Em defesa da aula (presencial)

Chamar “aula” à instrução remota “online” é totalmente fora de lugar, uma impostura intelectual que não pode mais voltar a ter lugar na pós-pandemia.

Este ano os jornais canadianos estamparam, sem dó, a manchete: “Universidade usa um professor morto para dar aula online”. O invulgar deu então lugar ao insólito. Aaron Ansuini, estudante da Concordia University em Montreal, teve uma descoberta chocante: a de que o seu professor de história da arte não mais estava vivo (!). Depois de assistir a uma conferência digital do Prof. Dr. François-Marc Gagnon, o estudante foi procurar o seu e-mail para lhe colocar uma questão e, ao aceder à página institucional, descobriu o obituário: “Gagnon (1935-2019) – um grande educador”. Poderia ser fake news, mas não é.

Por onde começar? O que fazer?

O cerco à educação escolar e à formação universitária aumentou muito no último período. Os municípios inundam escolas de iPads; enquanto as universidades amontoam plataformas digitais. Ao mesmo tempo não houve política pública de incentivo à carreira de ensino e investigação minimamente correlata ao investimento em maquinaria didática. Como inverter esta infeliz primazia do trabalho morto sobre o trabalho vivo na educação?

A Casa Real Espanhola anunciou que a herdeira Leonor, 15 anos, vai estudar num colégio integral de excelência no País de Gales, onde “o programa académico dura dois anos letivos (2021-2022 e 2022-2023), com disciplinas de ciências e letras, e fica completo com um curso interdisciplinar comum, sobre teoria do conhecimento e uma monografia de caráter investigativo”. “Também participará”, prosseguem, “num programa especial para a criatividade – com formação em teatro, música, arte, desporto, e serviço à comunidade”.

Do currículo real consta, ainda, “a aquisição de conhecimentos de manutenção de costas e bosques, controlo de índices de contaminação do meio ambiente e recuperação de espécies animais”. De manhã aulas magistrais e estudo clássico, à tarde socialização e trabalho criativo. Como comparar com a distopia digital que coloca a grande parte dos estudantes hoje – de oito a dez horas –, mesmo antes da pandemia, presos aos ecrãs e tablets?

A resposta, muito infelizmente, é bastante óbvia. Leonor pertence aos dominantes e dirigentes, os outros aos subalternos e dirigidos. O futuro do trabalho anunciado aos quatro ventos não passa de um novo mundo automatizado, ainda mais digitalizado, em que o conflito de classes também se expressa desta forma: uns dominam os fundamentos da conceção do saber, da ciência e da arte; os outros, a grande maioria da população, rudimentos de tecnologia, consumo de diversão ou a mera execução do fazer. Inevitável?

Os alunos hoje estão por todos os lados pressionados justamente a serem passivos (TV, redes sociais, jogos de computador etc.). Chegam à sala de aula já hiperestimulados, em multitask, com dificuldades de concentração. A aula deve ser para aprender conteúdos valiosos, pausa de reflexão filosófica mas, também, um exercício democrático, no sentido de recriar espaços de liberdade – propícios para a interrogação sobre si, o outro, o mundo.

Como fazer isso? Como realinhar uma tal disposição? Este é o nosso atual desafio.

O “professor mediador”, e as “metodologias ativas”, as quais não transmitem as formas sociais de conhecimento aos alunos, são uma espécie de pensamento único no que se refere a conceções de educação na escola. Os docentes que, supostamente, não “massacrariam” a personalidade de seus aprendizes com os seus conteúdos curriculares; que, alegadamente, não seriam o “centro” de todo o nexo educativo (o qual deveria ser, sempre, o aluno), aqueles que, em vez da lecionação e suas respostas, deixariam reflexões e perguntas, seriam catalisadores da autonomia intelectual para que então os próprios estudantes – enfim, empoderados pelo “aprender a aprender” – autoconstruíssem os seus próprios saberes particulares. A pretensa crítica à “educação tradicional” adquiriu status de razão de Estado com palavras-chave tais como: “flexibilidade curricular”, “perfil do aluno”, “aprendizagem essencial”. A aparência de verniz progressivo oculta sua face real.

