Autarquias e empresas ajudam a entregar computadores a alunos, mas promessa de 350 mil equipamentos dificulta tarefa

Mobilização geral ficou aquém da que ocorreu no primeiro confinamento. Terão pesado os vários anúncios do Governo sobre a aquisição de um total de 450 mil equipamentos, apenas cem mil já chegaram às escolas.

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PAULO NOVAIS/Lusa

Os anúncios das autarquias vão-se sucedendo. Moncorvo, Entroncamento, Abrantes. Mais tarde, Cascais, Santarém e Oeiras. São apenas exemplos, com um denominador comum. São municípios que estão a entregar equipamentos informáticos ou sistemas de acesso à Internet a alunos que não os têm. Não são os únicos. A sociedade civil também se mobilizou. Empresas e projectos como o Computador Solidário tentam interligar quem quer ajudar e quem precisa. Mesmo assim, não chega. A falta de computadores vai impedir muitas dezenas de milhares de alunos de assistirem às aulas online que arrancam nesta segunda-feira no continente para todos, desde o primeiro ano do ensino básico até ao 12.º.

Uma estimativa feita pela Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) apontava para pelo menos 300 mil estudantes sem um equipamento para assistir às aulas à distância, um número que resulta dos levantamentos feitos pelas escolas para preparar o ensino remoto. 

Apesar das muitas doações e empréstimos, a mobilização geral terá ficado muito aquém do que aconteceu no primeiro confinamento, em Março do ano passado, constatam vários envolvidos neste processo. A baralhar autarquias, empresas e particulares terão estado os diversos anúncios do Governo, que já entregou cem mil equipamentos a alunos carenciados, e promete entregar mais 350 mil portáteis, a maior parte dos quais deverá chegar até ao final de Março. 

O problema é que até lá são muitos os alunos que, por falta de meios, não vão conseguir acompanhar o ritmo de aprendizagem dos colegas, o que pode comprometer o seu sucesso escolar este ano. Para contornar este problema, muitas escolas resolveram abrir as portas a uma minoria de alunos. Mas ainda não é possível perceber a dimensão e o impacto desta solução adoptada por alguns agrupamentos, que fizeram uso da autonomia de que beneficiam.

A associação Empresários pela Inclusão Social (EPIS), que desde 2007 tem um projecto de apoio a milhares de alunos com indicadores de risco ou histórias de insucesso escolar, lançou em Abril passado uma campanha que permitiu atribuir, até ao final do ano, 452 computadores e 94 acessos de Internet a alunos que acompanha.

Em Janeiro deste ano foi feito um novo levantamento dentro do grupo acompanhado e, num total de 7767 crianças e jovens que frequentam desde o 1.º ano do ensino básico até ao secundário, foram identificados 901 alunos sem um computador no seio das suas famílias. Foram consideradas prioritários 139 agregados que enfrentam situações graves de desemprego. “Começámos a campanha há duas semanas e vamos a caminho dos 50 computadores”, contabiliza Diogo Simões Pereira, director-geral da EPIS, admitindo que o ritmo de doações tem sido mais lento do que em Abril passado.

"O facto de as pessoas saberem que o Ministério da Educação comprou milhares de computadores não ajuda”, justifica o responsável. O problema é o impacto de algumas semanas de interrupção de aprendizagem para milhares alunos. Daí a urgência de ajudar. “Na vida escolar destes alunos é um degrau que não vai ficar preenchido”, realça Diogo Simões Pereira. 

Mais optimista está Ricardo Paiágua, um dos criadores do projecto Computador Solidário, que tem como base uma plataforma digital criada para a doação de computadores, que serão oferecidos a alunos que pedem computadores para assistirem às aulas online. Apesar de não esconder que com o crescimento rápido do projecto é difícil fazer balanços rigorosos em tempo real, até este domingo contabilizava mais de mil pedidos de ajuda.

