Neste Dia da Criança, é com Legos que se monta a inclusão — peça a peça

Chamam-se Lego Braille Bricks e foram pensados para que crianças e jovens com e sem deficiência visual possam brincar em conjunto. Uma brincadeira que serve para “desconstruir mitos”.

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Jogo de tabuleiro
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É Dia da Criança e o sol parece tímido. Mas nem as nuvens que ameaçam uma chuvinha parecem lançar a sombra sobre o Centro Helen Keller, em Lisboa, onde acabaram de chegar uns novos e inovadores Legos que podem fazer a diferença no dia-a-dia de uma escola que integra alunos com e sem deficiência visual. É que, com os Lego Braille Bricks, crianças sem quaisquer problemas de visão e deficientes visuais podem brincar juntas. Como dois irmãos, uma rapariga que vê bem e um rapaz com visão reduzida, que escrevem palavras em conjunto com estes tijolos de brincar, lançados no âmbito de uma colaboração entre a Fundação Lego e a Acapo – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.

O lançamento une as clássicas peças de Lego coloridas ao Sistema Braille, oficializado em 2017 como o sistema de leitura e escrita das pessoas com deficiência visual em Portugal. Num total de 340 peças, abrange-se o alfabeto, os números de 0 a 9, símbolos matemáticos e sinais de pontuação. Tudo, sempre a pensar em aliar a vertente lúdica ao processo de aprendizagem. Mais: também estão presentes, desenhadas a tinta, as letras do alfabeto, os números ou os símbolos correspondentes aos pontos em relevo. Desta forma, tal como os dois irmãos, quaisquer crianças e jovens, com e sem deficiência visual, podem usufruir destes brinquedos em simultâneo, promovendo a interacção. 

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Daniel Rocha

“Com este tipo de brincadeiras aquilo que se faz é desconstruir mitos”, sublinha Ana Sofia Antunes, que, em 2015, se tornou a primeira secretária de Estado cega, assumindo a pasta da Inclusão das Pessoas com Deficiência, sob a alçada do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, presente na instituição, nesta terça-feira.

O presidente da direcção nacional da Acapo, Rodrigo Santos, concorda: “Ao permitir que as crianças, desde tenra idade, mesmo sem qualquer tipo de deficiência visual, contactem com o Braille, com umas peças que têm as mesmas letras que elas estão a aprender, o Braille vai ficar retido na sua memória e vai deixar de ser algo estranho, que nunca viram, e passa a ser algo que percebem e que compreendem o que é.”

Assim, além de estimularem capacidades como o sentido do tacto e a motricidade fina das crianças e jovens com deficiência visual, promovendo simultaneamente a aprendizagem, estes Legos permitirão ainda difundir o Braille, contribuindo para a sua aceitação global, algo que Rodrigo Santos vê como extremamente necessário. “Há um longo caminho a trilhar”, avalia, em declarações ao PÚBLICO. “A formação de Braille é, em muitos casos, extremamente lacunar; é uma matéria que tem de ser efectivamente trabalhada, desde logo na própria formação de qualquer professor.” Por isso, acredita que, independentemente da especialização de quem ensina, todos devem ter “as noções básicas do que é o Braille, para que serve e como é que é utilizado”. Ainda assim, segundo Ana Sofia Antunes, Portugal tem “níveis incomparáveis de inclusão das crianças com deficiência [visual] nas escolas regulares”, com uma taxa de 98%.

As novas peças de Lego inclusivas, destinadas a uma ampla faixa etária, entre os 4 e os 18 anos, serão distribuídas pelas várias escolas e instituições de ensino — com já 50 previstas —, depois destas receberem formação da Acapo. “A nossa grande meta é conseguir que a Lego comercialize este jogo”, explica Graça Gerardo, formadora para a Lego Braille Bricks. “Era importante que o jogo pudesse ser comercializado para [as crianças e jovens] também socializarem lá em casa, com irmãos, com outras pessoas da família, que não fosse só uma coisa da escola”, justifica.

Afinal, como sublinha a directora pedagógica do Centro Helen Keller, Ana Lúcia Pelarigo, esta é uma iniciativa “não específica para os que vêem ou não vêem, mas para todos”, pelo que “promove a verdadeira inclusão, não apenas a integração”.

A data e estabelecimento escolhidos para o seu lançamento foram também eles simbólicos. Neste dia, há 53 anos, morreu Helen Keller, escritora e activista social norte-americana que se tornou a primeira pessoa cega e surda na história a completar um bacharelato.


Texto editado por Carla B. Ribeiro