A propósito de exames: Carta Aberta aos “Mários Nogueiras” que representam os professores

Como podem os sindicatos ficar calados? Percorramos os seus websites, ou o da Fenprof e, mistério dos mistérios, nem uma palavra de respeito pelos alunos que se viram a fazer exames com erros ou gralhas. É o pleno exercício da revindicação egocentrada o que se encontra. Pouco mais.

“Empunhando as rijas férulas
Vós esmagais e partis
As crianças – essas pérolas
Na escola – esse almofariz

Isto escolas!... Que indecência!
Escolas, esta farsada
São açougues de inocência
São talhos de anjos, mais nada!”

A Escola Portuguesa, Guerra Junqueiro, 1879

Cresci numa escola, os Pupilos do Exército, herdeira de uma solida ética republicana onde a figura do professor era central. Figura tutelar, mestre, modelo, a retidão e a justiça eram a marca fundante que construía essa posição simbólica. Os Professores eram quem organizava a cosmovisão dos jovens em torno desses valores. Tivéssemos boa ou má nota, ela era justa, merecida. Professor significava justiça no léxico dos jovens alunos.

Hoje, os alunos apresentam um sentimento de injustiça, de arbitrariedade que os lança para um stresse excessivo, traumatizante e, sobretudo, destruidor do respeito que a escola e o ensino deveriam ter. A escola, tal como lhes é apresentada, não merece a sua admiração nem almeja a ser modelo. Os programas estão desajustados; as aprendizagens são, mais que deviam, más; as avaliações e, agora, os exames, são um exercício onde o acaso e a sorte passaram a ter um peso significativo – ilustrando um mal que se generalizou e chegou aos exames, fazem-se testes, em parte ou até na sua totalidade, com perguntas de escolha múltipla (como, por exemplo, em Filosofia, como se em Filosofia isso fosse razoável!), apenas pensando na facilidade em corrigir os testes.

Este ano, juntando ao quadro pandémico em que muitos alunos não tiveram o acompanhamento docente que deveriam ter, há que juntar a longa lista de anomalias nos exames. O rol de falhas nos exames foi geral: de gralhas a erros, passando por temas completamente inesperados que nem foram dados a parte dos alunos porque eram opcionais, estes exames como que mostram uma realidade fora do mundo, contra os seus alunos que, de forma displicente, são hostilizados sobranceiramente ao, por exemplo, ser enviada uma errata a meio de um exame, como sucedeu com Geometria Descritiva

Com equipas, com profissionais, com tempo e com meios, como é possível um exame ser visto, revisto, policopiado e distribuído com erros? E não, a culpa não é do Governo nem do ministro e dos secretários de Estado.

Não, não se pedem as famosas culpas políticas. É fácil pedir recorrentemente a cabeça de um ministro, mas a responsabilidade objetiva é de quem? Num sistema que aparenta ser totalmente opaco, apareçam as pessoas que fizeram estes exames.

Como podem os sindicatos ficar calados? Percorramos os seus websites, ou o da Fenprof e, mistério dos mistérios, nem uma palavra de respeito pelos alunos que se viram a fazer exames com erros ou gralhas. É o pleno exercício da revindicação egocentrada o que se encontra. Pouco mais.

Sr. Dr. Mário Nogueira, falta muito para voltar a credibilizar esta nobre profissão. Tem agora o especial momento para mostrar aos larguíssimos milhares de pais que os sindicatos se preocupam de forma lata com o ensino, com os jovens; que estes não são apenas números para reivindicações, mas são seres humanos com rosto e dignidade.

Infelizmente, não será agora que isso irá acontecer, com dirigentes burgueses, profissionais da reclamação, que só encaram a profissão docente no quadro da gestão política partidária, mantendo-a refém de esquemas de poder ultrapassados, anacrónicos.

Nos sindicatos, nas comissões e grupos de trabalho, a profissão tem sido representada por quem se perpetua nos famosos “horários zero”, sem dar uma aula em dezenas de anos de serviço sindical.

O descrédito só tem por onde continuar.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico