A desconcertante Ayuso, em guerra cada vez mais aberta com o Governo de Sánchez

A dirigente que “exerce o poder ao ataque” recusa “imposições” do Governo. E continua a acumular polémicas desde que lidera a resposta sanitária à pandemia na região mais afectada da Europa.

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Ayuso, de 41 anos, chegou ao poder em Madrid no Verão do ano passado LUSA/JuanJo Martin

Com menos de ano e meio à frente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso continua onde sempre esteve desde que passou de discreto quadro do Partido Popular, quase desconhecida do grande público, a baronesa de proa dos conservadores com ambições nacionais – no centro da polémica. A gestão da pandemia de covid-19 na comunidade com mais casos de Espanha bastaria para a colocar no olho do furacão. O problema é que, com ou sem coronavírus, Ayuso é omnipresente e desconcertante.

As tensões entre o executivo autonómico e o Governo central, presidido pelo socialista Pedro Sánchez, por causa da resposta à emergência não são de agora. Mas esta sexta-feira voltaram a provocar ondas de choque. Ao mesmo tempo que o vice-conselheiro da Saúde de Ayuso, Antonio Zapatero, anunciava a ampliação a oito zonas das restrições já impostas a 37, o ministro da Saúde, Salvador Illa, tornava públicas as divergências entre as recomendações do seu ministério e as decisões da comunidade.

Illa explicou que foi proposto ampliar as restrições a toda a capital e às zonas da região onde há mais de 500 casos de covid-19 por 100.000 habitantes (e não 1000 casos, como foi feito). O Governo queria ainda que fosse proibido o consumo ao balcão em toda a comunidade, que se limitasse a lotação de esplanadas de bares e restaurantes a 50% e que se pedisse à população para “evitar todas as deslocações desnecessárias”.

“Isto tem de ser feito, os atalhos não valem”, afirmou o ministro. Madrid, com autonomia para decidir independentemente do que deseja o Governo, respondeu que recusa “imposições”.

No fim de uma intervenção que não estava prevista e que muito terá surpreendido Ayuso (que, segundo a imprensa espanhola, contava que as recomendações não fossem divulgadas), os jornalistas ainda perguntaram ao ministro Illa por que é que, face à gravidade da situação, o Governo não contempla aplicar o artigo 155 da Constituição (que permite ao Executivo suspender os dirigentes eleitos de uma comunidade para “protecção do interesse geral”) ou o estado de emergência. Illa respondeu evocando “o respeito institucional e a lealdade entre comunidades autónomas”.

Exercer o poder ao ataque

Há semanas que os socialistas da capital discutem a apresentação de uma moção de censura à presidente da comunidade, uma intenção que não avança por não ter garantia de reunir os votos suficientes. Precisariam do apoio dos liberais do Cidadãos, que integram o governo autonómico com o PP. Ayuso foi primeira candidata dos populares a perder umas eleições em Madrid em mais de 30 anos e lidera o primeiro governo de coligação da história da região: ao Cidadãos juntou o apoio externo da extrema-direita do Vox. Circunstâncias que, como escreveu o jornal El País num perfil já de Maio, “a levam a exercer o poder ao ataque”.

É difícil listar as polémicas em que Ayuso já se envolveu desde que chegou ao poder – ou mesmo desde que acabou a liderar a resposta sanitária a uma pandemia numa região como Madrid sem nunca ter assumido responsabilidades políticas importantes.

Inaugurou um hospital de campanha construído em contra-relógio para cobrir a falta de camas com um evento em que não se cumpriram distâncias sociais, interrompeu reuniões para ir à missa, cumpriu quarentena num hotel de luxo, viu a sua directora geral de Saúde (Yolanda Fuentes) demitir-se por considerar a sua política sanitária “errática”, distribuiu máscaras com sorrisos que não cumpriam as normas, apareceu na capa do jornal El Mundo numa fotografia de mãos cruzadas sobre o peito e aspecto sofredor – alguns compararam a imagem a Nossa Senhora da Conceição, membros do seu próprio partido passaram a tratá-la como “a pasionaria da direita de 2020”…

No sítio certo

A semana passada, centenas de pessoas e dezenas de organizações (de sindicatos a associações de moradores) pediram a sua demissão depois de ter relacionado o aumento de contágios no sul da região com “o modo de vida da nossa imigração”, que muitos políticos e dirigentes associativos rotularam de “racista”.

Jornalista durante alguns anos, já na universidade Ayuso se envolvera numa associação de estudantes próxima ao PP. “O mais importante para ela era a política e o partido, a sua carreira”, conta uma amiga de juventude citada no perfil do El País, admitindo que não considera a amiga preparada mas sublinhando que assim que descobriu que era candidata “soube que ia ganhar”. “É como Forrest Gump, esteve sempre no sítio certo”, dizia.

O problema é que os espanhóis – e principalmente, os madrilenos – estão a assistir na primeira fila “à experiência em andamento” que é o seu mandato, escrevia o jornal no mesmo perfil, intitulado justamente “De desconhecida a desconcertante”.