Expliquem-me “clarinho, clarinho, para militar perceber”

Durante todo o ano que durou a pandemia, houve uma coisa que não diminuiu cá em casa e outra que até aumentou: o tráfego de cartas e de encomendas.

Foto
Dia Mundial da Poesia foi comemorado em Belém Rui Gaudencio

Há dias li um texto aqui no PÚBLICO, assinado pelo Nuno Ribeiro, que fazia referência a uma expressão usada na gíria militar que eu desconhecia e que me serviu de inspiração para este artigo. “Clarinho, clarinho, para militar perceber” escrevia ele, explicando que este é um preceito de comunicação usado nas Forças Armadas que está relacionado com o facto de haver vários estratos sociais entre os militares. É suposto a linguagem ser clara e acessível, para ninguém se sentir excluído.

E de que me serve isso agora? Foi a primeira coisa em que pensei quando comecei a ler sucessivas notícias (para compreender melhor) sobre o pedido feito pelos CTT à Anacom para aumentar os preços do correio, tendo em conta “a queda excepcional durante o ano de 2020”, como disse o presidente executivo da empresa. 

Está aí a minha primeira perplexidade. Durante todo o ano que durou a pandemia, houve uma coisa que não diminuiu cá em casa e outra que até aumentou: o tráfego de cartas que ainda chegam em papel (os avisos de pagamento do IMI, alguns seguros e contas, a correspondência do condomínio); e o tráfego de encomendas (via CTT e não só). Nunca comprei tanto à distância nem mandei vir tanta coisa para casa — e não estou apenas a referir-me a comida ou compras de supermercado

Aliás, há notícias que referem que as receitas dos CTT caíram, mas mesmo assim cresceram 0,7% em 2020, para mais de 745 milhões de euros (a rubrica “correio e outros” encolheu 10,8%, mas a “Expresso e Encomendas” disparou 26,6%).

No meu caso, voltei até a receber — coisa já rara há muito tempo — correspondência pessoal. Uma amiga do coração decidiu dar início a uma onda de postais por si fabricados que incentivou as outras amigas a reproduzirem o gesto. E lá andei eu, na vizinhança, à procura de um marco de correio como já não fazia há algum tempo. Serviu para perceber, por exemplo, que o que havia mais perto de casa já não existe, levado pela última intervenção urbanística que resultou numa rotunda.

Segunda e terceira perplexidades: tinha lido outras notícias sobre os resultados do Banco CTT que foram positivos pela primeira vez em 2020; e também li que os CTT, apesar de tudo, lucraram 16,7 milhões de euros no ano da pandemia (muito abaixo do ano anterior, é certo). Serão migalhas para a administração dos CTT, mas quem comprou a empresa não devia ter-se esquecido que continua a tratar-se de assegurar a prestação de um serviço postal que é público.

Expliquem-me, então, “clarinho, clarinho, para militar perceber”: vão mesmo aumentar os preços dos correios?