A ideia deste artigo é defender uma forma específica do ato de ensinar fundante. Assim como o locus icénico do cientista da natureza é o seu laboratório, o habitat natural clássico do professor de humanidades é a sala de aula. A guerra declarada contra a aula parte de uma caricatura: de um lado haveria um modelo “sage-on-the-stage”, arcaico e, de outro, o progresso técnico dos laboratórios digitais e o evolver, moderno, das forças produtivas via instrução remota online ao serviço das chamadas aulas reversas interativas ou baseadas em projetos ativos, quando muito, caso reste ainda algum papel docente, seria o de um mero “guide-on-the-side”. A verdade é que a aula persiste um portentoso instrumental de comunicação de experiências e ativação simbólica do processo de ensino-aprendizagem para estar-juntos. O que dizem os críticos? A estrutura hierárquica, não-flexível e diretiva – da palestra – não se adaptaria ao novo mundo global, dinâmico e de multitudinários recursos. Mas será tão mau para mestres e alunos realmente existentes?

Nas aulas não se projetam os saberes diretamente das bocas dos professores para as mentes dos alunos – essa ideia é falsa, tosca e algo exacerbada pela frase problemática “debitar conteúdo”, e já foi de há muito criticada por Paulo Freire, qual “educação bancária”. Embora os professores possuam informações que, no início de uma aula, são inéditas aos alunos, não se trata tanto do débito de conteúdos. Muito pelo contrário. A aula exige-nos a comunicação direta de conhecimentos especializados por meio de arguição em tempo real. A contrapelo da noção de débito – o desafio é mais o retirar do que o colocar. Subtrair-se ao aleatório dispersivo da estrutura da vida quotidiana, do imediatismo da aparência empírica, de automatismos ideo-políticos e material-sensíveis que entorpecem, a diário, cada vez mais, aos nossos discernimentos e sensibilidades. Sobretudo em grande recusa aos despotismos do mercado ou às tiranias do Estado central. Na sala de aula instaura-se um novo tempo-espaço distinto ao espaço-tempo habitual. Um convite à meditação, exame lento, suspensão às adesões impulsivas – à desnaturalização.

O espaço-tempo da aula reconfigura os mapas afetivos e as coordenadas cognitivas, rearranja expectativas, mitiga exaltações, concentra a atenção dirigida, mobiliza a memória volitiva e estimula todos os processos especificamente humanos ou de nexo psico-físico superior. A aula, quando realmente ocorre, é uma autêntica arte do encontro de ordem muito antiga. Tem a ver com o sentido de pertença, partícipe da conversação altiva, do velho contar de histórias e até do sermão. O ensino depende desta arte ancestral.

É o locus da aula que pode viabilizar tal encontro porque, para além de métodos e temas, ensinar e aprender só são possíveis graças à experiência comum da sociabilidade humana: das posturas, dos afetos, dos gestos e dos intelectos de pessoas inteiramente envolvidas. Trata-se de um exercício performativo – de cultura e civilidade vivas – o próprio gestus educativo e sua dramaticidade envolvida, uma dialética ininterrupta entre distanciamento e proximidade, de partidas ou chegadas, de começos e de fins. Mais do que programas, como letra-morta, syllabi ou corpora, são percursos ou travessias que estão envolvidos tanto em seu trajeto imanente e objetivo de chegar à escola como no seu sentido subjetivo ou transcendental. É toda uma viagem – no seu sentido mais profundo.

As melhores aulas baseiam-se tanto em preparação cuidadosa e diligente quanto em revelação espontânea e surpreendente. Ao falar com os alunos, e avaliar as suas reações, tal como os velhos narradores ao pé do fogo, os professores chegam a novas conclusões, incorporam-nas às suas aulas e refinam os seus argumentos. Assim, transmitem-se factos, mas também se modela a arguição – tal qual o mestre-oleiro e a sua criação de barro –, ao tempo em que se responde a sugestões não-verbais do público interessado e interessante.

Longe de ser algo opacas, unilaterais – as aulas são um denso e rico processo social. O tempo habitual das aulas contribui para a sociabilidade e estabelece um ritmo ao curso. As salas de aula são comunidades e, normalmente, as aulas são a ocasião única para o grupo se reunir fisicamente. Removido tal ímpeto de reunião – seja por conta de aulas assíncronas, gravadas, ou por se tornar a assistência opcional –, todos os benefícios da comunidade real, de tão sólidos, desvanecer-se-ão no ar tal como bytes, pixels, algoritmos. A aula é o ato docente por excelência que caracteriza a seu ofício e – por definição – só pode ocorrer em presença. Chamar “aula” a instrução remota “online” é totalmente fora de lugar, uma impostura intelectual que não pode mais voltar a ter lugar no pós-pandemia.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico