Alvin Toffler (1928-2016): o autor que escreveu sobre o futuro

O futurólogo que queria ser poeta morreu aos 87 anos. As suas ideias sobre a transformação da sociedade, descritas em livros como Choque do Futuro e A Terceira Vaga, tornaram-no num pensador reconhecido.

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Alvin Toffler em 2009, nos EUA Phil McCarten/Reuters
Alvin Toffler, fotografado em 2000, em Aveiro
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Alvin Toffler fotografado em 2000, em Aveiro Mário Marques/arquivo

Não é preciso acertar sempre para se ganhar fama como futurólogo. Foi o que aconteceu com Alvin Toffler, o afamado pensador norte-americano, que publicou em 1970 o Choque do Futuro. O livro viria a tornar-se um best-seller e o primeiro de uma série em que o autor (em parceria com a mulher) anteviu a revolução das tecnologias de informação, incluindo o impacto dos computadores pessoais e da Internet, e antecipou várias outras transformações estruturais da sociedade, como o enfraquecimento da família tradicional, a importância da biotecnologia e a possibilidade de trabalho à distância. Morreu na segunda-feira, com 87 anos, na sua casa em Los Angeles, nos EUA.

Inevitavelmente, os Toffler falharam algumas previsões. A ideia de cidades subaquáticas é apenas ficção e as colónias espaciais estão muito longe de se concretizarem (os americanos chegaram à Lua em 1969, o mesmo ano em que inventaram a Internet, mas foi o feito menos celebrado na altura que acabou por ser mais relevante nas décadas seguintes). As roupas de papel e descartáveis também não se materializaram - mas, como afirmou Heidi, a mulher de Alvin, durante uma sessão de aniversário do livro há alguns anos, a ideia era descrever uma sociedade em que cada vez mais objectos são simplesmente deitados fora.

Em Choque do Futuro, Toffler argumenta que transformações sociais e económicas estão a acontecer a um ritmo que faz com que seja difícil para as pessoas acompanharem a mudança. Em A Terceira Vaga, lançado em 1980 e uma outra suas obras mais populares (e que teve mais influência em Portugal), o autor descreve uma sociedade pós-industrial, em que há uma maior flexibilidade laboral, a economia do conhecimento ganha importância e a produção em massa e padronizada é substituída por uma maior adequação dos produtos às preferências de cada consumidor.

Apesar da reputação que conquistaram ao longo de décadas, o trabalho do casal não está isento de críticas, nomeadamente pela tendência para recorrerem ao tipo de jargão e neologismos que pulula no mundo dos gurus de gestão. No jornal norte-americano The Washington Post, uma crítica ácida ao livro A Revolução da Riqueza, de 2006, afirmava que “os Tofflers são bons a atirar ideias à parede e ver quais as que colam: um cartão de crédito para quem está de dieta que não funciona na [cadeia de fast food] Taco Bell, análises à urina de cada vez que usamos a casa de banho ou uma vacina da hepatite administrada através de bananas geneticamente modificadas”.

O apetite voraz para pensar no futuro não fez necessariamente de Alvin Toffler um entusiasta de todas as novas tecnologias. Em 2008, numa entrevista ao PÚBLICO (em que os temas foram da biotecnologia aos mundos virtuais do hoje esquecido Second Life), Toffler expressou o desagrado pela leitura num ecrã e a preferência pelos jornais tradicionais. “Enquanto alguém que adora a imprensa e que fica coberto de tinta preta todos os dias ao pequeno-almoço, e que escreveu para jornais, acho triste que a imprensa vai de facto…”, afirmou então, antes de ser interrompido pela mulher. “Nós não concebemos comprar uma máquina para onde possamos descarregar as notícias. Ainda gostamos de jornais. Somos da geração errada, não lemos notícias na Internet.”

Nós, os Toffler

Alvin Toffler nasceu a 4 de Outubro de 1928, em Nova Iorque. Filho de emigrantes polacos, cresceu na zona de Brooklin, com a irmã mais nova. O pai era comerciante de peles e foram os tios – um editor e uma poetisa, que viviam na mesma casa que os Toffler –, que fizeram com que um muito jovem Alvin quisesse escritor. “Eles eram intelectuais da era da [Grande] Depressão e estavam sempre a falar de ideias entusiasmantes”, recordou Toffler, numa entrevista dada há dez anos ao The New York Times para o obituário que o jornal agora publicou. Aos sete anos, pouco depois de ter aprendido a ler e escrever, Alvin começou a escrever poemas e ficção – dois géneros para os quais, haveria de descobrir mais tarde por entre várias tentativas de escrita, não tinha vocação.

