Pode a variante encontrada no Reino Unido justificar o fecho das escolas portuguesas?

Inicialmente identificada no Reino Unido, a variante B.1.1.7 já está em cerca de 60 países. Em Portugal, segundo um relatório de 12 de Janeiro do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, foram detectados 72 casos desta variante genética.

Foto
Neste momento, ainda não se sabe se a variante aumenta a transmissão nas crianças mais pequenas, referem os especialistas Daniel Rocha

Nos últimos dias, o debate do fecho (ou não) das escolas tem estado em cima da mesa, bem como os factores que o podem justificar. Na terça-feira, na Assembleia da República, o primeiro-ministro, António Costa, lançou mais umas achas para a fogueira ao afirmar: “Se para a semana soubermos, se amanhã soubermos, se depois de amanhã soubermos, se daqui a 15 dias soubermos, por exemplo, que a estirpe inglesa se tornou dominante no nosso país, muito provavelmente vamos ter de fechar as escolas.” Mas pode uma variante, mesmo sendo mais transmissível do que outras, ser um factor que por si só pode levar ao encerramento das escolas? Por agora, especialistas ouvidos pelo PÚBLICO dizem que é um factor que agrava a capacidade de transmissão do vírus, mas devem também ser tidas em conta a pressão nos serviços de saúde e a adesão da população às medidas.

Os vírus mudam constantemente e o SARS-CoV-2 não é uma excepção. É expectável que surjam variantes (que reúnem várias mutações) ao longo do tempo. Já haverá milhares deste coronavírus e se umas desaparecem, outras persistem. Inicialmente identificada no Reino Unido, a linhagem B.1.1.7 já foi reportada em cerca de 60 países e já atingiu uma elevada prevalência em Londres e no Sudeste de Inglaterra, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Em Portugal, até ao momento, já foram detectados 72 casos associados à B.1.1.7, segundo um relatório de 12 de Janeiro do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge​, em Lisboa.

Embora se tenha vindo a sugerir que o causa uma doença mais grave, tem-se constatado que é mais transmissível do que outras variantes em circulação, o que pode aumentar as hospitalizações e a mortalidade. Há estudos que indicam que é transmitida de forma mais rápida na população, acabando por ser cerca de 50% a 56% mais transmissível do que outras.

E pode esta variante, caso venha a perceber-se que se tornou dominante em Portugal, levar ao fecho das escolas?

Paulo Santos, investigador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, adianta que a decisão sobre o encerramento das escolas depende da evolução epidemiológica. O que, neste momento, está realmente em causa é a pressão nos serviços de saúde. “Tem que ver com a organização e o acesso aos serviços de saúde”, afirma. E diz sobre a declaração do primeiro-ministro sobre a variante do SARS-CoV-2 identificada no Reino Unido: “Numa altura em que a nova estirpe não tem um significado maior em termos de penetração do que as outras, estar a fazer cenários hipotéticos da sua evolução é estar a preparar um discurso para uma decisão que virá a ser tomada e precisar de uma justificação.”

O médico e investigador salienta que temos de estar atentos à sua taxa de propagação e ao seu significado em termos de gravidade. Contudo, para os dados que estão disponíveis e considerando que ainda é cedo para certas avaliações sobre os seus efeitos e prevalência no país, Paulo Santos volta a frisar: “Neste momento, não é a mais prevalente e continuamos a ter um problema com as outras. Utilizar a nova estirpe para justificar medidas é arranjar uma desculpa para na semana passada não haver nada disto e, por isso, é que fizemos o que tivemos de fazer. É um discurso político.”

Por sua vez, Elisabete Ramos, professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, responde que a questão não é especificamente apenas sobre a variante: “Se se verificar que o aumento da proporção dos casos é explicado por essa variante – que tem uma maior facilidade de transmissão – significa que as medidas para limitar o contacto entre as pessoas e as transmissões têm de ser mais fortes.” E acrescenta: “Não é necessariamente por causa de uma variante, mas das características associadas a ela, o que pode explicar que seja preciso tomar mais medidas restritivas para se tentar minimizar o impacto.”

A cientista refere que, aparentemente, não causará mais severidade da doença, e o risco da necessidade de internamento não parece ser diferente, mas pode infectar mais facilmente outras pessoas. Por isso, tem de haver um reforço para que se evite que alguém infectado com esta variante contacte com outras pessoas. Afinal, esse indivíduo terá maior probabilidade de infectar as pessoas com quem contacta.

Concretamente sobre se justifica o fecho das escolas, diz não saber se o justifica, porque toda essa discussão é difícil e engloba tudo o que envolve a escola. A investigadora assinala que, dentro das escolas, há um conjunto de medidas que fazem com que as pessoas aí tenham um baixo risco de serem infectadas, mas a questão é também sobre o que a escola “não consegue controlar”, como as reuniões fora do estabelecimento e os caminhos até lá. “No primeiro período, as escolas não foram locais onde a doença foi transmitida porque não foram conhecidos surtos. Não quer dizer que não tenham doentes, porque vão sempre reflectir o que se passa na comunidade”, esclarece, referindo que, quantos mais casos há na comunidade, mais haverá nas escolas.

Portanto, além da variante, há outros factores determinantes na avaliação da situação da pandemia no país, como a adesão das pessoas às medidas, refere Elisabete Ramos.

Já a virologista Maria João Amorim considera que a B.1.1.7 é “um factor que agrava brutalmente a capacidade de transmissão do vírus”, mas que, “tendo em conta o descalabro em que estamos, não é por si só uma justificação”. A investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, confessa que tem sido uma acérrima defensora de que até os infantários devem ser mantidos abertos, mas que, tendo conhecimento dos últimos dados da pandemia no país, não tem dúvidas: “Temos mesmo de parar as cadeias de transmissão.”

A cientista refere que há vários níveis na questão das escolas e que um deles é que se deve fazer uma divisão por idades. “Claramente que, no ensino universitário e secundário, os estudantes conseguem transmitir muito a doença até muito de forma assintomática, aumentando a transmissibilidade na população”, explica, considerando que terá de existir um controlo mais estrito. Depois, neste momento, ainda não se sabe se a variante aumenta a transmissão nas crianças mais pequenas, pois sabe-se que os seus níveis do receptor ACE2 são menores.

Maria João Amorim conta que tem tido sempre muito cuidado na avaliação que faz das variantes e mutações genéticas do vírus, mas considera que se pode dizer que esta linhagem aumenta a transmissão. “Estamos a precisar de conseguir parar a transmissão porque, de outra forma, vamos ter um número de mortes muitíssimo elevado.” A cientista reforça que a avaliação da actual situação é “muito complexa e multifactorial”, mas aconselha que é preciso reunir equipas de especialistas que possam aconselhar o Governo. Há também o contributo de cada um: “Cada acção é essencial. Temos de parar esta transmissão se não queremos ter 200 mortes por dia. Somos nós individualmente que temos de o fazer.”