A vida desenha-se a lápis, mas também a caneta

O bater de asas de uma borboleta na China pode provocar um furacão na América, tornando difícil fazer previsões sobre o dia de amanhã. O que nos reservará então o futuro?

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Unsplash/Jess Bailey

No momento em que escrevo este artigo estou a um dia das minhas tão desejadas e apetecidas férias para descansar, carregar baterias e dedicar-me ao ócio e atividades de lazer. Quer sejam mais ou menos planeadas e ativas, as férias são, idealmente, momentos de pausa em que procuramos sintonizar com a nossa essência e com os que nos são queridos. Pausar, descansar, mas também fazer planos para o futuro. O que me conduziu a uma curiosa reflexão sobre o mesmo.

No livro O Futuro de Quase Tudo, da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com coordenação de Margarida Gaspar de Matos, Maria do Céu Machado recorda a manipulação e condicionamento do ser humano descrito nos livros Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell. O primeiro antecipa no futuro novas tecnologias reprodutivas, o segundo prevê o controlo total das pessoas por monitores televisivos. É a utopia e a distopia a falarem por si! Um procurando controlar pelo prazer, outro pela dor! Quão inteiros e livres podemos verdadeiramente ser nas nossas escolhas e opções de vida?

Um outro olhar sobre a vida humana também permite ilustrar que encadeamentos sucessivos e imprevisíveis, intencionais ou não intencionais, podem causar pequenas alterações com capacidade para desencadear fenómenos maiores. Por isso se diz que o bater de asas de uma borboleta na China pode provocar um furacão na América, tornando difícil fazer previsões sobre o dia de amanhã. O que nos reservará então o futuro?

Não obstante ambos os cenários, de controlo e imprevisibilidade, a melhor forma de conseguirmos prevê-lo ainda é construí-lo. O futuro é dos que se preparam para ele no presente. E poderá ser moldado mais pela mágoa ou pela esperança. Cada um saberá, dentro de si, em que grau se mistura a dor e a delícia de ser quem é, em cada momento, nesse equilíbrio entre a alegria e o sofrimento em que acontece a vida.

“No inverno, na doença e na crise, a memória do passado serve-nos de consolo e alívio; mas o que nos salva é um presente transformador e, ipso facto, criador de um futuro promissor” — assim falava o psicanalista António Coimbra de Matos.

Independentemente do momento de vida em que cada um se encontra, o futuro constrói-se hoje! Seja numa fase em que os anos passam a voar e os dias são intermináveis, como diria Virginia Woolf ou num momento em que os dias se sucedem aos pulos, esvaindo-se sofregamente por entre os dedos. Como ocorre essa construção do futuro?

Quem como eu trabalha em contexto escolar está familiarizado com uma questão tantas vezes colocada pelos miúdos quando lhes é pedido para escreverem algo: é a caneta ou a lápis? Dependerá naturalmente das situações. Se é para assinar um trabalho que fizeram, convém utilizarem uma caneta; mas, para fazer um plano de estudo, será melhor usarem um lápis. Costumo dizer, nesses momentos, que não somos robôs para conseguirmos planear, ao milímetro, as nossas vidas e que, além disso, teremos sempre de lidar com a imprevisibilidade do dia a dia. E que também seria um grande aborrecimento se assim não fosse.

O escritor e futurista Alvin Toffler abordava o analfabetismo funcional deste século: “os analfabetos do século XXI serão, não aqueles que não sabem ler, nem escrever, mas sim os que não conseguem aprender, desaprender e reaprender”. A vida desenha-se a lápis! Algumas vezes só de carvão, muitas vezes, espera-se, de cor. Para que possa ser ajustada em cada momento e assim escapar ao sofá do dia a dia que é a nossa zona de conforto. A vida desenha-se a caneta! Para que possa ser um abrigo e assim fugir ao baldio de circunstâncias e indefinições e perder-se no novelo dos dias. Ambas as visões podem coexistir, sem entrar em contradição. Ambas são necessárias para projetarmos o nosso futuro!

Na soma dos dias que passam e aproveitando, quando possível, para subtrair ao trabalho as pausas para feriar que a vida nos oferece, é bom lembrar que a construção do futuro está ao nosso alcance, multiplicando o sonho de um caminho feito de esperança, para que a vida não termine numa divisão de resto zero.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990