"Este fim-de-semana chegaram-nos muitos pedidos de instituições que recebem jovens carenciados e não dispõem de computadores para as crianças e jovens que albergam”, constata Ricardo Paiágua, que acredita que o pedido tardio feito por estas entidades resulta do facto de estarem a contar que o Estado lhes disponibilizasse equipamentos. As ofertas já rondam as 800, mas o voluntário acredita que poderão chegar às três dezenas de milhares, já que há muitas multinacionais que já contactaram a plataforma.

Apesar do optimismo, Ricardo Paiágua também ligado ao projecto Cama Solidária, que espalhou autocaravanas pelos hospitais nacionais com o intuito de proporcionar um espaço de descanso aos profissionais de saúde reconhece que tem havido menos mobilização geral neste segundo confinamento, com alguns projectos que apoiaram numa primeira fase a não serem reactivados.

O município de Torre de Moncorvo, em Bragança, fez o trabalho de casa atempadamente, mas, mesmo assim, não conseguiu evitar que 60 alunos carenciados do 2.º e 3.º ciclo permanecessem sem computador para assistir às aulas à distância. O vice-presidente da autarquia, Vítor Moreira, explica que, quando os cerca de 500 alunos do agrupamento de escolas de Torre de Moncorvo se matricularam, até Junho e Julho, se aproveitou para fazer o levantamento das necessidades. “A 10 de Agosto já sabíamos que tínhamos 65 alunos do 1.º ciclo dos escalões da Acção Social Escolar [ASE] A e B, os que priorizamos, sem computador, mais 60 alunos do 2.º e 3.º ciclo e 15 do ensino secundário e profissional”, afirma o autarca. A câmara concorreu a fundos públicos disponíveis para adquirir os equipamentos, disponibilizando-se para suportar o remanescente que não era financiado. 

O contrato foi adjudicado, mas a empresa vencedora só conseguiu entregar os 65 computadores destinados ao 1.º ciclo. “Disseram-nos que o resto dos computadores, com características técnicas diferentes, se tinham esgotado e não tinham previsão de entrega”, conta Vítor Moreira. A indefinição levou a autarquia a desistir da compra, já que também se previa para breve a entrega dos equipamentos adquiridos pelo Ministério da Educação. Em meados de Janeiro, o agrupamento de escolas de Moncorvo recebeu os aparelhos destinados aos alunos do secundário. Mas apesar de nas matrículas terem sido identificados apenas 15 alunos nos escalões A e B da ASE, número que entretanto cresceu para 17, foram entregues 51 aparelhos.

Vítor Moreira lamenta a falta de organização e de coordenação com o Ministério da Educação. “Agora já estão a pedir para devolvermos os 34 computadores que enviaram a mais. Isto mostra a desorganização de todo este processo”, remata o autarca. Mas mesmo com computadores há outros problemas neste concelho do interior. A existência de pontos mortos da rede móvel em algumas freguesias foi mitigada pela autarquia com a colocação de repetidores de sinal, mas não resolve todos os problemas. 

Além disso, mesmo com computadores e Internet, há que contar com a iliteracia digital de quem nunca teve um computador em casa. O mesmo problema é sentido pelo município do Entroncamento, no distrito de Setúbal. Por isso, os empréstimos dos 162 equipamentos informáticos (portáteis e tablets) e 37 equipamentos de acesso à Internet, realizados nos últimos dias, são acompanhados pela equipa da Unidade de Educação composta por três técnicos superiores e um assistente técnico. “O Serviço de Educação intervém, sempre que necessário, no apoio aos alunos/encarregados de educação, que tenham dificuldades no funcionamento dos equipamentos de forma a colmatar as principais dificuldades sentidas, nomeadamente no arranque de sistemas operativos, introdução incorrecta de passwords, substituição de equipamentos que apresentam constrangimentos”, explica a autarquia numa resposta enviada ao PÚBLICO.