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Deon Black/Unsplash

Adeus, cenas de sexo só com penetração. O Clit Test quer celebrar o clítoris no ecrã

É como um teste de Bechdel para as cenas de sexo: só há nota positiva se o clítoris tiver um papel. Porque é central no prazer das pessoas com vulva — “mas não saberias disto pelo sexo que vemos no ecrã”, assente na penetração. “Por que é que ninguém está a dizer que aquilo a que chamamos sexo não resulta para as mulheres?”

O filme é Long Shot (2019), Seduz-me Se És Capaz, em português, uma comédia romântica feminista q.b. com Charlize Theron como secretária de Estado dos EUA, e Seth Rogen enquanto jornalista desempregado. Spoiler alert: sim, eles envolvem-se. E na primeira vez em que terminam na cama atingem o orgasmo em poucos segundos, em simultâneo, apenas com penetração, sem qualquer prólogo ou Sade nas colunas. Veredicto do Clit Test​: Fail. Chumbado porque a grande maioria das mulheres cisgénero (alguém com a mesma identidade de género que lhe foi atribuída à nascença) não atinge o clímax pela penetração – “mas não saberias disto pelo sexo que vemos no ecrã”.

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O Clit Test quer ser uma espécie de Teste de Bechdel para as cenas de sexo em filmes, séries, canções, livros, enfim, tudo. Para uma obra de ficção passar no exame criado pela cartoonista Alison Bechdel basta que tenha uma cena em que duas mulheres conversem sobre outra coisa que não um homem; já no teste idealizado por Frances Rayner e Irene Tortajada há uns meses, uma cena de sexo é aprovada sempre que reconhece a existência do clítoris e do seu papel central no prazer sexual das pessoas com vulva. O que nem sempre é assim tão comum.

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Frances Rayner tem 34 anos e vive em Glasgow Clit Test

“É de loucos”, diz Frances, inglesa de 34 anos, numa videochamada com o P3 a partir do seu apartamento em Glasgow, onde trabalha numa associação antipobreza. “Temos estado a viver debaixo desta pretensão de que o sexo entre um homem e uma mulher é penetração e tudo o que vai para além disso é estranho, é algo adicional.” Esta campanha surge para “colocar a fasquia mais alta”: “Para que, se alguém está a escrever uma cena de sexo, pense que quer passar o teste, quer ter o bom sexo que as pessoas com clítoris iriam querer.”

No site, listam-se passes e também fails, ainda que em menor número (“Queremos ser um sítio de celebração positiva”): aprovados estão, por exemplo, a série Euphoria, o livro Rapariga, Mulher Outra, o filme Parasitas ou umas quantas canções de Nicki Minaj; com negativa, a série Normal People e o filme Alguém Especial. Incentivam-se ainda as submissões através das hashtags #ClitTestPass ou #ClitTestFail. Uma cena de cunnilingus ou de uma pessoa com vulva a masturbar-se garante uma aprovação certa, mas “não é preciso ser explícito”, adverte a ideóloga do projecto: chega uma menção à estimulação do clítoris ou uma mão a desaparecer por baixo dos lençóis.

E tal é importante porquê? “Porque muitas das ideias que temos do sexo vêm do que vemos no ecrã”, conclui. E muitas delas seguem “um guião” assente no sexo penetrador que, por um lado, mostra que “as mulheres não são socializadas a pôr as suas necessidades sexuais em primeiro lugar” e, por outro, que “não têm poder na produção de conteúdos”. Depois, há a pornografia, que é sobretudo feita para “entretenimento dos homens” e pode ser “muito prejudicial” para quem inicia a sua vida sexual.

É certo que “ver uma má cena de sexo não é o fim do mundo”, mas Frances socorre-se da sua experiência pessoal para explicar por que importa o que a cultura pop mostra (se dúvidas houvesse). No seu caso, enquanto filha de pais “muito liberais”, cresceu com a televisão e foi preciso chegar à faculdade para ter uma revelação ao ler o Hite Report, o revolucionário estudo sobre a sexualidade feminina publicado em 1976 por Shere Hite, investigadora e sexóloga americana que faleceu em Setembro.

