busca de asilo provocaram a indignação de grupos de direitos humanos e da própria Casa Branca. Entretanto, o governador do Texas, o republicano Greg Abbott, decidiu mandar estacionar dezenas de carros na fronteira, criando assim uma barreira física aos haitianos que tentam passar.

Para fazer frente a este aumento de chegadas, a Administração de Joe Biden estará a preparar-se para reabrir um campo de detenção na baía de Guantánamo, escreve o jornal The Guardian. De acordo com o diário britânico, os serviços de imigração dos EUA abriram um concurso para empresas privadas que queiram gerir o Centro de Operações de Migrantes, actualmente desactivado, e que se situa junto ao complexo prisional criado por Washington para os detidos da “guerra ao terrorismo”, onde estão actualmente 39 homens prisioneiros (chegaram a ser 779).

Criado inicialmente para receber requerentes de asilo cubanos, em 1991, pelo campo para imigrantes na base naval que os EUA controlam na baía de Cuba acabaram por passar 30 mil haitianos (a maioria em fuga do seu país depois do derrube do Presidente Jean-Bertrand Aristide) e quase o mesmo número de cubanos. Em 2017, por decisão da Administração de Barack Obama, o campo foi encerrado.