Entre tantas percentagens, é possível comparar a eficácia das vacinas da covid-19?

Se umas vacinas dizem ter uma eficácia superior a 90% e outras se ficam por 60% ou 70% nos ensaios clínicos, isso quer dizer que as primeiras são as melhores? Não é bem assim.

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LUSA/DANIEL DAL ZENNARO

A taxa de eficácia de uma vacina nos ensaios clínicos não nos diz tudo. A capacidade que este medicamento tem de controlar uma doença na vida real, com todos os obstáculos que podem surgir, pode ser diferente do que nos dizem as percentagens dos ensaios clínicos.

Afinal, qual é a eficácia da vacina da Astrazeneca?

Segundo o ensaio realizado com as regras impostas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora norte-americana, a vacina da AstraZeneca tem uma eficácia de 76% - o que corresponde a pelo menos 190 casos de covid-19 entre os mais de 32 mil voluntários, agora com um número representativo de pessoas com mais de 55 anos, o que não aconteceu nos ensaios anteriores.

Isto é um nível de eficácia um pouco menor do que os 79% anunciados no início da semana, e que levaram a comissão independente que fiscaliza a segurança e precisão dos ensaios clínicos nos EUA a fazer um raro reparo público à farmacêutica anglo-sueca, por não estar a usar os dados mais actualizados, e sim dados que lhe eram mais favoráveis.

Mas para os maiores de 65 anos, a vacina mostrou-se 85% eficaz a evitar casos sintomáticos de covid-19, assegura a empresa, em comunicado de imprensa. Houve oito casos de doença grave, mas todos no grupo que tomou um placebo – uma substância não activa. Tal como as restantes vacinas aprovadas até agora, as pessoas que a tomaram ficaram protegidas de terem de ser hospitalizadas por causa da covid-19 – ou até de morrer. Para estes desenlaces mais graves da doença, a vacina mostrou-se 100% eficaz.

Estes resultados são consistentes com uma análise combinada de ensaios clínicos de fase II/III no Reino Unido, Brasil e África do Sul publicados a 19 de Fevereiro na revista The Lancet, que tinham mostrado que, após a primeira dose, a eficácia da vacina é de 76%, mantendo protecção até à segunda dose. A eficácia após a segunda dose aumentava até 82% em termos genéricos, quando esta é administrada com um intervalo entre as doses de 12 semanas ou mais.

Os valores de eficácia deste ensaio norte-americano – o maior realizado para esta vacina, e que decorreu não só nos Estados Unidos como também no Chile e no Peru – são mais elevados do que os dos ensaios realizados anteriormente, em vários países, entre os quais Reino Unido e Brasil. Estes tiveram problemas, erros na dosagem e mudança nos protocolos utilizados, mas o que se estimou nesses ensaios foi uma eficácia de 60% para esta vacina. Esse foi o valor aceite pela Agência Europeia do Medicamento (EMA), quando deu luz verde à utilização da vacina da AstraZeneca, embora sublinhando a falta de dados para pessoas mais velhas.

A directora da EMA, Emer Cooke, já disse esperar que a AstraZeneca envie informação actualizada para o regulador europeu. A farmacêutica aposta agora em conseguir autorização de uso nos Estados Unidos.

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As condições dos ensaios clínicos não reproduzem fielmente as que as vacinas enfrentam na vida real EPA/ANDREA FASANI

O que significa isto da eficácia das vacinas?

Cada vacina apresenta um valor diferente de eficácia: a da Moderna 94%, a da Pfizer-BioNtech 95%, a da Janssen (ou Johnson & Johnson) 67%, a russa Sputnik V 92%... Como se chega a estes valores?

Num ensaio clínico, metade das dezenas de milhares de pessoas que nele participa toma a molécula (ou princípio activo) que está a ser testado – neste caso, uma vacina – e outra metade toma um placebo – uma substância sem actividade clínica. Depois, as pessoas vão viver a sua vida, mas vão sendo monitorizadas, para verificar que efeito o medicamento tem – até se tem algum efeito –, comparando com as pessoas que não o tomaram.

No caso das vacinas, o objectivo é contabilizar os casos de covid-19 que surgem entre os vacinados e os não vacinados – depois fazem-se cálculos estatísticos para determinar o seu peso na totalidade dos participantes.

Por exemplo, se houvesse tantos casos de doença entre os vacinados como entre os não vacinados, a taxa de eficácia seria de zero – a vacina não cumpria a sua função. Ao contrário, se todos os casos de doença fossem no grupo que tomou o placebo, a taxa de sucesso da vacina seria de 100%. Mas a realidade costuma sempre ser um cenário mais complexo, com alguns casos entre quem foi imunizado e outros entre quem recebeu o placebo.

