Mais ricos juntaram milhares de milhões às fortunas em 2020 enquanto outros passavam dificuldades

Bilionários acrescentaram um milhão de milhões de dólares ao seu património. Ganhos de 2020 de Elon Musk (Tesla) e Jeff Bezos (Amazon) seriam suficientes para acabar oito vezes com a fome nos EUA.

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Jeff Bezos, à esquerda, e Elon Musk Reuters

A pandemia colocou sob dificuldades indescritíveis muitos norte-americanos, com dezenas de milhões de famílias sem conseguirem colocar uma refeição na mesa e milhões de desempregados, devido ao layoff e restrições.

Os mais ricos dos Estados Unidos, por outro lado, tiveram um ano bastante diferente. Enquanto classe, os bilionários acrescentaram cerca de um milhão de milhões de dólares às suas posses desde o início da pandemia. E cerca de um quinto de todo este dinheiro foi canalizado para os bolsos de apenas dois homens: Jeff Bezos, CEO da Amazon e proprietário do The Washington Post, e Elon Musk, proprietário da Tesla e da SpaceX.

Musk quintuplicou o seu património desde Janeiro, de acordo com as estimativas da Bloomberg, acrescentando 132 mil milhões de dólares (108 mil milhões de euros) à sua riqueza, catapultando-o para o segundo lugar na lista dos mais ricos, com uma fortuna avaliada em 159 mil milhões de dólares (aproximadamente 131 mil milhões de euros). A riqueza de Bezos cresceu cerca de 70 mil milhões de dólares (57 milhões de euros) no mesmo período, colocando o seu património nos 186 mil milhões (aproximadamente 153 mil milhões de euros) no final de 2020.

Multiplicar acções por cinco

A fortuna de ambos os homens deve-se principalmente aos ganhos bolsistas das empresas que gerem: a Tesla, no caso de Musk, e a Amazon, de Bezos. As acções da Tesla subiram 800% este ano, depois de uma multiplicação das acções de uma para cinco – conhecido como stock split – em Agosto. A ascensão meteórica é alimentada por um número de factores: a fábrica gigante em Xangai começou a ‘disparar’ veículos este ano, a empresa começou a registar lucros trimestrais consistentes e espera-se que a procura por veículos eléctricos aumente em 2021.

As acções da Amazon, por outro lado, subiram cerca de 70% em 2020, um número que é apenas modesto quando comparado com os ganhos da Tesla. Muito do desempenho da Amazon deve-se aos confinamentos que levaram os norte-americanos a recorrer ao comércio digital para encomendar produtos que, noutras ocasiões, teriam sido adquiridos nas lojas encerradas pela pandemia. A plataforma Amazon Web Services, grande geradora de lucro para a empresa, também registou maior procura durante a pandemia.

Tudo somado, os dois homens aumentaram o seu património nuns impressionantes 200 mil milhões de dólares em 2020, uma soma superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de 139 países. Mil milhões de dólares – uma verba que alteraria uma vida em quase todos os contextos – passou apenas a ser “uma entrada num portal de dados”, como Elon Musk afirmou ao classificar os seus activos da Tesla.

Uma acumulação tão rápida de riqueza individual não acontecia nos Estados Unidos desde o tempo dos Rockefeller e dos Carnegie há um século. A sociedade norte-americana está apenas a começar a compreender as implicações éticas desta realidade.

O que significa, por exemplo, que dois homens tenham conseguido juntar este ano riqueza suficiente para acabar por oito vezes com toda a fome nos Estados Unidos – algo que custaria 25 mil milhões de dólares, de acordo com uma estimativa? Ou que os 200 mil milhões acumulados por Bezos e Musk sejam uma verba maior do que a de apoio à covid-19 alocada pelo Estado e governos locais no Cares Act, o programa de estímulo económico para responder aos efeitos da pandemia nos EUA?

Doações inferiores a 1% da riqueza

É certo que a riqueza de Bezos e Musk existe principalmente no papel, visto que está agarrada às acções que possuem. Para converter estas acções em bens tangíveis teriam de as vender, o que poderia potencialmente “afundar” o valor das acções a que se somariam as obrigações tributárias.

Além disso, a tarefa de acabar com a fome ou tapar “buracos” nos orçamentos estatais é muito mais complicada do que simplesmente passar um cheque. Se tem dinheiro em mão, o desafio é entregá-lo de forma útil à panóplia de lugares que dele precisam. É muito mais difícil gastar milhares de milhões em prática do que na teoria – ou, pelo menos, os bilionários dizem por muitas vezes que assim o é.

Em 2018, por exemplo, os dez mais ricos doaram a causas solidárias uma média inferior a 1% do seu património, de acordo com a análise do economista Gabriel Zucman.

No ano passado, Bezos anunciou que daria dez mil milhões para lutar contra as alterações climáticas e, em Novembro, anunciou os destinatários dos primeiros 800 milhões no Instagram. Uma análise do Washington Post em Junho aos gastos solidários dos mais ricos – quando a fortuna de Bezos totalizava 143 mil milhões – mostrou que deu 100 milhões ao Feeding America (rede de duas centenas de bancos alimentares) e até 25 milhões à All in WA, uma organização de apoio em Washington. Para o norte-americano médio, Bezos estava a dar o equivalente a 85 dólares.

Musk deu pelo menos 257 milhões à sua própria fundação de caridade, ou menos de um quinto de 1% da sua riqueza desde a fundação em 2002, aponta uma análise da Quartz.

Representantes da Amazon recusaram prestar declarações, enquanto os representantes da Tesla não responderam ao pedido de comentário.