Etiópia: carências alimentares dos habitantes do Tigré são “esmagadoras”

Aviso da Cruz Vermelha mostra contornos da crise humanitária causada pela guerra civil na Etiópia. Região continua a ter acesso muito restrito por ordem do Governo federal.

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Refugiados que fugiram à guerra no Tigré num campo perto da fronteira entre a Etiópia e o Sudão MOHAMED NURELDIN ABDALLAH/Reuters

Os habitantes da região do Tigré, na Etiópia, estão a passar por necessidades alimentares “esmagadoras”, avisou o Comité Internacional da Cruz Vermelha, causadas pela incursão militar do Exército etíope contra forças rebeldes.

A perda da época das colheitas na região do Norte da Etiópia deixou os habitantes locais praticamente sem acesso a alimentos, disse à BBC o director de operações do Comité Internacional da Cruz Vermelha, Dominik Stillhart, que visitou o país recentemente.

Também foram detectados “problemas sérios em relação ao acesso a cuidados de saúde”, disse o responsável.

O alerta deixado pela Cruz Vermelha mostra um panorama preocupante de uma crise humanitária sobre a qual pouco se sabe. Desde que a ofensiva militar etíope começou, em Novembro, o Governo de Addis Abeba restringiu o acesso à região a jornalistas ou organizações de ajuda humanitária. O Governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed diz que a ajuda fornecida por si já chegou a 1,5 milhões de pessoas em Tigré.

O conflito deixou milhares de mortos e desalojou pelo menos dois milhões de pessoas. Os efeitos dos combates também afectaram os cerca de cem mil refugiados eritreus que estão em campos geridos pelas Nações Unidas no Tigré. Há vários relatos de massacres contra civis em aldeias da região.

Na origem da guerra está a invasão por rebeldes pertencentes à Frente de Libertação Popular do Tigré (FLPT) de bases do Exército federal em Novembro, que foi respondida com uma invasão da região. O Governo de Addis Abeba diz que conseguiu repor o controlo sobre o Tigré, mas a falta de acesso não permite comprovar a situação no terreno.

Alguns observadores receiam que o conflito tenha evoluído para uma forma de combate guerrilheiro com possibilidade de se prolongar por vários anos.

A guerra civil põe em causa a estabilidade da Etiópia que desde a eleição de Abiy, procurava deixar para trás as crises internas e externas que marcaram a história do país que sempre se viu a braços com conflitos motivados por rivalidades étnicas. Abiy recebeu em 2019 o Prémio Nobel da Paz depois de ter conseguido chegar a um acordo com a Eritreia, pondo fim a uma guerra que durava há duas décadas.

As relações entre o Governo federal e as autoridades tigré estavam tensas desde que em Agosto foram organizadas eleições regionais à revelia das instruções de Addis Abeba, que tinha dado ordem para que fossem adiadas por causa da pandemia da covid-19. O Governo de Abiy rejeitou reconhecer os resultados das eleições e, a partir daí, a situação agravou-se.