No caso da vacina da Pfizer-BioNtech, por exemplo, nos ensaios clínicos houve 162 casos de covid-19 entre os que tomaram um placebo e oito nos vacinados – o que se traduziu na taxa de eficácia elevadíssima de 95%. Ou seja, a possibilidade de alguém vacinado contrair o novo coronavírus é reduzida em 95%. Esta é uma probabilidade, por isso não significa que, em cada 100 pessoas vacinadas, cinco possam ser infectadas.

Estes valores têm uma tradução directa para o mundo real?

Não. As condições dos ensaios clínicos não reproduzem fielmente aquelas que as vacinas vão encontrar em todos os locais onde serão utilizadas, e que podem influenciar a sua eficácia. O facto de as vacinas da Pfizer-BioNtech serem muito exigentes em termos de conservação a frio, por exemplo, pode ser um factor que desequilibra a balança a favor de uma vacina que não precisa de condições de congelação tão extremas para ser transportada – como a da AstraZeneca, que aparentemente tem um nível de eficácia menor.

Mas há muitos outros factores que podem fazer com que o que se aconteceu nos ensaios clínicos não se adeqúe ao mundo real. Veja-se o que se passou com os primeiros ensaios clínicos da AstraZeneca, que tinham poucas pessoas com mais de 55 anos, quando um dos públicos-alvo das vacinas contra a covid-19 são precisamente as pessoas mais velhas – os resultados dos ensaios clínicos não respondiam a uma das perguntas mais importantes a que deviam dar resposta.

Pode também haver determinantes externas, como o surgimento de variantes do vírus, que podem influenciar a eficácia das vacinas.

Por exemplo, a vacina da AstraZeneca mostra-se eficaz contra a variante B.1.1.7 (britânica). Mas um estudo feito na África do Sul, num momento em que uma outra variante se tornou predominante (B.1.351), mostrou que esta vacina não é eficaz a proteger contra formas leves a moderadas de covid-19: só reduzia em 10,4% a probabilidade de contrair o vírus, relataram os cientistas, entre os quais alguns da Universidade de Oxford, que desenvolveram a vacina, na revista New England Journal of Medicine, em meados de Março.

O estudo era pequeno, com cerca de 2000 pessoas, mas levou a África do Sul a desistir, em Fevereiro, de utilizar a vacina da AstraZeneca, destinando à União Africana as vacinas que tinha recebido desta empresa, para serem usadas por países onde a variante B.1.351 ainda não tem grande presença. Optou antes pela vacina da Jansen.

A eficácia verificada nos ensaios clínicos nas vacinas contra o SARS-CoV-2 expressa um valor verificado num determinado momento, em certas condições, em lugares específicos. Não é um número absoluto, que se mantenha para sempre, imutável.

A taxa de eficácia é a única forma de medir o sucesso de uma vacina?

O principal objectivo de todas as vacinas seria evitar completamente a doença. As vacinas da covid-19 actualmente disponíveis não fazem isso, mas são bastante boas e cumprem algo de fundamental: evitam casos graves de doença, hospitalizações e morte. Independentemente da taxa de eficácia nos ensaios clínicos.

Mas há outra taxa, que é a taxa de efectividade, que mede a capacidade de uma vacina controlar uma doença na vida real, com todas as adversidades, e que pode ser diferente do valor da taxa de eficácia obtida nos ensaios clínicos.

Normalmente, os valores da efectividade são mais baixos do que os da taxa de eficácia nos ensaios clínicos.

Então será possível algum dia dizer qual é a melhor vacina contra a covid-19?

Não há nenhum ensaio clínico previsto para comparar entre si as vacinas contra a covid-19. A experiência poderá vir a dizer-nos se alguma é melhor que outra, por algum motivo, que pode nem ter a ver com a eficácia verificada nos ensaios clínicos. Por exemplo, estes nem verificaram qual a duração da imunidade conferida pelas vacinas - simplesmente não havia tempo para isso, em plena pandemia.

Mas em alguma altura haverá chegarão estudos sobre a efectividade de cada uma das vacinas e esses estudos dar-nos-ão uma melhor ideia que como funcionam na vida real do que as taxas de eficácia dos ensaios clínicos.

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Não há nenhum ensaio clínico previsto para comparar entre si as vacinas contra a covid-19 EPA/CJ GUNTHER