Em 1946, Toffler entrou na Universidade de Nova Iorque, para estudar inglês. Tinha menos interesse pelas aulas do que pelo activismo político, contou àquele jornal. Uma das causas que defendia então eram os direitos da população negra nos EUA. Dois anos mais tarde, conheceu Adelaide Elizabeth Farrell (também conhecida por Heidi e “uma loira deslumbrante”, nas palavras de Toffler). Viriam a casar-se em 1950.

A mulher foi fundamental para a obra Toffler. Trabalhou com eles nos livros e, embora as primeiras obras, que o notabilizaram como grande pensador, tenham sido assinadas apenas por ele, mais tarde o autor divulgou que se tratava de um trabalho conjunto. Nas obras mais recentes, Já surge o nome de Heidi e esta é apresentada como sendo co-autora dos livros anteriores. “‘Nós’ não é o habitual plural majestático dos autores”, explicou Toffler numa entrevista televisiva há vários anos. “‘Nós’ é, na verdade, duas pessoas. E a outra pessoa é a minha mulher.”

A influência de Heidi começou, porém, muito antes da escrita do primeiro livro. Foi ela que o convenceu a terminar o curso e decidiram depois mudar-se para a cidade industrial de Cleveland. Alvin queria – à semelhança de escritores que admirava, como Jack London e John Steinbeck – ter experiências antes de começar a escrever. Cada um arranjou emprego numa fábrica e começaram a reflectir sobre a produção em massa.

Toffler trabalhou alguns anos como soldador e reparador de máquinas. Em 1954, tiveram uma filha (a única do casal, morreu em 2000) e o então operário, percebendo que não conseguia escrever boa ficção ou poesia, decidiu avançar para outra forma de escrita. Arranjou emprego a escrever para uma revista especializada em soldadura. Pouco depois, foi contratado como repórter num jornal de distribuição nacional editado por um sindicato de tipógrafos e daí seguiu para um jornal diário. Em 1959 deu o salto para uma publicação de renome e tornou-se o editor para assuntos laborais e colunista da revista Fortune, em Nova Iorque. Esteve na Fortune cerca de três anos, antes de sair para se tornar um escritor freelancer para revistas e outras publicações.

Em 1960 foi contratado pela IBM para escrever um artigo sobre o impacto a longo prazo dos computadores. Na altura, estas máquinas existiam apenas em ambiente académico e empresarial e a era dos computadores pessoais estava a duas décadas de distância. Toffler, no entanto, era ecléctico nos temas que abordava. Um dos seus conhecidos trabalhos enquanto freelancer naquela altura é a entrevista ao escritor russo Vladimir Nabokov, autor de Lolita. Foi publicada em Janeiro de 1964, na revista Playboy.

No final daquele ano publicou o seu primeiro livro, que reflecte sobre a produção e o consumo de cultura nos EUA, numa altura em que a economia do país estava em crescimento e uma fatia considerável da população tinha satisfeitas as necessidades materiais básicas.

Com o sucesso de Choque do Futuro, em 1970, os Tofflers dão um novo passo na carreira de pensadores e haveriam de lançar vários livros nas décadas seguintes. Em 1996, já com uma grande reputação, especialmente entre gestores, criam a Toffler Associates, uma empresa de consultoria.

Ao longo de meio século de trabalho, o casal caracterizou-se por previsões frequentemente audazes. De entre as que (ainda) não aconteceram, há uma da qual Alvin Toffler parecia não abdicar. Numa outra entrevista ao PÚBLICO, em 2000, falava com entusiasmo da exploração espacial. “Penso que a revolução da informação é o primeiro passo de uma transformação que terminará quando a revolução da informação e a da genética se fundirem completamente. Depois disso, o desafio será irmos para o espaço. E isto é uma declaração romântica, que não posso provar. Acredito que esse é o nosso destino, mas é uma questão de fé na ciência.”