Os bivalves estão em bom estado e recomendam-se

É um caso raro nas pescas em Portugal. Podemos comer diferentes espécies de amêijoas, longueirão ou ostras à vontade porque desde os anos 1980 se produz ciência para a gestão, monitorização e captura destes recursos marinhos.

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A entidade responsável pela gestão dos bivalves em Portugal é o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), através do Departamento do Mar e dos Recursos Marinhos. E, aqui, quem se dedica a esta pescaria, em especial no que diz respeito à pesca no oceano, é Miguel Gaspar, que garante à Fugas “que o estado dos stocks de moluscos bivalves é bom em virtude de o esforço de pesca se encontrar adaptado ao estado de conservação dos recursos e em virtude da gestão da pescaria ser dinâmica e por área de pesca”.

Tal acontece porque, segundo o investigador, diferentes factores caminham juntos: “A produção de elevada informação científica que se iniciou no final dos anos de 1980; o desenvolvimento de artes de pesca mais selectivas e eficientes; a monitorização regular dos bancos de bivalves na costa continental e o uso de tecnologias de informação e comunicação na gestão da pescaria.”

Convém registar que, em Portugal, existem 35 zonas de produção de bivalves: 26 delimitadas em áreas estuarinas/lagunares e nove ao longo do litoral oceânico, das quais duas se encontram subdivididas. Como poderemos ver na infografia, há bivalves que só crescem no mar (conquilha ou amêijoa-branca), outros que só vivem em zonas lagunares (amêijoa-boa) e outros, poucos, que existem nos dois ambientes (longueirão/navalha).  

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A arte da ganchorra

As 83 embarcações licenciadas para a pesca dos bivalves no oceano utilizam a chamada arte da ganchorra, que, grosso modo, dedica-se à captura de amêijoa-branca, conquilha, longueirão, pé-de-burrinho e ameijola, sendo que no Norte do país a pesca é maioritariamente direccionada para a amêijoa-branca.

Embora seja uma técnica de arrasto (de má fama noutras pescarias), as ganchorras usadas em Portugal foram desenvolvidas pelo IPMA, em parceria com a frota de Setúbal, e tiveram por objectivo aumentar a selectividade (reduzindo a retenção de juvenis das espécies-alvo), aumentar a eficiência (capturar mais por área arrastada) e diminuir o grau de danos nas capturas acessórias.

Estas novas artes acabaram por diminuir a área marinha arrastada e, consequentemente, o tempo de pesca e os custos de operação.

Ao largo de Setúbal e a bordo da Flor da Felicidade, com o mestre Edgar Parreira e os tripulantes Ricardo Nunes e Luís Pedro, a Fugas pôde, durante 12 horas, observar como funciona a técnica da ganchorra para a amêijoa-branca (cada espécie tem a sua ganchorra). Na prática, trata-se de uma grelha mecânica ligada por uma espécie de fole que tem na sua base um pente de dentes metálicos que, no fundo oceânico, penetra nos sedimentos e arrasta para o interior da tal grelha os bivalves que encontra.

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A bordo da Flor da Felicidade só ficam amêijoas que estão de acordo com a lei. Tudo o resto é devolvido ao mar, seja exemplares de pequena dimensão, sejam outras espécies eventualmente capturadas.

Além de a estrutura da ganchorra impedir a captura de juvenis e espécies acessórias, quando a arte já está na embarcação, com o resultado do arrasto, dá-se início a um processo de triagem em três fases, o que significa que só ficam no barco exemplares da espécie que estão de acordo com a lei. Tudo o resto é devolvido ao mar, seja amêijoa de pequena dimensão, sejam outras espécies eventualmente capturadas. 

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Na ilha da Culatra, são recolhidas sementes de amêijoa nos bancos da ria Formosa, para serem depois criadas nos viveiros das famílias locais.

Não se pode dizer que esta seja uma pescaria entusiasmante, quer pela forma de captura, quer pela demora entre cada lance (uma hora), mas, na sua base, tem, questões científicas à parte, uma cultura empresarial muito bem organizada. Além de cada uma das três zonas de pesca oceânica para os bivalves ter quotas definidas anualmente – e em função do controlo dos recursos por parte dos investigadores do IPMA , os barcos só vão ao mar quando existem encomendas, coisa que não acontece na maioria das pescarias. “Nós não vamos pescar para, em terra, ver se há compradores. É ao contrário. Só vamos ao mar pescar aquilo que nos encomendaram. E com preço já definido”, diz-nos Carlos Pratas, director-geral da Bivalmar, a organização de pescadores da arte da ganchorra de Setúbal, que, com 20 embarcações, facturou cerca de 2,5 milhões de euros em 2020. No dia da saída do Flor da Felicidade foram capturados cerca de 400 quilos de amêijoa-branca.

Este método de organização não é um detalhe. Pelo contrário. Evita a destruição de recursos (só apanha o que vai ser consumido), impede a fuga à lota, permite o controlo dos bancos naturais e dá garantia aos pescadores de rendimentos constantes.

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Monitorização em tempo real

A cereja no cimo do bolo é a sala de monitorização da pescaria dos bivalves que está instalada em Olhão. Em tempo real, os investigadores do IPMA sabem que barcos estão a pescar, de Matosinhos ao Algarve, e o que estão a pescar. Tais registos são informação preciosa para as tomadas de decisão a diferentes níveis sobre o estado dos recursos. “Se, por exemplo, vemos que as embarcações não estão a pescar num determinado banco, isto é um alerta para tentarmos perceber o que se está a passar”, refere o biólogo Miguel Gaspar, para rematar que a informação em tempo real é fundamental para a gestão da pesca, para a protecção dos habitat e para os rendimentos dos pescadores.

Este nível de tecnologia de informação aplicado às pescas impressiona. Só nos distraímos quando vemos, num dos ecrãs, a imaginação dos portugueses para baptizar barcos. Até amanhã camaradas, Deus não dorme, Como Deus quiser ou Direito à paz.