Ao contrário do que aconteceu na região, moção de censura na cidade de Múrcia derrota governo do PP

A política espanhola continua em sobressalto e centra-se agora nas movimentações que antecedem a eleição para a comunidade de Madrid. Já há candidatos, incluindo Iglesias, mas um acordo que permita formar governo parece muito difícil.

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Iglesias está prestes a deixar o Governo de Pedro Sánchez Chema Moya/EPA

Sem os sobressaltos que atingiram a moção de censura ao governo da comunidade de Múrcia, chumbada depois de três deputados do Cidadãos recuarem no acordo do seu partido com os socialistas e aceitarem integrar um remodelado executivo do Partido Popular (PP), a moção contra o presidente da câmara municipal de Múrcia foi aprovada esta quinta-feira com os 15 votos do Partido Socialista (PSOE), do Cidadãos (C’s) e do Podemos, que somam a maioria na autarquia.

José Ballesta, o autarca do PP, só contou com os votos dos onze conselheiros do seu partido e os três do Vox, a formação de extrema-direita.

Por um só voto se confirmou assim a queda do governo municipal, uma semana depois da derrota da moção de censura contra a presidência regional de Fernando López Miras, que aos seus deputados juntou os do Vox e os três trânsfugas do C’s. Isto quando faltam 40 dias para as eleições na comunidade de Madrid, a consequências mais relevante do anúncio das moções de censura em Múrcia – como em Madrid, o PP governava ali com o C’s, e a presidente da região da capital espanhola, Isabel Díaz Ayuso, decidiu antecipar-se a uma manobra idêntica.

O socialista José António Serrano será o novo presidente da câmara de Múrcia, devendo permanecer em funções até ao fim da actual legislatura, em 2023. Com a sua tomada de posse, os socialistas vão recuperar a principal câmara da região depois de 26 anos na oposição.

“A moção de censura é uma ferramenta democrática e há razões por trás dela: contratos suspeitos, vacinações irregulares e facturas duvidosas”, enumerou Serrano no plenário. “Não há aqui uma ambição partidária nem uma vingança calculada. Estava casa está há muito tempo encerrada, sem ouvir a rua”, afirmou ainda o socialista. Já Ballesta e os conselheiros do PP falaram de uma “traição à terra”, de “uma partilha obscena” de cargos entre o PSOE e o C’s e de “um plano urdido a partir da Moncloa”, nome do palácio que é a residência oficial do primeiro-ministro em Espanha.

Foi a 10 de Março que as moções para retirar o PP do poder nos governos regional e local de Múrcia foram apresentadas, depois deu um acordo que dava ao C’s a presidência do executivo da comunidade e aos socialistas o da capital. No caso do governo regional, bastariam os votos do PSOE e do C’s para chegar à maioria absoluta, mas o quartel-general do PP mobilizou pesos pesados que conseguiram negociar o apoio de três deputados do C’s, agora vereadores.

O fracasso da iniciativa no parlamento regional começou por surgir como demolidor para os defensores da moção local que agora foi a votos, nota o jornal El País, já que todo o debate se concentrou nos trânsfugas e nas mudanças provocadas no tabuleiro político espanhol.

Mas a primeira moção de censura da democracia no município de Múrcia acabou mesmo por passar, terminando assim com a coligação do PP com o C’s, formada depois das eleições de 2019, e dando início a uma nova aliança, entre os socialistas e o partido de centro-direita (o Podemos apoiou a moção mas fica na oposição).

Com um Governo nacional de coligação entre o PSOE e o Unidas Podemos, e a intenção declarada do C’s de que a sua escolha para negociar governos conjuntos seria sempre o PP, poucos anteciparam o que aconteceu em Múrcia e o terramoto político que isso originou. As ondas de choque deixaram em crise profunda o C’s, e a presidência de Inés Arrimadas, com várias demissões nas últimas semanas. E abriram uma guerra partidária pelo futuro de Madrid, com influência na estratégia global de alianças, tanto à direita como à esquerda.

Iglesias, Ayuso, Casado

Para enfrentar Ayuso, o até agora vice-presidente de Pedro Sánchez, e líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias, abandonou o Governo e será candidato à presidência da comunidade. A principal intenção de Iglesias era reunir a esquerda à esquerda dos socialistas mas a ideia foi rejeitada pelo Más Madrid, partido que reúne vários ex-dirigentes do Podemos e que em 2019 obteve bons resultados e quase ameaçou a entrada da formação de Iglesias na assembleia regional.

Entretanto, o candidato socialista a substituir Ayuso, Ángel Gabilondo, que venceu em 2019 mas não conseguiu formar governo, diz que prefere coligar-se com o C’s e rejeita aproximações a Iglesias. O líder do PP, Pablo Casado, por seu turno, fez saber a Ayuso que não pode juntar-se com o Vox para formar governo – o partido de extrema-direita tinha um acordo de apoio parlamentar com Ayuso e esta era bastante próxima dos seus dirigentes.

Resta assim a Ayuso disputar o apoio do C’s com Gabilondo, isto depois de ter destituído os membros do partido do seu governo e marcado eleições antecipadas de forma unilateral.