O julgamento sumário do ensino híbrido

É lamentável que a sociedade restrinja a reflexão e o pensamento sobre a Educação a este nível de superficialidade, e nos encontremos, outra vez, a discutir a viabilidade de uma Escola aberta ou fechada, e com uma clara sentença generalizada de que o Ensino apenas o é, ou funciona, se for presencial.

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Daniel Rocha

O assunto tornou-se recorrente ao longo do último ano, e assim que iniciamos 2021, e com o aumento de infeções por covid-19, volta a estar na ordem do dia a permanência, ou não, de atividades escolares presenciais. É lamentável que a sociedade restrinja a reflexão e o pensamento sobre a Educação a este nível de superficialidade, e nos encontremos, outra vez, a discutir a viabilidade de uma Escola aberta ou fechada, e com uma clara sentença generalizada de que o Ensino apenas o é, ou funciona, se for presencial, excluindo, à partida da nossa discussão, o verdadeiro e complexo Ensino Híbrido, que não foi aplicado nas nossas escolas, mas, e sobretudo, por esta altura, ainda nem o foi pensado ou preparado.

É neste ponto que nos deparamos com um sistemático desperdício de oportunidades para repensar a Escola, de preparar uma capacitação de docentes que não esteja dependente da condição, quase exclusiva, de progressão ou avaliação de carreira, que seja efetiva e com acompanhamento on job, e que se crie uma (nova) rotina e esta seja significativa para uma prática atual e, acima de tudo, que revele a ética profissional da profissão docente, promovendo, em simultâneo, uma aprendizagem ao longo da vida. Porém, o repensar da Escola também é feito do que se aprende e do que se ensina e, se por um lado, a flexibilidade curricular nos permite definir os conceitos estruturantes de aprendizagem e redefinir projetos ou novas formas de trabalhar, por outro, ainda não temos a flexibilidade mental para o fazer acontecer, havendo quem pense no cumprimento do currículo como o mais importante, esquecendo o fundamental do mesmo, que é ser aprendido pelo aluno. Com a extensão que os currículos têm, apenas acontece uma de duas situações, para ser cumprido pelos professores, sumaria-se, mas apenas uma parte é aprendida pelos alunos, ou então, para que o aluno aprenda e desenvolva todas as competências emanadas pelo currículo, não poderá ser cumprida em toda a sua extensão, pelo que ambas são uma utopia.

Ainda no sentido do desperdício de oportunidades, a Escola está há anos a solicitar uma rede de internet (WI-FI) que funcione, que seja efetiva para uma aprendizagem a qualquer hora e lugar. Anseia por equipamentos digitais que favoreçam uma Escola do presente, que favoreçam uma aprendizagem interativa e multimédia, com maior produção por parte dos alunos, com possibilidade de pesquisa de informação ao momento e, desta forma, poder preparar atividades e experiências entre o presencial e o online, em contexto, com professores, alunos, famílias, e assim construírem processos de ambientação natural ao uso dos modelos híbridos de aprendizagem.

Com esta conjuntura, incorremos em vários equívocos, nomeadamente, o de julgar e culpar o Ensino Online como algo que não funciona, que não torna as aprendizagens efetivas ou significativas, quando este, nunca foi aplicado ou testado nas nossas escolas… Aliás, é importante realçar que as escolas não tiveram, e não têm, as condições técnicas, materiais e de capacitação humana em ambientes híbridos de aprendizagem para aplicar um verdadeiro Ensino Online ou Híbrido, por mais que se desenhem Planos de Transição Digital, estes teimam em não “transitar” e começamos a repetir os sentimentos de outros “empreendimentos” já vividos na Educação.

Deste modo, o Ensino Presencial continua a ser uma enorme necessidade, e as escolas não podem fechar, ou voltariam, em grande maioria dos casos, a realizar falsas atividades online, onde a equidade educativa continuaria a não ser assegurada nos mais diversos contextos.

Existem estudos e trabalhos de investigação, por todo o mundo, com mais de 30 anos, que ilustram propostas práticas que possibilitam a combinação de espaços, atividades, tempos com presença física e virtual, de forma síncrona e assíncrona, formas de avaliação e com experiências claras de ensino e aprendizagem flexível e personalizada a cada aluno. Todavia, teimamos em não aplicar e, aqui, sim, repensar a Escola com todos os agentes da mesma.

Importa, provavelmente, antes de o condenar, definir o Ensino Híbrido, e clarificar a comunidade educativa e não só, sobre este modelo, que não deixa de ser pedagógico e pressupõe a combinação de atividades de sala de aula presencial e física, com espaços virtuais de aprendizagem, que oferecem melhores experiências de aprendizagem a cada aluno, personalizando-as às necessidades de cada um. Estes desenhos são construídos através da mistura e integração de desafios, atividades e projetos, em formatos individuais ou em grupo, colaborativos ou não.

Do ponto de vista curricular, o Ensino Híbrido torna-se flexível ao ponto de se estruturar um caminho personalizado entre o mais simples e o mais complexo, passando por níveis de desempenho e processos de avaliação contínuos, formais e informais, de uma articulação individual ou em rede, potenciando as competências de cada aluno. Evidentemente, as plataformas digitais de aprendizagem, quando utilizadas neste ambiente de combinações, oferece esta imensidão de possibilidades e favorece a autonomia e maturidade de aprendizagem do aluno, melhorando o seu desempenho. Num modelo híbrido, a possibilidade de ser o aluno a escolher conteúdos de forma crítica e tomar o controlo da sua aprendizagem, ganhando autonomia, é uma enorme vantagem, colocando o professor num processo de tutoria ou mentoria a cada aluno, ajudando-o a personalizar o seu caminho, podendo realizar uma efetiva avaliação contínua, com a oferta das melhores condições de aprendizagem em tempo real, seja na sala de aula, seja em plataformas virtuais, em formatos assíncronos muito mais individualizados.

Independentemente da pandemia, urge criar uma rotina para os alunos, professores e famílias, numa aprendizagem híbrida, e esta pode ser feita em contexto de sala de aula, para que todos aprendam novas rotinas, ganhem autonomia e combatam as incertezas que perturbam a aprendizagem.

A continuar assim, a Escola nunca poderá fechar as portas, e mesmo quando se pensava que a Escola é uma janela aberta para o mundo, percebemos que está dependente do modelo presencial e tradicional para ter algum sucesso.

Exige-se um Plano de Transição Pedagógica que, naturalmente, inclua o digital, a flexibilidade curricular, a equidade e a inclusão, numa verdadeira Escola Democrática, ou continuaremos, com a Pandemia, a ser expostos aos desperdícios de oportunidades de reinvenção da Escola.