Frances tinha na altura 20 e poucos anos, era sexualmente activa há uns quantos e pela primeira vez apercebia-se de que não estava sozinha ao deparar-se com uma das conclusões do relatório: das 3500 mulheres entrevistadas, apenas 1,5% se penetravam quando se masturbavam, 86% optavam pela estimulação externa e as restantes faziam ambos. “Fiquei muito surpreendida, pois eu só usava estimulação externa, mas pensava que eu é que era estranha”, conta Frances (ainda faltavam muitos anos para Booksmart: Inteligentes e Rebeldes, filme de Olivia Wilde, mostrar a relação entre um peluche e a masturbação).

Nunca lhe ocorrera, enquanto estava a ter sexo com um homem, replicar aquilo que fazia sozinha no seu quarto. Veio a estupefacção: “Sabemos disto há tanto tempo, é assim que as mulheres se vêm, por que é que parece que é uma coisa extra em relação ao que o sexo? (…) Por que é que ninguém está a dizer que aquilo a que chamamos sexo não resulta para as mulheres?”

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Os estudos dizem-no: Alfred C. Kinsey e Masters & Johnson mostraram o papel central do clítoris na sexualidade da mulher já noutro século; por cá, no mês passado, saiu por exemplo o livro Viva a Vagina!, em que as médicas Nina Brochmann e Ellen Støkken Dahl escrevem que “menos de um terço das mulheres atinge regularmente o orgasmo apenas com sexo vaginal e, mesmo assim, há muitas indicações de que o clítoris é central nesses casos”. E cada vez se fala mais do chamado orgasm gap: em Becoming Cliterate, a sexóloga Laurie B. Mintz cita, entre outros, um estudo de 2009 do National Survey of Sexual Health and Behavior da Universidade do Indiana em que, numa amostra de quase 2000 adultos americanos, 91% dos homens tinham atingido o orgasmo no último encontro sexual, comparativamente a 64% das mulheres.

Frances ficou com a pulga atrás da orelha durante todo este tempo. Chegou a pensar voltar à universidade para “recriar o Hite Report, mostrar as mesmas estatísticas outra vez”. Chegou aos 30 anos, decidida a agir. Leu todos os artigos académicos a que conseguiu chegar. Falou sobre experiências sexuais com muita gente, sobretudo suas amigas (“Sei que quem mais beneficia com esta campanha são as mulheres ‘cis’ que têm sexo com homens”). Apresentou-lhes a ideia do Clit Test que começava a burilar na sua mente. E uma das interlocutoras mais entusiasmadas foi Irene, espanhola de 26 anos, bissexual, então sua colega de trabalho, que ao início se juntou ao projecto, encontrando-se agora afastada. “Somos mulheres brancas ‘cis’, sabemos que temos uma visão limitada, mas queremos ser interseccionais também. Se há sexo entre ‘trans’ no ecrã e não é um retrato positivo, de acordo com as pessoas ‘trans’, prefiro realçar isso do que me importar se o clítoris esteve envolvido. Não é isso o principal na representatividade.”

Por isso é que Frances quer que o Clit Test chegue à indústria cinematográfica, a realizadores, argumentistas, actores, coordenadores de intimidade. Para já, ainda não fez grandes avanços, até porque há um emprego a full time para sustentar, e as hashtags ainda não colaram. Mas já sente diferenças na vida real: por exemplo, quando uma amiga partilhou o Test de Clit no Instagram e recebeu um “I’m so sorry, I’ve failed the Clit Test on you” de um caso. “Pode ser um mecanismo para as pessoas falarem de alguma coisa que ainda é um pouco embaraçoso falar”, sublinha Frances. O ideal? “Que o Clit Test não exista para sempre. Seria óptimo chegarmos a um ponto em que dizemos: Ah, era mesmo estranho quando tínhamos cenas de sexo em que as mulheres fingiam que tinham orgasmos vaginais.”

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