PP de Múrcia troca as voltas aos adversários e consegue evitar eleições

Populares mobilizam-se e recuperam o apoio de três deputados do Cidadãos, “arrependidos” de se terem unido ao PSOE para provocar eleições. Nada que pare a tempestade aberta pela iniciativa murciana.

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Casado segura Múrcia mas o líder do PP depende agora do que acontecer em Madrid Chema Moya/EPA

O recuo não travará a onda de consequências na política espanhola aberta pela moção de censura apresentada pelo Cidadãos (aliado ao PSOE) na comunidade de Múrcia. Mas três deputados do partido na assembleia da região voltaram atrás e, depois de terem assinado a moção (abandonando assim os populares, seus parceiros de coligação), chegaram a acordo com PP. Sem o apoio destes três eleitos, a tentativa para pôr fim ao governo de Fernando López Miras está destinada ao fracasso.

López Miras apresentou-se esta sexta-feira rodeado pelos populares que integram o seu executivo e pelos seus novos membros, os três trânsfugas do C’s. “Assinei uma moção na terça-feira por disciplina partidária, mas a mim não me elegeram para entregar o governo de Múrcia a Pedro Sánchez [primeiro-ministro socialista]”, justificou uma das deputadas e agora vice-presidente, Isabel Franco.

“Para alguns deputados a dignidade tem um preço: 76 mil euros brutos e um motorista à porta de casa”, comentou Ana Martínez Vidal, que até agora era a porta-voz do executivo da região do Sudeste de Espanha. A votação da moção só será marcada na próxima semana, mas sem estes três votos não há muito que PSOE e C’s possam fazer – mesmo com o apoio do Unidas Podemos ficam aquém da maioria absoluta e só os eleitos da extrema-direita do Vox ainda não anunciaram o sentido de voto.

Segundo o acordo entre socialistas e C’s por trás da moção registada na quarta-feira para precipitar eleições na região e na câmara da capital, a próxima presidente da comunidade seria precisamente Ana Martínez Vidal, enquanto o PSOE ficaria à frente da autarquia. Apesar de o pacto ter sido justificado com questões específicas de Múrcia, incluindo escândalos de vacinação irregular e cedências do PP ao Vox, a generosidade socialista nas negociações foi um sinal de que acordos noutras regiões entre PSOE e C’s seriam pelo menos tentados.

A primeira consequência da apresentação da moção de censura em Múrcia foi a dissolução da coligação que unia o PP e o C’s na comunidade de Madrid, com a presidente, Isabel Dìaz Ayuso, a convocar eleições antecipadas, receando que algo idêntico se estivesse a preparar na sua região (perante dirigentes do C’s que se diziam chocados e garantiam que nunca o fariam). Ao seu estilo, Ayuso pediu aos madrilenos que escolham “entre socialismo e liberdade”, numa referência ao PSOE, que governa Espanha em aliança com o partido Unidas Podemos.

Pablo Casado, líder do PP, acabou por assumir como suas estas palavras, unindo assim o seu destino ao de Ayuso. Terá sido o abandono definitivo de um caminho em direcção ao centro, iniciado por Casado no discurso da moção de censura apresentada pelo Vox contra o Governo de Sánchez, quando parecia ter virado costas à extrema-direita. Aliás, há membros do PP preocupados pela colagem de Ayuso ao Vox – segundo as sondagens, no melhor dos cenários, o PP vai precisar da extrema-direita para se manter no governo da comunidade; no pior, será o próprio Vox a ameaçar a votação dos conservadores.

Ainda não é certo que os madrilenos sejam chamados a votar a 4 de Maio: duas moções de censura apresentadas pelos socialistas e pelo Màs Madrid (cisão do Podemos) para impedir a convocatória de eleições foram validadas pela assembleia da região, que espera agora uma decisão final do Tribunal Superior de Madrid, no princípio da semana.

Mesmo por confirmar, estas podem ser já “as eleições autonómicas madrilenas mais importantes da história democrática”, escreve o diário online infoLibre. Para o C’s, que desde as últimas perdeu representação nacional e quase desapareceu nas autonómicas catalãs, está em jogo a própria sobrevivência; para o PP, o futuro de Casado e a capacidade de resistência ao Vox. Para o PSOE, por outro lado, abre-se uma oportunidade inesperada de conseguir destronar o PP no seu território (o partido foi o mais votado em 2019, mas não teve apoios para governar).