Em nome da saúde, fechem as escolas!

Foi este mesmo Governo que proclamou um balanço muito positivo da experiência de ensino online vivida a partir de Março, no passado ano lectivo. Não se percebe, por isso, esta aparente contradição de afirmações e pressupostos.

Ressalvo o que já por aqui escrevi há uns meses: sou professora há vinte e cinco anos, e considero que a docência é, antes de mais, um trabalho de relação, de proximidade e de troca, para ser vivido olhos nos olhos.

Um trabalho que forma (e enforma) referências, memórias e exemplos, que estão muito para além dos conhecimentos e conteúdos que compõem os programas curriculares e as páginas dos manuais.

A sala de aula é o espaço onde se forma cidadania, no que esse conceito contém de reflexão, questionamento, atenção e empatia. E tudo isto é (ou deveria ser, se a dimensão das turmas e a heterogeneidade das próprias comunidades escolares não funcionassem como obstáculos reais), claramente, facilitado na modalidade de ensino presencial.

Mas a escola é muito mais do que um espaço de aprendizagem, pois que é, também, cenário de interacções e convivência com os pares, basilares para o bom desenvolvimento e a boa integração e desempenho sociais das gerações futuras.

Apesar destas considerações prévias, aplicáveis, de facto, àquilo que são as circunstâncias ditas “normais”, a que acrescento a minha pouca simpatia pessoal pelo ensino online, julgo que as condições sanitárias justificam o encerramento das escolas, num modelo de confinamento geral, semelhante ao que decorreu nos meses de Março e Abril e que, aliás, é defendido, enquanto medida necessária, pela própria Ordem dos Médicos.

E se há poucos meses, quando os números de infecção começaram a aumentar, defendi, nestas páginas, que seria prudente a passagem dos níveis de ensino secundário e superior a um regime online (exceptuando as avaliações e aulas laboratoriais), uma vez que estes alunos se situam numa faixa etária autónoma, pelo que a sua presença em casa não obrigaria a que nenhum dos seus progenitores tivesse de ser isentado da sua actividade profissional para os acompanhar, neste momento, o único recurso parece ser mesmo o de fechar todos os níveis de ensino.

E afirmo-o em tom de apelo, por quatro ordens de razões: em primeiro lugar, porque ainda que admitamos que os estabelecimentos de ensino se prepararam adequadamente e adoptaram, e continuam a adoptar, todas as medidas preventivas e de segurança, a verdade é que a manutenção das escolas em funcionamento implica uma intensa movimentação de pessoas em contextos diversos e nos quais essas medidas de segurança não existem ou são mais débeis. Não basta, portanto, que as escolas sejam locais seguros, quando todas as deslocações e todas as interacções, a elas associadas, não o conseguem ser.

Em segundo lugar, porque a toda a hora chegam notícias de alunos, turmas e professores que ficam em isolamento, o que não só significa que, como é evidente, há perigo nas escolas, mas significa, também, que há uma efectiva perturbação do funcionamento do ano lectivo – algo que se converteu no leitmotiv governativo para a rejeição do encerramento das escolas: o “regular funcionamento do ano lectivo” e a necessidade de não “prejudicar o futuro de uma geração”.

Na sequência deste último argumento, convirá recordar que este mesmo Governo proclamou um balanço muito positivo da experiência de ensino online vivida a partir de Março, no passado ano lectivo. Não se percebe, por isso, esta aparente contradição de afirmações e pressupostos.

Em terceiro lugar, a invocação da questão das desigualdades sociais potencialmente acentuadas pelo encerramento das escolas suscita outras reflexões, nomeadamente, o facto de o espaço escola continuar a ser, em Portugal, um espaço reprodutor de desigualdades à partida, onde alguns alunos estão destinados às filas de trás do esquecimento, numa trajectória de sucesso escolar artificial e desenhada para as estatísticas. Ou o facto de, a acreditar nas assimetrias de acesso à tecnologia, o Governo ter falhado o seu compromisso na garantia desse mesmo acesso. Ou o facto (tristemente verdadeiro) de para muitos alunos, a cantina escolar ser, ainda, a única garantia de acesso a uma refeição completa – é que, em qualquer destes casos, não estamos perante matéria pedagógica, mas sim social.

Em quarto e último lugar, as crianças e jovens que frequentam as escolas e os professores e funcionários não-docentes que nelas trabalham vivem em famílias, onde há pais, filhos, avós e netos. Onde há vidas que importa cuidar! Vidas que importa salvar! E neste momento, esse sim, é o valor maior.

Ou será que as escolas só fecharão quando se concluir esta “tão pedagógica” campanha eleitoral?