A vacina da covid-19 da Pfizer vai viajar numas caixas onde o calor não entra

Será como levar um pedacinho do pólo Sul até aos centros de vacinação. Uma empresa portuguesa que tem experiência de trabalho com a farmacêutica espera consegui-lo.

coronavirus,farmaceuticas,ciencia,industria,vacinas,biotecnologia,
Fotogaleria
A vacina da BioNtech e da Pfizer é a que tem maiores exigências em termos de frio Reuters/DADO RUVIC
coronavirus,farmaceuticas,ciencia,industria,vacinas,biotecnologia,
Fotogaleria
Teste de uma empresa de logística com caixas de frio no Aeroporto de Bruxelas, onde está a ser preparada uma grande operação para o transporte de vacinas Reuters/JOHANNA GERON

As vacinas da Pfizer-BioNtech contra a covid-19 que vão chegar ao Reino Unido a partir da próxima semana, e provavelmente as primeiras que chegarem a Portugal fruto desta colaboração, devem sair ultracongeladas, a 70 graus Celsius negativos, da fábrica de Puurs, na Bélgica, uma pequena cidade com várias indústrias farmacêuticas e famosa pela sua cerveja de alto teor alcoólico (Duvel), a cerca de 25 quilómetros tanto de Bruxelas como de Antuérpia. Mas haverá que manter-se bem sóbrio para ganhar o desafio de manter a cadeia de frio da primeira imunização contra o novo coronavírus.

Durante o transporte da vacina desenvolvida pela empresa de biotecnologia alemã BioNtech, esta tem de ser mantida a uma temperatura que pode variar até dez graus: entre 60 e 80 graus Celsius negativos, sendo o valor ideal 70 graus negativos. Para as manter assim, os frasquinhos com as doses de vacinas – cada frasquinho contém cinco doses, na realidade, que terão de ser diluídas quando chegarem ao centro de vacinação – são acomodados no interior com gelo seco dentro de caixas concebidas para aguentarem ambientes e temperaturas extremas, desde o pólo Sul até aos desertos mais quentes da Terra.

As caixas desenvolvidas pela farmacêutica Pfizer para transportar vacinas em condições de ultrafrio podem levar mil ou 500 doses de vacinas. São recheadas com gelo seco e assim enviadas da fábrica para o mundo, para os clientes que já adquiriram 570 milhões de doses. As primeiras 50 milhões de doses estão já prontas para os primeiros clientes, assegurou Sean Marett, administrador comercial da empresa de biotecnologia alemã BioNtech, que desenvolveu a vacina que a Pfizer irá colocar no mercado.

A empresa portuguesa APP Thermal, da Maia, também produz caixas semelhantes e tem experiência de trabalhar com a Pfizer e transportar vacinas. Com o seu sócio argentino e a Pfizer naquele país da América do Sul, a empresa portuguesa desenvolveu caixas que poderão ser usadas para transportar a exigente vacina contra a covid-19 da BioNtech-Pfizer até aos centros de vacinação na Argentina – e espera que sejam aprovadas para o mesmo efeito em Portugal.

Há caixas de vários tamanhos, por exemplo XL (1560 frasquinhos), onde as doses de vacinas poderão ser acomodadas durante 72 horas ou mais. Isto se os testes que estão agora em curso o confirmarem, explica Linda Santos, gestora de projecto da APP Thermal.  

“As caixas têm um composto de alumínio, que permite que não haja reflexos, tanto de luminosidade como de calor”, explica Linda Santos. É este material que permite o isolamento térmico. A caixa com as vacinas vai lá bem no coração do recipiente, que é preenchido com gelo seco, e junto com esta encomenda vai um aparelho, com sensores, que monitoriza a temperatura e as condições da caixa – e transmite a informação em tempo real por GPS, para um centro de controlo.

A vacina da BioNtech-Pfizer, que é a primeira baseada na tecnologia do ARN-mensageiro (ARNm), não usa nenhuma parte do novo coronavírus. O que usa é uma molécula que contém as instruções para que as nossas células produzam a proteína que está à superfície do vírus, a espícula, que lhe dão o característico aspecto espinhado. Mas a espícula não é infecciosa. O objectivo é apenas usar usar essa molécula (o ARNm) para treinar o nosso sistema imunitário a reconhecer um inimigo, como se distribuísse retratos-robô dele.

Estas vacinas são mais rápidas de produzir do que as vacinas da gripe porque não são cultivadas em ovos. São as nossas células que usam as instruções do ARNm é para fabricar a proteína da espícula, que treina o nosso sistema imunitário contra o vírus. O problema é que o ARNm é uma molécula instável, que se degrada em componentes mais pequenos. Mantê-lo a temperaturas ultrafrias permite estabilizá-lo.

Por isso todo o cuidado posto no transporte e no armazenamento a longo prazo das vacinas da BioNtech-Pfizer e, já agora, também a da Moderna, que se baseia na mesma tecnologia, mas diz conseguir estabilizar a vacina a 20 graus Celsius negativos.

No entanto, numa conferência de imprensa na quarta-feira, a BioNtech explicou que a sua vacina poderá ser mantida nos centros de vacinação nestas caixas especiais durante 20 dias. Se for necessário abri-las para repor o gelo, poderão durar apenas 15 dias. Num frigorífico normal, no entanto, com temperaturas entre dois e oito graus Celsius, não durarão mais de cinco dias.

“Se se fizer chegar a caixa com vacinas a 70 graus negativos a um centro de saúde, pode-se ganhar depois  dias: a Pfizer diz que pode ficar mais cinco dias num a temperaturas entre 2 a 8 graus”, exemplifica Manuel Pizarro, administrador da APP Thermal.

A empresa portuguesa que espera vender as suas caixas à Pfizer está agora a testar os seus produtos numa câmara onde pode simular várias condições ambientais e temperaturas, com o programa de inteligência artificial Smartcae. “Se algo fica fora do intervalo de temperatura, as entidades logísticas podem fazer uma acção correctiva, evitando desperdícios, e controlar a administração de vacinas”, acrescenta Pizarro.

Estas experiências permitem prever que, em determinadas condições ambientais, e para transportes com determinada duração (e para encomendas de determinado volume), pode ser preciso fazer um reforço do gelo seco a determinada altura. Por exemplo, à 23ª hora, numa viagem de 24 horas até ao centro de vacinação, para garantir a integridade das vacinas.