Ícone do feminismo, Shere Hite morreu aos 77 anos

As suas pesquisas dos anos 1970 revelaram-se importantes para um novo olhar sobre a experiência sexual das mulheres.

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Santi Visalli/Getty Images

Pioneira das teorias feministas, que elaborou a partir de pesquisas sobre a sexualidade feminina, Shere Hite morreu na quarta-feira na casa que partilhava com o marido Paul Sullivan, na zona de Tottenham, em Londres. Tinha 77 anos. Não foram avançadas as razões oficiais do óbito, mas de acordo com a também escritora Julie Bindel, que era sua amiga, Hite terá sido diagnosticada há alguns anos com as doenças de Alzheimer e Parkinson, não tendo agora resistido às complicações de ambas.

Shere Hite acabou por ficar conhecida sobretudo pela obra The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality. Lançado em 1976 (em Portugal foi editado em 1979 pela Bertrand, que o reeditou no ano passado), o relatório foi um enorme sucesso, com mais de 50 milhões de cópias vendidas até hoje. Baseado em inúmeras entrevistas (3500) e numa pesquisa que a própria Hite encetou, tratava de um assunto polémico à época: o sexo, a partir do ponto de vista feminino. Revelava, por exemplo, que muitas das mulheres que entrevistara não sentiam qualquer tipo de prazer ou estímulo durante a penetração sexual, o que a levou a defender que as mesmas deveriam ter maior controlo sobre as suas vidas sexuais, não receando ter uma atitude “anti-machista.”

Em grande medida, a obra acabou por transformar as assunções masculinas sobre o sexo, chamando a atenção para a experiência sexual das mulheres, a dimensão do prazer, e o seu corpo, atribuindo-lhe a necessária centralidade. Shere Hite acabou por ser atacada, à época, por sectores conservadores, mas em 2011, haveria de relativizar a polémica, afirmando ao The Guardian que apenas apontara que a penetração, durante o acto sexual não era necessariamente sinónimo de prazer para muitas mulheres e que isso havia deixado muitas pessoas preocupadas ou irritadas.

Nascida no estado americano do Missouri, um dos mais conservadores dos Estados Unidos, Hite foi criada pelos avós. Quando era estudante da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, chocou os colegas ao posar nua para uma campanha da fabricante de máquinas de escrever Olivetti, mas não gostou do slogan que acompanhava a foto – “A máquina de escrever já é tão inteligente que ela [Hite, no caso] nem precisa de o ser” –, tendo protestado veementemente contra a sua utilização numa edição da revista Playboy que chegou às bancas no início dos anos 1970.

Quase sempre criticada no seu país natal, decidiu renunciar à cidadania americana em 1995, tendo-se mudado para a Alemanha, onde viveu 14 anos com seu primeiro marido, o pianista alemão Friedrich Höricke. Acabaram por divorciar-se em 1999, e, depois de temporadas em vários países da Europa, acabou por se estabelecer em Londres, onde viveu até ao fim da vida.

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